quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Essa é a administração tucana: Em plena zona sul de São Paulo não tem internet e celular

Nilson e os filhos: computador encaixotado, esperando uma internet que não chega (Foto: Jailton Garcia/RBA) Nilson guarda o computador novo em folha há quatro meses dentro da caixa, do jeitinho que chegou da loja. Este encarregado de depósito de 43 anos não está com qualquer alteração psicológica. A máquina não veio com defeito, funciona perfeitamente. Falta-lhe apenas um detalhe: uma tal de internet.

O caso de Nilson da Costa Meireles seria relativamente comum em rincões do país – o que não quer dizer que seja normal. Mas é em São Paulo que fica a casa dele. Muitos moradores batem no peito por viverem na maior cidade da América Latina, capital dos bares, dos cinemas, da alta gastronomia, dos serviços 24 Horas. E Nilson se daria por satisfeito com algumas horas de serviço de internet para alimentar seu computador novo. “Tem essa febre de jovens irem para lan house. Aí comprei o computador para segurar os filhos em casa”, afirma, olhando para os meninos de 14 e de 15 anos. 

A história de Nilson não é isolada. Não é por falta de condições financeiras que guarda o computador na caixa, sem uso. Ele mora em Vargem Grande, um bairro da zona sul da capital paulista que tem duas opções quando se trata de internet: comprar a conexão extra-oficial de algum vizinho que tenha contratado um link ou optar pela boa, velha, lenta e irritante conexão discada. Esta, além dos empecilhos convencionais, ganha toques cruéis nesta comunidade, já que as linhas telefônicas caem com frequência e o restabelecimento nem sempre é rápido. “Cheguei a ficar 25 dias sem telefone em casa. A Eletropaulo fez a troca de postes. A Telefônica não reinstalou os cabos dela, falou que era obrigação da Eletropaulo”, conta Nilson.

Celular? Nem

Ilustração “Estes dias tocou um celular aqui na frente”, noticia, pimpão, um morador de Vargem Grande. Dizem que as grandes alegrias estão guardadas nas pequenas coisas. Conseguir usar um telefone móvel neste rincão paulistano é felicidade para um ano. O problema é que os outros 364 dias são de aborrecimento com um aparelho que não funciona. Celular, aqui, só serve como relógio.

A locomotiva do Brasil, responsável por 11,8% do Produto Interno Bruto nacional, aparentemente não se importa em deixar sem vagão alguns de seus passageiros. Vargem Grande fica no distrito de Parelheiros, que ostenta Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,747 em uma escala que vai de zero a um. É um dos mais baixos IDHs de São Paulo, bem longe de Moema (0,961), Pinheiros (0,960) e Perdizes (0,957). Enquanto moradores destes bairros têm à disposição uma internet de até 100 mega bits por segundo, no extremo sul da cidade é um feito atingir uma velocidade de 300 ou 400 kilobits por segundo, o que nem é considerado banda larga.

Aparentemente, os 42 quilômetros que separam a comunidade da Praça da Sé, marco-zero paulistano, são intransponíveis aos adormecidos interesses do setor privado. Os cabos do Speedy, da Telefônica, chegam até o centro de Parelheiros, a menos de cinco quilômetros, e até Colônia, bairro distante sete quilômetros. Ao longo dos anos, foram florescendo versões sobre o porquê do abandono e cresceu a expectativa da comunidade. “Na Telefônica, disseram que em 2014 vão disponibilizar (banda larga). Há quatro anos disseram que era em 2008”, lamenta Leonardo Silva Malaquias, dono de uma das lan house locais.

Há quem diga que obstáculos técnicos inviabilizam o fornecimento do serviço. Paranóias da cratera? O bairro nasceu, sem saber, no buraco criado há dezenas de milhões de anos pela queda de um meteoro, uma história contada na reportagem “A saga do povo da cratera”, na edição 53 da Revista do Brasil. Mas há telefone. Logo, há cabo. Então, deveria haver banda larga. Outros moradores acreditam em perseguição política da comunidade, muito combativa. Eles apresentaram abaixo-assinados e ligaram várias vezes à operadora, mas nunca receberam uma resposta oficial.

Por: Rede Brasil Atual