quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Privataria Tucana lança luz às privatizações do governo FHC

Lançado na última sexta (9), livro some das prateleiras das livrarias apesar do silêncio de boa parte da mídia.

Por Sheila Fonseca, especial para o Vermelho 

Apesar do silêncio quase unânime dos grandes veículos de comunicação, o livro A Privataria Tucana chegou às livrarias no último fim de semana alcançando dois feitos: o de sucesso editorial retumbante que deve posicioná-lo no topo dos livros mais vendidos, e o de cair como uma verdadeira bomba no cenário político brasileiro, trazendo denúncias documentadas sobre graves irregularidades no esquema de privatizações do governo FHC, apelidadas há tempos atrás pelo colunista Elio Gaspari de “privataria”, termo utilizado no título do livro.
O livro, resultado de doze anos de trabalho do jornalista Amaury Ribeiro Jr., foi alvo de polêmicas – assim como o autor – e controvérsias nas eleições presidenciais de 2010, quando Amaury foi acusado de participar de um grupo que tinha como objetivo a montagem de um dossiê contra políticos tucanos. Na ocasião, Amaury Ribeiro Jr., que terminou indiciado pela Polícia Federal, cita o livro e torna-se personagem marcante na disputa presidencial.
O livro chegou às bancas na última sexta ( 9), publicado pela Geração Editorial, e revela por meio de farta documentação extraída de fontes públicas – como arquivos da CPI do Banestado – o esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de propina.
No livro, José Serra, ex-ministro da Saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso, figura como personagem-chave das denúncias. Documentos revelam como amigos e parentes do político do PSDB operaram um complexo sistema de irregularidades e fraudes financeiras.
Em entrevista exclusiva ao Vermelho, o jornalista Luiz Fernando Emediato conta os bastidores de uma série de controvérsias envolvendo o livro, esclarece boatos, responde frontalmente ao ataque do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dirigido ao autor do livro, esclarece a tentativa de Serra de barrar o lançamento do livro, além das denúncias de arapongagem sobre Amaury Jr..
A entrevista a seguir também traz passagens da vida profissional do editor e polêmico jornalista Luiz Fernando Emediato, ganhador de diversos prêmios, dentre eles o Esso.
Vermelho: A sua editora, Geração Editorial, desde seu lançamento no mercado com A República na Lamade José Neumanne, passando pelo bombástico Memórias das Trevas sobre ACM, até o Privataria Tucana, segue a linha de publicação de temas polêmicos e reportagens investigativas que revelam os bastidores da política. Como foi feita a escolha por esse perfil de publicação? Livros de jornalismo investigativo em geral têm bom retorno editorial?
Luiz Fernando Emediato: Começamos nossa história editorial, em 1992, há 20 anos, portanto, lançando instant books, como este do Nêumanne que você cita e logo em seguida o Mil Dias de Solidão, do Claudio Humberto Rosa e Silva, ex-porta voz de Fernando Collor. Começamos assim porque em 1990 eu havia abandonado meu emprego de jornalista e, ao decidir ser editor de livros, decidi também que continuaria exercendo jornalismo publicando livros. Foi uma escolha ética e profissional. O retorno é bom, não tanto quanto lançar livros de autoajuda, de historias de vampiros para adolescentes ou romances edulcorados para moças.
Vermelho: Privataria Tucana teve a primeira edição esgotada em cerca de 48 horas. Você esperava esse retorno? Apostava no tema?
LFE: Eu apostei no tema, quem não apostou foram as livrarias. Antes de definir a tiragem eu consulto a rede livreira e ela me indicava fazer apenas 15.000 exemplares, mais do que isso elas não pegariam e eu teria que guardar no estoque. Então foi uma surpresa para elas, não para mim. Meu feeling apontava para 100 mil exemplares, acho que vamos passar de 300 mil.
Vermelho: Tem previsão de impressão de uma nova edição? Quantas cópias?
LFE: Já estamos reimprimindo 30.000 exemplares, estarão prontos sexta-feira.
Vermelho: Me fale da estratégia de divulgação do livro, como foi montada?
LFE: Como eu apostava no conteúdo devastador do livro, mas temia que os grandes jornais não o levassem em consideração, ou divulgassem com críticas pesadas, a estratégia foi não liberar o livro para a imprensa, salvo para a revista CartaCapital, e trabalhar apenas com internet, blogues, Twitter e Facebook. Deu certo.

Vermelho: Você revelou em entrevista recente que José Serra enviou um representante para propor uma conversa, na tentativa de barrar a publicação do livro. Como foi isso?

LFE: Não foi isso. Um amigo comum – meu e dele – me convidou para almoçar e, muito elegantemente, fez perguntas sobre o livro, a pedido do Sr. José Serra e, sabendo que eu ia publicar, perguntou se eu não aceitaria ir conversar com o ex-governador. Respondi que não tínhamos o que conversar e foi só isso.

Vermelho: Está circulando online uma matéria publicada em alguns sites e blogs, onde (segundo a reportagem) José Serra teria entrado em contato com a livraria Cultura para tentar comprar todos os exemplares, na tentativa de retirar do mercado o livro. Esta sabendo disso?
LFE: Foi um boato, negado pela livraria. Não acreditei nisso, José Serra não seria estúpido a ponto de fazer isso. Ele teria que comprar 15.000 exemplares pelo pais inteiro, isso seria impossível.

Vermelho: Existem informações disseminadas em redes sociais, não confirmadas, de que o livro estaria sendo retido em algumas livrarias sob alegação de suposta ‘ordem judicial’. É verdade? Essa informação chegou a vocês?
LFE: É falso. Não há, até o momento, ação judicial contra a circulação do livro.

Vermelho: Você espera processos em decorrência do livro por parte do alto escalão do PSDB?
LFE: Sim e não. Seria um erro o senhor José Serra ou qualquer outro entrar na Justiça contra o autor e a editora. A repercussão seria pior. Podem entrar com pedidos de indenização por danos morais, se se considerarem injustiçados, mas, nesse caso, podemos em reação pedir à Justiça que nos permita provar o denunciado. E aí provaremos. Não vejo como os personagens citados no livro possam ganhar qualquer ação contra nós. A verdade é uma só, não existem duas ou três.
Vermelho: Você possui bom trânsito e algumas amizades no Partido dos Trabalhadores. Tem receio da instrumentalização política alavancada pelas eleições municipais de 2012 e 2014? Acha que o livro pode ser taxado por alguns de ‘petista’? Espera esse tipo de manobra midiática?
LFE: Eu tenho bom trânsito com gente de todos os partidos e de governos passados, assim como do atual governo. Fui e sou jornalista. Conheço gente que está na política desde o governo do general Geisel, que me perseguiu, aliás, com base na Lei de Segurança Nacional. Fui amigo de Sergio Motta, a quem admirava muito, convivi com Fernando Henrique Cardoso e muitos de seus ministros. Uma vez disse ao José Sarney que, ao contrário de muitos, gostava de alguns romances dele. Não sou filiado a partido nenhum. Tenho amigos no PT, na CUT e na Força Sindical. Escrevi projetos com o ex-ministro Antonio Kandir, de FHC. Fica difícil alguém acusar-me de estar a serviço do PT. Tenho amigos no PSDB que estão me ligando, chateados, e eu lhes peço apenas que LEIAM o livro do Amaury Ribeiro e depois venham falar comigo. As provas contidas no livro são irrefutáveis e lamento muito por isso. É realmente uma tristeza grande ler aquilo.

Vermelho: Nas eleições presidenciais de 2010 o jornalista Amaury Ribeiro Júnior (autor do livro) foi pivô de denúncias de arapongagem e na época o livro foi muito citado. Isso foi motivo de preocupação para a editora? Você acha que ajudou?
LFE: Eu conheço o jornalismo de Amaury Ribeiro Junior, jornalista investigativo, que não é rico e precisa trabalhar para viver. Ganhou muitos prêmios no jornalismo, assim como eu, nós ganhamos o Esso, o maior prêmio do jornalismo brasileiro, cada um com seu estilo. O que fizeram com ele na campanha da Dilma Rousseff foi uma canalhice, ele nunca fez dossiê nem arapongagem, ele estava sendo contratado (nem chegou a ser) para, com seu talento investigativo, apurar fatos para a campanha. O dossiê do qual tanto se falava era este livro, que na época não estava pronto. E ele, claro, não ia vender o conteúdo do livro para campanha nenhuma, trata-se do trabalho de uma vida, 12 anos de investigação, Eu não tive absolutamente nenhuma preocupação. Eu li o livro antes de publicar, é claro. Não cortei uma linha. Na verdade, acrescentei meia dúzia de linhas, em trechos que pediam um pouco mais de pimenta. Com a concordância do autor.

Vermelho: O ex-presidente FHC declarou no último domingo (11), durante sabatina a repórteres, que "O autor desse livro está sendo processado. Está na Polícia Federal. Até lá, quem está sob judice é ele.", saindo em defesa de José Serra. Vocês aguardam ataques contra o autor na tentativa de abalar a credibilidade das denúncias expostas no livro? O autor e a editora possuem alguma estratégia para rebater essas críticas?

L.F.E.: O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso está mal informado a respeito do caso. Vai ter que puxar as orelhas de sua assessoria, porque Amaury Ribeiro está respondendo a processos assim como o próprio Fernando Henrique já respondeu e eu também. Ser processado não é desonra. O que desonra é se somos justamente condenados por algum crime.
Vermelho: Qual a repercussão dessas denúncias em sua opinião no cenário político? Seria o fim da trajetória política de José Serra? Acha que haverá investigação do Ministério Público?
LFE: A repercussão é enorme, espantosa. Não sei se é o fim de José Serra, ele precisa se defender. E se ele não sabia de nada do que sua filha e seu genro e amigos faziam? E se fizeram tudo aquilo em nome dele, coitado? O problema é que ele está calado e usando seus meios, que todos conhecem, para abafar o caso. Isso é muito suspeito. Quanto ao Ministério Público, que investiga todo mundo com base em qualquer denúncia, e-mails, recortes de jornais, imagino que vai entrar no caso, sim.

Vermelho:
Você é um jornalista premiado e teve sua trajetória profissional marcada por vitórias e polêmicas. Incluindo um Prêmio Esso por Geração Abandonada. Você tem predileção por histórias polêmicas? Como faz a seleção de seus temas?
LFE: Bem, eu tenho orgulho de minha carreira, eu fui jornalista em jornais e na TV dos 23 aos 39 anos, deixei meu emprego muito cedo, porque já havia chegado ao topo e não queria mais ser subordinado a um patrão. Ganhei minha liberdade e sou uma pessoa totalmente feliz. Nunca pensei em ficar rico, tenho os pequenos negócios da família, a editora, estou produzindo filmes, e presto consultoria (de verdade!) para pouquíssimos amigos do sindicalismo e da política. Não é que tenho predileção por histórias polêmicas. O fato é que vivemos tempos em que buscar a verdade já é, em si, procurar polêmica.
Vermelho: Geração abandonada provocou a ira de alguns dos jovens integrantes do movimento punk paulistano, como o músico Clemente, líder da banda punk Inocentes, que chegou a falar: “Foi a coisa mais estúpida que já vi escrita sobre punk”. Como foi sua reação à reação deles? Chegou a conversar com eles sobre isso, já que o Clemente chegou a escrever para o jornal reclamando?
LFE: Eu não costumo debater com personagens de reportagens. Eu continuo fazendo jornalismo. Onde está o Clemente?