quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O maior déficit é o déficit da democracia

banner_32954O arrasa-terra em “Pinheirinho” e a desabrida “Dor e Sofrimento”, operação de “reintegração de posse” em curso na Cracolândia, ambos eventos paulistas, não são fruto de uma desastrada coincidência. Tampouco tem origem em precipitações de um aparato repressivo desmiolado. Obedecem ambos a uma matriz política inteiriça: o arraigado entendimento conservador do que seja governar uma sociedade e seus conflitos, ótica esta protagonizada hoje no país, em São Paulo, em especial, pela coalizão de forças abraçadas sob o denominado guarda-chuva “demotucano”.
Ao comando desse bunker político-policial-midiático, o Estado exerce sua função coercitiva colocando o monopólio da força quase que invariavelmente a serviço do establishment e de tudo o mais o que disso resulta.Há sempre nuances agradáveis e simpatias individuais a ressaltar.
Vapores de convivência civilizada flanam por corredores e políticas interclassistas desde que o pano de fundo não esteja tomado pelo conflito entre os que estão dentro e os que vivem na soleira da porta, do lado de fora do país, não raro, da civilização. Instalado o embate, e é justamente disso que trata a democracia, o poder conservador evoca sua fidelidade à ordem jurídico-judicial, pela qual não exatamente morreu de amores em 1964, para citar apenas uma exceção.
Ato contínuo, boicota e reprime qualquer arguição das nuances que, amiúde, opõem as razões de justiça e direito. Igual rigidez manifesta-se no escopo da crise mundial. O colapso provocado pela supremacia das finanças desreguladas deu notável transparência a ela. Um dado resume os demais: juntos, o BCE e o FED já repassaram cerca de US$ 6 trilhões de dólares aos mercados financeiros para evitar o seu colapso. Não é ilegal.
Tampouco o é, pela fita métrica da ordem, que um bilhão de famintos vegetem tendo como único esteio o orçamento da FAO previsto para este ano:US$ 1 bilhão,ou seja, US$ 1 per capita por faminto/ano. Nem mesmo um dilúvio de ações de reintegração de posse será suficiente para acomodar tais desproporções, repita-se, absolutamente legais. Tampouco o espaço disponível para o dissenso, na maioria dos países, permitirá a formação de grandes maiorias históricas para superar as contradições explosivas dessa contabilidade catalizadas pela crise.
O déficit de democracia é a agenda obrigatórias dos dias que correm. Em “Pinheirinho”, na praça Taharir, na praça do Sol, na praça Syntagma ou no parque Zucotti é disso que se trata. Por isso também será uma das referencias centrais a pontuar as mesas temáticas do FSM, iniciado nesta 3ª feira, em Porto Alegre.

Por: Carta Maior