segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sarkozy, Serra, Direita e Esquerda em SP

downloadJornais europeus informam que Sarkozy resgatou sua identidade política profunda para disputar a reeleição de abril na França contra o socialista François Hollande. O favoritismo inicial de Hollande estaria sendo corroído rapidamente pela radicalização à direita do mandatário francês, cuja ofensiva tem como lema um slogan derivado da república colaboracionista de Vichy: “França Forte”.

O conservadorismo francês recorre mais uma vez à novilíngua associada a um capítulo vergonhoso da história, no qual parte da elite enxotou os ideais da revolução francesa, entregando-se, sôfrega, a uma acomodação de cama e mesa com o III Reich. Na versão atual, a pièce de resistance é o tripé  “Pátria, família, trabalho”, desdobrado em comícios nos quais o situacionismo excreta frases literais das obras de Le Pen, o Plínio Salgado gaulês.

Gargantas conservadoras expelem a lava de um nacionalismo  xenófobo, manipulando as entranhas da insegurança social contra imigrantes pobres. Sarkozy arranchou sua campanha na certeza de que a crise global do neoliberalismo semeia medo, dissolução e nacionalismo no coração de sociedades desprovidas de alternativa convincente à esquerda. O medo pede ordem; evoca a defesa da pátria.  E Sarkozy está disposto a oferecer-lhe valores  cevados na alfafa da ignorância e do preconceito. Material fartamente cultivado nos piquetes midiáticos de  semi-informação e meia-verdade.

get_imgA receita de embrutecimento político que já deu certo em Portugal e na Espanha pode ser repetida na disputa de vida ou morte travada pela direita brasileira  na eleição municipal de São Paulo? Reconheça-se: os protagonistas do conservadorismo nativo estão à altura do enredo. Serra, Kassab, Alckmin, Andrea Matarazzo (a quem se atribui a patente de um equipamento urbano chamado “rampa anti-mendigo”... ), são estrelas dignas dessa cena. Pouca dúvida pode haver sobre a natureza da gestão de obras e conflitos urbanos nas mãos desse plantel. Não há preconceito no diagnóstico, mas farta materialidade histórica a justificá-lo.

Dois eventos recentes -a operação “Sofrimento e Dor”, na Cracolândia, e o despejo em Pinheirinho - resumem uma lógica que ajuda a dissipar a neblina da aparente indiferenciação partidária diante do antagonismo social brasileiro.  A dificuldade não reside exatamente em localizar o vertedouro central da direita nativa e seus tributários na disputa municipal de São Paulo. A grande e compreensível dificuldade porque não há projeto pronto a defender ou a copiar - ao contrário do que ocorre com a direita - consiste em se avançar na construção de um programa progressista para uma grande metrópole do século XXI.  A tarefa de natureza não exclamativa cobra valores, mas não se esgota na recitação de bons princípios históricos.

As forças democráticas, as de centro-esquerda e as de esquerda estão portanto desafiadas, em conjunto, a construir uma resposta crível às urgências e desmandos que asfixiam a população da 6ª maior mancha urbana do planeta.

No: Carta Maior