terça-feira, 1 de novembro de 2011

Alternativas para a casa em chamas

Conservadores acusam indignados de não apresentarem alternativas. É irônico. Quem não tem respostas a dar acusa o outro de não saber que perguntas fazer. Manifestantes têm um ponto poderoso em comum: são contra “tudo isso aí”.

Gilberto Maringoni

A semana que passou estabeleceu um marco nos protestos contra a crise. Manifestantes tomaram ruas e praças – em intensidades variáveis – em 951 cidades de 82 países. Os maiores atos ocorreram na Europa, em Bruxelas, Madri, Barcelona, Roma e Londres.
A acusação mais repetida contra os protestos é que seus integrantes não têm bandeiras ou demandas claras. Em parte é verdade. Mas qual o problema real?
Tais acusações partem invariavelmente de comentaristas conservadores e partidários do status quo, que naufraga a olhos vistos. Os responsáveis pela situação não têm satisfações a dar às maiorias desesperadas, a não ser exigir mais arrocho. Estamos na seguinte situação: aqueles que não conseguem apresentar respostas acusam os oponentes de não saberem quais as perguntas a serem feitas.
Vinte anos depois da proclamação do fim da História e do advento de uma intensa campanha contra tudo o que tivesse ligação com mudança e transformação social, a Europa chega ao precipício.
O problema não é exatamente falta de rumos, é que os setores que se manifestam apresentam características novas.
Setores organizados
Em um século e meio de história, a esquerda, munida de teoria e vontade, aprendeu a atuar com setores organizados da sociedade. A construção de partidos, sindicatos, frentes, ligas, associações e outros organismos disciplinaram a luta de classes.
Os embates deixaram de ser espontâneos e passaram a contar com formulações, com tática e estratégia, que otimizaram forças e agregaram ciência à mobilização social. Construíram-se teorias, que deram previsibilidade a enfrentamentos. Diante da estruturação dos setores dominantes – que contavam com Estado, capital e violência organizada – se contrapunha a disciplina de partidos e entidades de massa. Mesmo situações de derrota passaram a ter sua pedagogia positiva, com lições a potencializar novos enfrentamentos.
Apesar dos mecanicismos que muitas vezes advinham de tais concepções, a esquerda aprendeu a fazer política com projeto tático e estratégico e movimentos planejados.
Mesmo as mobilizações de 1968 – que evidenciaram a existência de bandeiras transversais e matizadas na luta de classes, como direitos das mulheres, dos negros, das minorias sexuais etc. – tinham como caminho de acumulação de forças a organização social e a formação de blocos e alianças.
União do não pertencimento
As mobilizações de 2011 estão em curso. Mas apresentam algumas novidades.
Ela não está apenas no alcance potencialmente global das rebeliões - mas especialmente por arregimentar setores não organizados previamente. É uma espécie da união do não pertencimento, uma coletividade fragmentada. O movimento Ocupar Wall Street, os protestos dos Indignados e todas as marchas que se agregam sob a bandeira de “Somos 99%” não foram arregimentados por partidos, sindicatos, ONGs, associações, clubes ou por qualquer entidade tradicional. Têm um caráter espontâneo e insurrecional acentuado e são convocados por redes sociais na internet e não por carros de som nas portas de fábricas. Em outros tempos formariam os chamados setores “desorganizados”. São os sem-líderes, os sem-partidos, além de sem-empregos e sem-esperanças.
A bandeira que os congrega é a negação “a tudo isso aí”. É poderosa por ser ampla, mas frágil por ser genérica. É impactante por mostrar resistência ao desastre, mas precisará dar um passo adiante para evitá-lo.
Keynesianismo liberal?
Tudo indica que estamos entrando em um período prolongado de crise. O choque de 2008 – que não provocou, de imediato, reação popular à altura e nem teoria para a superação do modelo econômico que a gerou – entra agora num segundo tempo. Esgotaram-se as receitas daquilo que se poderia denominar keynesianismo liberal. A contradição em termos se deu através das maciças injeções de dinheiro público nas grandes corporações – financeiras e industriais – para se evitar um desastre iminente.
Alguns analistas, de forma apressada, viram nesse tipo de socorro a evidência de que o neoliberalismo – com sua repulsa às intervenções do Estado na economia – falira e que em seu lugar políticas anticíclicas de corte keynesiano haviam entrado em ação.
Embora tenham adiado o desastre em várias frentes, as medidas não foram acompanhadas de uma iniciativa estrutural. Além de os lucros das grandes agências financeiras continuarem a engordar contas de acionistas e contracheques de altos executivos, nem um parafuso foi apertado em favor de um novo tipo de regulação dos mercados. Ao contrário: medidas desse tipo foram rechaçadas tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.
Velhas regras
O caso das montadoras de automóveis no Brasil representou uma pequena amostra da situação global. Apesar de receberem empréstimos a juros subsidiados de R$ 16,3 bilhões do BNDES, as empresas realizaram remessas de lucros e dividendos da ordem de R$ 12,4 bilhões às suas matrizes, entre os anos de 2008 e 2010. Os investimentos para manter a produção ficaram em apenas R$ 3,6 bilhões no mesmo período (http://www.cartacapital.com.br/economia/gasto-publico-lucro-privado-2). Além de não haver nenhuma restrição a esse tipo de operação, as empresas automotivas foram premiadas com novas rodadas de isenções e favores, sem necessidade de apresentarem contrapartida na manutenção do nível de emprego e salário.
Mais dinheiro jogado em um sistema que mantém as mesmas regras, adia mas não resolve problema algum. O Estado na Europa e nos EUA garantiu interesses privados. As crises fiscais daí advindas arrombaram os cofres públicos. A conta que a Grécia é forçada a pagar – e que chega também a Espanha, Portugal e Itália, em menor grau – representa um aprofundamento do neoliberalismo e não sua superação.
A casa em chamas
Os indignados europeus sentem o drama na carne. Percebem que estão levando a pior no jogo e só têm uma alternativa: as ruas. Podem não saber o que querem, mas sabem bem o que não querem.
A situação lembra um conhecido poema de Brecht, a “Parábola de Buda sobre a casa em chamas”. Nele, Buda conta a seus discípulos uma história:
“Numa ocasião, vi uma casa pegando fogo.
As chamas saíam pelo telhado.
Quando me aproximei, vi homens em seu interior.
Avisei que o teto estava queimando,
Mas não tinham pressa.
Um deles, enquanto suas sobrancelhas começavam a arder,
Perguntou-me como estava o tempo aqui fora, se a chuva continuava,
Se a ventania parara, se havia outra casa nas redondezas e assim por diante.
Não respondi e me afastei.
Na realidade, meus amigos, aos indiferentes que não vêem motivos para mudar
Não tenho nada a dizer”.

A casa global começa a pegar fogo. Em alguns lugares as sobrancelhas de muita gente já ardem. Os comentaristas conservadores desdenham os ativistas e perguntam como vai o tempo, se chove amanhã etc. etc...
Não importa. É preciso negar tudo. É preciso sair da casa rápido.
E depois pensar nas alternativas para se apagar o incêndio e reconstruir tudo em outras bases.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Da Carta Maior