quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Manifesto mostra um PSD à direita com pitadas de retórica social

O Partido Social Democrático (PSD) lançou nesta quarta-feira (28), horas depois de a justiça eleitoral ter aprovado sua criação, um “Manifesto à Nação”, na primeira reunião oficial de suas lideranças. O texto apresenta as linhas gerais que serão defendidas pela legenda, potencialmente uma das maiores do Congresso.
O que se vê no documento é um partido inclinado à direita, mas que se esforça por atenuar a vocação – inevitável pela origem de seus dirigentes – com pitadas de retórica social. Assim, tenta se encaixar no “centro” da política, como agora é classificado pelo seu primeiro presidente nacional, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.
No manifesto, o PSD ergue como bandeira principal a convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte, para revisar a Carta de 1988. Sua realização será proposta no Senado, provavelmente pela senadora Katia Abreu (TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e filiada ao partido.
“Há tempos o Brasil está amarrado, travado, perdido em discussões que não prosperam, viciadas ora pelo fisiologismo, ora pelo corporativismo, radicalismo ou problemas menores. Sabemos que minirreformas ou remendos não resolvem mais”, diz o manifesto, a pregar reformas política e tributária – mas também penal e trabalhista.
A ideia de uma ampla revisão da Constituição costuma causar arrepios em partidos e militantes de esquerda, porque muitas das críticas dirigidas à Carta referem-se a uma suposta ingovernabilidade que ela teria produzido com seus inúmeros dispositivos de proteção social.
Talvez por isso, o documento do PSD diga ser necessário rever a Constituição inclusive para contornar a “falta de recursos para dar aos brasileiros serviços dignos de saúde, educação, segurança, justiça e oportunidade igual para todos”.
Dois pra lá, um pra cá
Essa tipo de dubiedade percorre quase todo o manifesto. De um lado, o PSD defende a propriedade privada, a economia de mercado, a divulgação do valor dos impostos no preço de cada produto, ideia antiga de um dos caciques do PSD, o empresário Guilherme Afif Domingos, vice-governador de São Paulo e ex-presidente da Associação Comercial de São Paulo .
“Somos, por convicção e princípio, contra qualquer tipo de censura, controle, restrição ou regulamentação da mídia”, diz o texto, sem mencionar proposta em estudo no governo que é uma das maiores bandeiras atuais do PT, partido que, em Congresso, recente deixou aberta a porta para alianças com o PSD nas eleições municipais do ano que vem.
No manifesto, o PSD afirma ainda ser defensor da agricultura e pecuária, representada organicamente na legenda na figura da senadora-ruralista Katia Abreu.
Por outro lado, o texto diz que o PSD faz “questão de lembrar e valorizar a multidão de pequenos produtores, uma classe batalhadora que carrega o Brasil nas costas”, num aceno ao segmento familiar da agricultura, não raro em polo oposto aos dos grandes ruralistas em questões campesinas. E que o partido “defende a preservação do meio ambiente como fator de sobrevivência do homem e da própria vida do planeta. É possível alargar as fronteiras da produção, de maneira sustentável e responsável.”
São dois exemplos de pitadas de retórica social, mais à esquerda, presentes no texto. Em outros trechos, o documento afirma, por exemplo, que o PSD apoia “as políticas sociais aos que mais precisam do amparo do estado, e a necessidade de abrir as portas de entrada do emprego digno para esses cidadãos”. E que acredita num “Estado forte” e “regulador”, embora ressalve que isso não signifique um Estado “obeso”.
O esforço do PSD para se mostrar mais “social” e popular também incluiu a filiação em massa de dirigentes de uma das seis centrais sindicais oficiais do país, a União Geral dos Trabalhadores (UGT). A entidade é presidida por Ricardo Patah, que é presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, daí a proximidade dele com Afif, antigo interlocutor patronal do sindicalista.
A missão principal dos sindicalistas da UGT, segundo o manifesto, será ajudar a formatar as posições do PSD no dia a dia, em diálogo no Espaço Democrático, o órgão de formulação política do partido. A instância partidária será comandada justamente por Afif.
Em relação ao governo federal, o partido sugere no manifesto que quer ter boas relações com o governo Dilma Rousseff. “O PSD afirma que não fará oposição pela oposição. Faremos política para ajudar o Brasil. Nossos adversários não são inimigos a eliminar, mas cidadãos com os quais vamos dialogar, sem violências ou radicalismos.”
Em um vídeo sobre o nascimento da legenda colocado na página do PSD na internet, Kassab reforça a mensagem de que espera colaborar com o governo Dilma. “Reconhecemos a luta do governo federal e tudo que foi feito nas última décadas”, afirmou. “Não faremos oposição pela oposição. Não viemos para dividir, mas para somar.”

Por: Carta Maior