quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Saúde na cidade: benefício ou mais sofrimento?

Condições de saneamento são um dos problemas que pioram os indicadores de saúde nas áreas pobres das cidades (Foto: Cidálio Vieira)A migração de pessoas do campo para a cidade no Brasil é tão intensa que já não nos perguntamos mais, no dia a dia, quais os motivos que levam a essa decisão. Além da busca por uma renda maior, os dados mostram que, em geral, o acesso à saúde é melhor em aglomerações urbanas do que em um ambiente rural.

Isso é verdade em praticamente todo o mundo. Um levantamento realizado pelo grupo de pesquisa Urban Age, ligado à London School of Economics, no Reino Unido, mostra que, em 90 países pesquisados, os indicadores médios de saúde são melhores em áreas urbanas que em rurais. Algumas razões para essa tendência são óbvias. As cidades concentram a maior parte da riqueza mundial. Hoje, 600 cidades acumulam 60% do PIB mundial, mas representam apenas 20% da população. Além disso, é nas cidades que se concentram hospitais e médicos, além de infraestrutura de água e saneamento, fundamentais para melhorar indicadores de saúde.

O que os números falham em mostrar, no entanto, é que há diferenças profundas entre a atenção à saúde nas cidades. Cidadãos com baixa renda podem ter indicadores de saúde piores que os da áreas rurais. Crianças que vivem em assentamentos informais em Nairóbi, no Quênia, têm maior probabilidades de morrer antes dos cinco anos do que aqueles que vivem nas áreas rurais.

Outra mudança que pessoas de baixa renda sofrem quando se mudam para uma grande cidade é o aumento da incidência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, por conta da mudança de dieta. Na cidade, alimentos industrializados são mais baratos do que frescos, o que causa um aumento na incidência desse tipo de doenças. Sem informação e renda suficiente para adquirir alimentos mais saudáveis, além de pouco esforço físico, esse é um quadro difícil de mudar. Esse é o chamado fardo duplo que os pobres sofrem nas cidades. Acidentes, poluição e violência ajudam a piorar o quadro.

A diferença entre pobres e ricos é clara em São Paulo. Os dados de saúde das Zonas Leste e Sul, que concentram a população de menor renda, são piores que os da região Centro-Oeste, mais rica. Em 2010, 4,3% das crianças morreu antes de completar um ano na Zona Leste; o número é de 4% na Zona Sul e de 1,7% na região Centro-Oeste. O coeficiente de mortalidade por diabetes em pessoas com menos de 60 anos também é mais alto nas áreas mais pobres: foram 22,9 mortes por 100 mil pessoas na Zona Leste contra 11,4 na área Centro-Oeste.

Planejamento importa?

Em países desenvolvidos, há debates sobre a força do planejamento urbano e de design na luta contra problemas urbanos enfrentados pelos mais pobres, inclusive os de saúde. Em lugares onde as não existem moradias como favelas, há dúvidas sobre se é possível melhorar ainda mais as condições de vida por meio do ambiente. No Brasil, no entanto, essa pergunta faz pouco sentido. Na periferia das grandes cidades, é evidente que melhorar o ambiente vai ajudar a melhorar os indicadores de saúde. As cidades brasileiras matam mais pobres do que ricos e, por mais que isso pareça comum, não é normal e não pode ser aceito.

Por: Rede Brasil Atual