sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Truculês!

O modo de falar nas delegacias de polícia, a gíria policial, geralmente repetida pelos repórteres policiais em homicídio doloso da culta língua, dá para compor um verdadeiro glossário de jargões a ser adotado por mediocridades da imprensa cabocla. Não vale a pena ser preciso com as palavras.

Linguagem da Imprensa Sangrenta
Aprecio as pessoas que cultivam a forma correta de falar. O Coronel Jarbas Passarinho, acadêmico, escritor e jornalista, grande conferencista, é uma dessas pessoas. Um dia, assistindo a uma palestra na quadra de esportes da Escola Agrícola, ouvi dele a seguinte anedota:
Charles Webster, famoso dicionarista da língua inglesa, entrou repentinamente em seu gabinete de trabalho e encontrou o secretário aos beijos e abraços com sua esposa. A mulher, baixando a saia nervosamente falou:
Estou surpresa.
Ao que o lingüista, primando pelo significado, argüiu:
Surpreso estou eu. Você está surpreendida!
O modo de falar nas delegacias de polícia, a gíria policial, geralmente repetida pelos repórteres policiais em homicídio doloso da culta língua, dá para compor um verdadeiro glossário de jargões a ser adotado por mediocridades da imprensa cabocla. Não vale a pena ser preciso com as palavras.
O uso desta sub-língua se estende a policiais civis, militares, delegados e aos agregados do mundo policial e baseia-se na prima bastarda do reputado bandidês. Quando o cidadão entra em uma delegacia ou passa por uma batida policial já percebe a existência de outro idioma, só entendido pelos iniciados.
O estudo da gíria, calão ou jargão tem sido objeto do interesse de disciplinas como a Sociologia da Linguagem, a Sociolingüística, a Lexicologia, a Semântica, a Sociologia e a Psicologia Social. Porém tivemos o cuidado de observar o corpus da língua oral, neste caso. Segundo os estudiosos a gíria da polícia relaciona os fatos sociais pertinentes à criação desse tipo de gíria. Estes são os limites da Sociolingüística e da Sociologia da Linguagem, isto é, numa perspectiva de interação entre língua e sociedade, considerando-se aquela como reflexo desta.
A linguagem policial, ou truculês, pertence a um panorama histórico a partir de assimilações que o agente faz da linguagem dos bandidos  um mecanismo espontâneo de auto-proteção, truncada do bandidês com o propósito de dificultar o entendimento até por parte dos bandidos. No entanto este fenômeno lingüístico marginal tem gerado, nas redações, um vocabulário paralelo, anti-jornalístico e se incorporou a um contexto que recai sobre a notícia sangrenta.
Vocábulos: nacional, elemento, 171, alcunha, vulgo, meliante, conduzido, presunto.
Expressões: a casa caiu, acerto de contas, bala perdida, queima de arquivo, evadiu-se do local, empreendeu fuga, jurado de morte, troca de tiro, presuntou, comeu farelo, positivo, operante, ninguém se coça, etc..
O cronista de humor Satanislaw Ponte Preta dizia que esta é uma linguagem cocoroca, ou seja, senil e que o repórter policial seria um entortado literário.
A crônica policial, voltada para a canalha, está repleta destas excrescências lingüísticas.
Nenhuma vítima de acidente ou crime vai para o hospital, mas para o nosocômio. Prosseguindo na enumeração: advogado é causídico, soldado é militar, carro é viatura, indivíduo é cidadão, acusado ou suspeito é indivíduo, bandido é elemento, deitado de costas ou de barriga pra baixo sempre corresponde às excêntricas posições de decúbito dorsal ou decúbito ventral. Ninguém veste nada, traja. Inimigo ou adversário é desafeto. Se alguém morre na hora é instantaneamente ou não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho ou ao dar entrada. Se quem morreu foi o bandido: comeu farelo.
As gírias criam um canal parcial de compreensão entre meios sem que a linguagem particular de cada setor, tanto policial como jornalístico, seja totalmente decifrada. A norma culta, nosso modelo brasileiro de comunicação verbal perde, mais uma vez, para os vícios do populacho. Os policiais estão certos. Mas a imprensa foge, mais uma vez, do seu dever de educar.
Mas, como disse um apresentador da televisão cabocla, se deu para entender, então tá certo!

Por: CMI Brasil

As pontuações deste texto foram revisadas por O Carcará.