quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ex-ditador Mubarak chega de maca para julgamento

O julgamento do ex-presidente do Egito Hosni Mubarak começou nesta quarta-feira no Cairo, capital do Egito.

O ex-líder do Egito, de 83 anos e que permaneceu quase 30 anos no poder, renunciou à Presidência no dia 11 de fevereiro, após 18 dias de protestos populares contra o seu regime.

Mubarak e seus dois filhos se declararam inocentes das acusações de corrupção, de apropriação indébita e de ordenar a morte de manifestantes - crime que pode ser punido com a pena de morte.

O ex-presidente foi levado ao tribunal, na academia de polícia, em uma maca - para delírio de opositores que se aglomeravam na entrada da corte.

Confronto

Manifestantes contra e a favor de Mubarak se enfrentaram diante do tribunal.

O ex-presidente egípcio é o primeiro líder árabe a ir a julgamento desde que teve início a onda de protestos populares em diferentes países do Oriente Médio.

Correligionários de Mubarak e ativistas contrários ao seu regime trocaram insultos e lançaram pedras uns contra os outros.

Eles tiveram de ser contidos por forças de segurança em frente ao tribunal montado dentro da academia de polícia local. O júri estava inicialmente marcado para ocorrer em um centro de convenções na capital egípcia, mas as autoridades mudaram o local do julgamento para um fórum temporário dentro da academia, devido a questões de segurança.

Cerca de três mil homens, entre soldados e policiais, foram convocados para manter a ordem no local do julgamento.

O ex-presidente estava hospitalizado na cidade de Sharm el-Sheikh desde abril e seus advogados afirmam que ele está muito doente - alegação que é vista com ceticismo por adversários de seu antigo governo.

Mubarak foi transportado de avião de Sharm el-Sheikh para o Cairo e chegou ao tribunal de helicóptero.

Segurança

Um forte esquema de segurança foi montado em toda a cidade. Relatos indicam que as forças de segurança deram tiros de advertência na praça Tahrir, no centro da cidade, para dispersar manifestantes. O local foi palco dos protestos populares que levaram Mubarak a renunciar, em fevereiro deste ano.

Os filhos de Mubarak Alaa and Gamal também serão julgados, assim como o ex-ministro do Interior Habib al-Adly - já condenado a 12 anos de prisão - e seis autoridades do antigo regime.

Mubarak foi levado de maca até uma cela construída na corte, de onde assistiu ao julgamento ao lado dos outros réus - incluindo seus dois filhos.

A expectativa é de que cerca de 600 pessoas comparecerão ao julgamento.

O enviado especial da BBC ao Cairo, Jon Leyne, conta que muitos egípcios estavam céticos quanto à presença do ex-presidente no tribunal, já que muitos dentro da cúpula militar do país não desejam ver o ex-presidente sendo humilhado.

No último mês, novos protestos foram realizados na praça Tahrir, por pessoas cansadas com o ritmo das mudanças no país, considerado lento.

Entre as demandas dos manifestantes à junta militar que comanda o país, está o julgamento mais rápido de autoridades do antigo regime.

Na segunda e na terça-feira, a polícia, com o apoio de soldados, tirou da praça os últimos manifestantes.

Silêncio e espanto

Manifestante pró-Mubarak arremessa pedra contra ativista contrário ao ex-presidente diante da academia de polícia onde irá ocorrer o julgamento (Reuters)

Ativistas pró e contra Mubarak tiveram de ser contidos por forças de segurança

O juiz Ahmed Refaat abriu a sessão pedindo ordem e dizendo que "o povo civilizado do Egito pede calma, para garantir que a missão desta corte seja levada a cabo completamente, para que possamos satisfazer ao Deus todo poderoso e nossas consciências".

Na rua em frente ao tribunal, um silêncio pairava e uma sensação de espanto imperava entre a multidão que assistia ao julgamento através de um telão.

O manifestante Nariman Yousseff, contrário a Mubarak, disse à BBC:

"Não acho que ninguém aqui tenha ilusões de que esse julgamento será real", disse. "Estamos esperando ver o que vai acontecer, como eles vão escapar, porque está muito claro que o Conselho Supremo das Forças Armadas, que está à frente do país no momento, não tem a intenção de cumprir as demandas da revolução", afirmou ele, referindo-se a uma possível condenação de Mubarak.

Por: BBC Brasil