sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Brasil de Cachoeira

CachoeiraSolitário e deprimido em uma cela de 12 metros quadrados no presídio federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, mal consegue acreditar no estrago que causou ao ser preso em 29 de fevereiro, alvo principal da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. A temperatura do xadrez onde vive oscila entre 35 e 40 graus centígrados, a depender dos humores do sol potiguar, mas nem de longe se assemelha ao calor do inferno político causado pelos vazamentos das escutas telefônicas da PF e pela consequente comissão parlamentar mista de inquérito que se avizinha no Congresso Nacional.

Transformada em praça de guerra antes mesmo de ser instalada, a CPI do Cachoeira promete dar um nó nas relações entre governo e oposição, em pleno ano eleitoral, e lançar luzes sobre vários episódios passados durante o governo Lula. A começar pela explosão e os desdobramentos do escândalo vulgarmente chamado de “mensalão”. A ameaça de que a comissão revolva as entranhas das relações entre o jornalismo autointitulado investigativo e o submundo da arapongagem e da contravenção, a ponto de expor os reais interesses de ambos, jornalismo e contravenção, talvez explique a esquizofrenia da cobertura midiática do atual escândalo da República.

Nos últimos dias, “mancheteiros”, editores e colunistas variados que até há pouco tempo pareciam sonolentos se lançaram em uma clara campanha de intimidação, a apontar os riscos ou os supostos motivos ocultos da instalação da CPI. Seria, dizem em coro, uma tentativa do PT de encobrir o julgamento do mensalão. Como se os fatos por si e sua extensão não justificassem uma CPI. Por bem menos, comissões de inquérito são instaladas em Brasília.

No: CartaCapital