domingo, 14 de agosto de 2011

A casa incendiada

Ilustração Pode ser que estes agitadores se queixem da exclusão social, mas isso não justifica um assalto coordenado através de blackberrys a lojas e casas. Vale a pena ouvir a opinião do egípcio Mosa’ab Elshamy: “Os egípcios e os tunisianos se vingaram das mortes de Khaled Said e Bouazizi derrubando de forma pacífica seus regimes assassinos, não roubando DVDs”.

Michael Weiss (*)

Desde que me mudei e passei a viver em Londres há mais de um ano, vi uma mulher jogar um gato vivo em uma lata de lixo, um grupo denominado Partido Socialista dos Trabalhadores manifestar-se contra o Royal Bank of Scotland, que é 84% propriedade pública, e um homem lançar uma torta de espuma de barbear em um magnata dos meios de comunicação derrotado dentro de um prédio oficial.
Os estadunidenses, em geral, devem ter ficado assombrados e horrorizados ao ver agitadores mascarados e com capuzes correndo pelas ruas de Londres, virando automóveis, queimando lojas de móveis de cem anos de antiguidade e saqueando estabelecimentos comerciais como se estivessem indo às compras: inclusive provando a roupa que iam roubar.
Mas ao ler que os revoltosos entraram para saquear um restaurante yuppie de Notting Hill, segunda-feira à noite, e que só fugiram quando foram enfrentados pelo pessoal da cozinha armado com rolos, é que começamos a nos dar conta de que a essência do inglês consiste em nunca ter que prestar contas de condutas absurdas e totalmente carentes de sentido. Desde esse ponto de vista, a sensibilidade cômica de Monty Phyton, P.G. Wodehouse e Mr. Bean não tem nada de absurdo; é resultado de uma aprendizagem empírica.
“Em Tottenham é compreensível, e em Brixton todos adoraram os distúrbios”, me disse uma colega dias atrás, enquanto me explicava que segunda à noite obrigaram-na a desviar de seu caminho para casa, em Balham. “Mas Clapham?”. Este é um bairro do sul de Londres cheio de australianos e irlandeses, bares barulhentos para jovens de vinte e poucos anos e locais tranquilos onde se toma o brunch aos domingos. É como ver os Carroll Gardens, do Brooklyn, nas mãos de uma turba. Outro amigo cometeu o erro de voltar do Festival de Edimburgo, para “uma distopia digna de Alan Moore”:
“Estou em uma estação fria e ventosa, enquanto se aproxima um trem desconjuntado que vai me levar a Londres. Depois, o condutor nos adverte pelo serviço de som que devemos ter muito cuidado ao sair do trem, porque há ‘agitação social’ em toda a cidade e alguns bairros podem não ser seguros. Paramos por 10 minutos em Croydon East, e posso sentir literalmente o cheiro de queimado”.
A causa oficial dos distúrbios foi o assassinato, na quinta-feira da semana passada, de Mark Duggan, de 29 anos, pai de quatro filhos e residente em Tottenham, em circunstâncias que a Polícia Metropolitana de Londres não consegue explicar. Está em curso uma investigação sobre o caso. Mas se este é um caso como o de Amadou Diallo (jovem de origem africana morto pela polícia em Nova York, em 1999), por que são as minorias e a classe trabalhadora as principais vítimas da agressão dos “excluídos sociais”?
No norte de Londres, os lojistas curdos e turcos se aliaram para formar “unidades locais de proteção”, com o objetivo de patrulhar as ruas e prevenir a violência e os saques que surpreenderam as autoridades ( e foi embaraçoso que os distúrbios tenham coincidido com a visita de 200 altos cargos do Comitê Olímpico, que devem estar pensando se é prudente celebrar os Jogos Olímpicos do ano que vem aqui). “Não temos nenhuma confiança na polícia local”, disse um chefe de unidade em Green Lanes. “Nossas lojas são as seguintes na lista de objetivos dos valentões que destroçaram Tottenham. Vamos proteger o que é nosso”. Uma mulher negra de Hackney, que pode ser vista em um vídeo no Youtube, está horrorizada com a delinquência: “Fiquei de boca aberta! Me envergonho de ser de Hackney. Porque não estamos nos unindo para lutar por uma causa: estamos destroçando Foot Lockert e roubando tênis. Sois uns ladrões de merda!”.
O antigo prefeito de Londres, Ken Livingstone, quis tirar vantagem política desta anarquia. Primeiro pediu que se utilizassem os canhões de água contra os mascarados que jogavam coquetéis molotov e logo depois responsabilizou as políticas de austeridade do governo conservador pelos distúrbios. “Quando se fazem cortes maciços”, declarou à BBC segunda-feira à noite, “sempre existe a possibilidade de que estoure uma revolta assim”. A pomposa analogia feita por Livingstone com a praça de Tahrir encontrou um rechaço cortês de Shaun Bailey, um animador social negro e conservador que disse que este não era o momento de apontar-se tanto para os políticos e que tudo aquilo, definitivamente, não passava de roubar artigos de lojas. Um vídeo muito visto no Youtube mostra um jovem de traços asiáticos que é ajudado a levantar-se do solo em um ato de aparente amabilidade....para logo ser atacado.
“Á noite fui a Croydon buscar minha avó”, me contava esta manhã no Facebook um estudante britânico de origem afegã. “Está a uns cinco quilômetros de minha casa. Vi vários edifícios em chamas. A polícia estava na rua principal e quando saiu apareceu outra massa de gente. Havia muitas pessoas com bolsas (provavelmente cheias de tudo o que tinham roubado)”. Outro testemunho do norte de Londres ouviu “duas meninas que discutiam sobre qual loja roubar na continuação. Vamos a Boots? Não, Body Shop. Vamos a Body Shop quando estiver morto (ou seja, quando estiver vazia)’.
Pode ser que estes agitadores se queixem da exclusão social, mas isso não justifica um assalto coordenado através de blackberrys a lojas e casas. Vale a pena ouvir a opinião do egípcio Mosa’ab Elshamy: “Os egípcios e os tunisianos se vingaram das mortes de Khaled Said e Bouazizi derrubando de forma pacífica seus regimes assassinos, não roubando DVDs”.
(*) Michael Weiss é diretor de comunicações da Henry Jackson Society, um think-thank com sede em Londres, que promover a “geopolítica democrática “. Artigo publicado originalmente no jornal El País.
Tradução: Katarina Peixoto

Por: Carta Maior