quarta-feira, 9 de maio de 2012

Na Ditadura militares chegaram a usar métodos nazistas

claiduo_guerraEx-presa política, a jornalista Rose Nogueira, do Grupo Tortura Nunca Mais, considerou “estarrecedoras” as declarações de Cláudio Antônio Guerra no livro "Memórias de uma guerra suja". O ex-delegado do DOPS do Espírito Santo afirma que, sob ordens militares, incinerava corpos de militantes de esquerda em uma usina de açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ).

É o Auschwitz do Brasil. Os militares usaram métodos nazistas, como a tortura, e agora vemos que houve também a incineração - disse Rose, referindo-se ao campo de concentração nazista na Polônia.

Para Rose Nogueira, as denúncias contidas no livro precisam ser investigadas com profundidade. Ex-presa da Torre das Donzelas, no Presídio Tiradentes, o mesmo onde ficou a presidente Dilma Rousseff por mais de três anos, Rose disse não conhecer o ex-delegado Guerra, que atuava principalmente no Espírito Santo e no Rio.

“Mas sempre soubemos que, no Espírito Santo, a coisa era muito pesada (contra os militantes de esquerda). Pelo que vimos desse livro, muita coisa coincide”, relata ela.

Sobre a usina Cambahyba, onde Guerra disse ter incinerado os corpos, Rose pede investigação:

“É preciso ir até essa usina. E, mais que isso, ela deveria se tornar um memorial, um grande museu sobre o que ocorreu lá”.

De acordo com Guerra, dez pessoas foram atiradas ao incinerador da usina, de propriedade de empresário Heli Ribeiro, hoje morto. O casal Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva, João Batista e Joaquim Pires Cerveira, que foram presos na Argentina, os militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML) Fernando Augusto Santa Cruz e Eduardo Collier Filho, e os líderes do PCB David Capistrano, João Massena Mello, Luiz Ignácio Maranhão Filho e José Roman.

O ex-delegado Claudio Guerra, que chefiou o DOPS do Espírito Santo e participou da rede informações e investigações da repressão, afirmou ter recebido do Estado brasileiro carta branca para “julgar, torturar, matar e desaparecer com o corpo” dos militantes de esquerda. Guerra, que se prepara para virar pastor de igreja, é acusado de tortura, homicídios, formação de quadrilha, tráfico de drogas, roubo de armas e até de chefiar grupos de extermínio, além de responder a pelo menos duas condenações por assassinato.

Leia trecho do livro “Memórias de uma Guerra Suja”:

“Em nome da segurança do Estado brasileiro, os membros da comunidade de informações podiam tudo: perseguir, grampear, investigar, julgar, condenar, interrogar, torturar, matar, desaparecer com o corpo e alijar famílias do paradeiro de seus entes queridos. Não havia um código de ética, nem formal nem informal, que direcionasse nossas condutas. Tudo era permitido.

Essa foi a comunidade de informações em que eu transitei, e fui um eficiente membro, um matador implacável que ajudou a ganhar uma guerra da qual o povo não tomava conhecimento por causa da censura aos meios de comunicação.

Ninguém nunca soube, nem mesmo minha família, o poder que tive nas mãos.

Não tenho orgulho disso”.

No: O Globo