domingo, 29 de abril de 2012

“O esquema Cachoeira roubou a minha história”

cachoeiraQuem diz é o ex-prefeito de Curitiba e ex-ministro Rafael Greca, que foi atacado pelo jornalista Mino Pedrosa (dir.) quando, em 1999, confrontou os interesses de Carlos Cachoeira (esq.); máfia goiana arruinou sua reputação e ele agora concorre novamente à prefeitura de Curitiba; leia entrevista exclusiva

29 de Abril de 2012 às 12:17

247 – Em 1999, Fernando Henrique Cardoso convidou Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba para assumir o Ministério Turismo e dos Esportes. Tanto FHC como Ruth Cardoso nutriam admiração intelectual por Greca, que havia sido o prefeito melhor avaliado do Brasil e também o deputado federal mais votado do País.

Greca chegou ao Ministério do Turismo e dos Esportes em 1999, ocupando uma cadeira que, antes dele, havia sido de Pelé e Paulo Renato de Souza, no governo FHC. Havia, ali, uma bomba relógio. Desde a Lei Zico, convertida depois em Lei Pelé, os bingos eram legalizados no País e 7% da arrecadação deveria ser destinada a atividades esportivas. Máquinas de jogo podiam ser utilizadas, desde que estivessem relacionadas ao bingo, e não a caça-níqueis tradicionais.

Tais máquinas eram importadas livremente e algumas eram montadas em Goiânia. Como ministro, Greca tomou duas decisões: (1) transferir para a Caixa Econômica Federal o controle sobre a arrecadação dos bingos, uma vez que a instituição já tinha experiência com loterias e também porque o dinheiro dessas casas não era devidamente repassado ao esporte e (2) fechar o cerco contra a importação de caça-níqueis.

Foi aí que começou seu inferno astral. Em reportagens capitaneadas pelo jornalista Mino Pedrosa, que depois veio a ser assessor formal de Carlos Cachoeira, Greca foi duramente atacado – era acusado de estar ligado a máfias espanholas e de estar montando um milionário caixa de campanha no Ministério dos Esportes. Demóstenes Torres ainda não era senador, mas outro parlamentar goiano atacava duramente o ministro – era o senador Maguito Vilella (PMDB-GO), que, da tribuna, disparava torpedos diários.

Greca contou com o apoio explícito de FHC, mas não resistiu ao ataque constante na imprensa. Entregou o cargo, teve sua reputação manchada e, desde então, vive uma espécie de ostracismo político, do qual tenta sair, concorrendo à prefeitura de Curitiba neste ano – ele é pré-candidato do PMDB.

Ao 247, ele falou sobre sua passagem pelo Ministério do Turismo e dos Esportes. Leia:

247 – O senhor já consegue enxergar com clareza os interesses que o derrubaram?

Rafael Greca – Foi essa cachoeira de lama. Os ataques, muito virulentos, partiam desse jornalista Mino Pedrosa. Na época, eu não sabia que ele era tão ligado ao Carlos Cachoeira.

247 – Quais foram suas medidas no ministério?

Greca – Eu me reuni com os atletas no Jockey Club do Rio de Janeiro e todos diziam que o dinheiro dos bingos não chegava às confederações. Em relação ao jogo, tomei duas decisões: transferir o controle da arrecadação para a Caixa Econômica Federal e fechar a importação desenfreada de máquinas caça-níqueis.

247 – Foi aí que começaram os ataques?

Greca – Sim, o Mino Pedrosa dizia que eu queria montar um esquema de caixa de campanha, ligado à máfia espanhola. Respondi a 899 processos e fui inocentado em todos. O Fernando Rodrigues, da Folha, que é um jornalista decente, passou um mês investigando o meu patrimônio e o da minha esposa e não encontrou nada.

247 – Se o senhor era inocente, por que abandonou o governo?

Greca – Ninguém aguenta o massacre. O Fernando Henrique foi solidário. Ele sabia que eu nunca entrei numa casa de bingo. Nunca vi uma máquina caça-níqueis. Meu interesse maior no ministério era o turismo, era promover o Brasil na festa dos 500 anos do descobrimento. Em relação ao esporte, eu realmente acreditava que a Caixa poderia fiscalizar a arrecadação do jogo. Mas isso bateu em interesses poderosos e eu fui massacrado. A tal ponto que a saída foi uma decisão para proteger o governo do presidente Fernando Henrique.

247 – Quais foram os impactos para a sua carreira política?

Greca – Eu fui massacrado. Arruinaram minha reputação. Roubaram a minha história. Eu era um prefeito premiado no mundo inteiro. Fui o deputado mais votado do Brasil, em termos proporcionais. Agora estou tentando uma nova chance, porque amo a cidade de Curitiba.

247 – As pesquisas, em Curitiba, não o colocam entre os favoritos?

Greca – No Ibope, dizem que eu sou “rejeitado”, mas o Ibope não mostra essa pesquisa. Nas nossas sondagens, o eleitor reconhece que sou o candidato com mais experiência e preparo. Quero muito ser prefeito. O que arruína um país são duas coisas: a política sem convicção e o dinheiro sem trabalho. Faço política por convicção. E foi derrubado por pessoas que ganham dinheiro sem trabalho.

No: Brasil 247