quarta-feira, 28 de março de 2012

Na indústria da construção, salários desiguais e precariedade generalizada

Pedreiro do Estádio do Corinthians (SP), por exemplo, ganha em média R$ 1,3 mil, enquanto o da Arena Pernambuco (PE) ganha R$ 800; as más condições de trabalho igualam a luta da categoria

Por: Evelyn Pedrozo, na Rede Brasil Atual 

Construção civilSe os salários os diferenciam, a precarização do trabalho os iguala.Trabalhadores da indústria da construção civil e pesada da região centro-sul do país ganham 30% a mais do que os do norte-nordeste. Mas de norte a sul do país, enfrentam igualmente as más condições de trabalho, falta de segurança, de higiene, de acomodações, de transporte, pouco tempo para ficar com a família e a informalidade. Nesse contexto, 138 mil operários do setor estiveram ou ainda estão em greve de janeiro até agora em todo o país, segundo o presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada (Fenatracop), Wilmar Gomes dos Santos. Grande parte das paralisações é motivada por descumprimento de acordos.

Na construção da Usina Hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Porto Velho (RO), 18 mil trabalhadores estão parados há duas semanas por reajuste salarial de 30%, cinco dias de folga a cada 70 dias trabalhados (atualmente, a folga é dada a cada 90 dias corridos de trabalho), aumento da cesta básica de R$ 170 para R$ 350, plano de saúde gratuito extensivo a familiares, aumento dos adicionais de periculosidade e insalubridade, melhores condições de segurança e saúde. A obra é executada pela Camargo Corrêa e pela Enesa Engenharia Ltda. No dia 15, a Justiça declarou abusivo o movimento e determinou a volta imediata ao trabalho, fixando multa de R$ 200 mil para os trabalhadores em caso de descumprimento da decisão. A categoria tem data-base em 1º de maio, mas cobra cumprimento de acordo anterior.

Em solidariedade ao pessoal de Jirau, que peitou a decisão da Justiça, os 12 mil trabalhadores da obra de construção da Usina Hidrelétrica Santo Antonio, também em Porto Velho, decidiram cruzar os braços na quarta-feira (21). De acordo com Santos, agora os operários não podem retornar ao trabalho porque a própria empresa decidiu pela suspensão da obra.  

Na sexta-feira (23) voltaram ao trabalho operários da Andrade Gutierrez da Arena Amazônia, em Manaus (MA), que cruzaram os braços na véspera. Eles não concordavam com supostos desvio de função, salários inferiores ao piso da categoria, e não pagamento de horas extras. Conquistaram os mesmos direitos que os demais funcionários da construção civil no Estado.

Em São Roque do Paraguaçu (BA), 3 mil trabalhadores das obras de manutenção e construção da plataforma da Petrobras, com data-base em 1º de março, estão parados por 15% de reajuste; cesta básica de R$ 300; adicional de 100% sobre as horas extras de segunda a sábado e de 130% aos domingos e feriados; Participação nos Lucros ou Resultados (PLR) equivalente a 600 horas de trabalho; e piso salarial de R$ 980 para ajudantes, entre outros itens.

Neste momento, ha também paralisações em grandes obras no Ceará, Piauí, Paraná, Rio de Janeiro.

Para Santos, é muito conveniente às empresas recorrer à Justiça do Trabalho porque os custos advocatícios são acessíveis. Mas o sindicalista não acredita que a Justiça as beneficie. "O privilégio das empresas está na lei de greve, esta sim as beneficia. Para mudar essa situação, os empresários têm de mudar de comportamento", disse. Segundo o sindicalista, as construtoras jogam o preço para baixo para ganhar a concorrência, e depois apertam o cinto dos trabalhadores, daí à precarização.

A avaliação das greves que já ocorreram no setor neste ano é de que foram vitoriosas, no geral. "Em algumas obras negociamos maiores salários e melhores condições de trabalho", disse Santos.

Unificar

Para reduzir a diferença entre o salário do operário da obra do Estádio do Corinthians (Itaquerão), na zona leste de São Paulo, e o da obra da Arena Pernambuco, por exemplo, o movimento sindical defende uma uniformização no setor. Um pedreiro em São Paulo recebe R$ 1,3 mil em média enquanto em Pernambuco, a média é R$ 800. A relação para o soldador é de R$ 2,2 mil para R$ 1,5 mil.

Santos explica que existe um descontentamento em relação ao ritmo das obras da Copa do Mundo de 2014 e que alguns até acusam os trabalhadores de se organizarem no rastro da urgência. "Mas este é o momento de negociar melhor. As obras têm apelo social e precisamos reduzir as diferenças", disse.

As construtoras são criticadas por aplicarem um modelo ultrapassado. "Antes se trocava salário por emprego. O trabalhador fazia qualquer coisa para não ser demitido, mas hoje a situação é outra, especialmente porque a mão de obra é altamente escassa porque deslocou-se para outros setores no período de estagnação, entre os anos 1980 e 1990", afirmou Santos.
O sindicalista avalia que o Brasil mudou, vem mudando desde 2002 com grandes investimentos em infraestrutura. "Saltamos de 2 milhões de trabalhadores em 1990 para 5 milhões em 2012. Agora precisamos acabar com a informalidade, que atinge 52% dessa massa", disse.
Ao lembrar que o setor é dominado por 10 a 12 grandes empresas, Santos destacou a subcontratação como um dos grandes problemas do setor. Ao terceirizar os serviços a construtora perde de vista o que ocorre com os trabalhadores e desconhece as reais condições existentes nas obras.