quarta-feira, 4 de julho de 2012

Incendiários da Era Collor hoje são bombeirinhos

Mario Sergio Conti, autor de Notícias do Planalto, escreve posfácio em que aponta, um a um, o que fazem hoje os jornalistas mais destacados na cobertura do impeachment de Fernando Collor; e revela que foi demitido do cargo de diretor de redação da revista Veja pela publicação do livro

No: Brasil 247 

Chefe duro em seus tempos de Veja, de sorriso econômico e exigência crescente, o jornalista Mario Sergio Conti mais uma vez pegou seus antigos repórteres – e outros que não trabalharam diretamente com ele – no pulo. Autor do referencial Notícias do Planalto, livro que consolidou os bastidores da queda do então presidente Fernando Collor de Mello, ele agora produziu, 13 anos depois do lançamento, um posfácio no qual se dedicou a apontar, um a um, o que fazem hoje aqueles heróis do jornalismo verde-amarelo-azul anil, briosos jovens incorruptíveis, empurrados pela mais limpa das energias, a que mistura impetuosidade, ética, técnica e, claro, um pouquinho de vontade de sentir o gosto de sangue na boca.

O que se vê, na apuração de Mario Sérgio, é que todos aqueles profissionais da notícia, sem exceção, “agora são assessores de comunicação, relações-públicas e publicitários. Ministram media trainning. Redigem discursos. Burilam a imagem pública de sua clientela e alardeiam seus feitos. Gerem gabinetes de crise contratados por gente de bens denunciada nos órgãos de imprensa nos quais antes trabalhavam. Quem ontem apontava as dissonâncias entre o marketing e a realidade é hoje marqueteiro”. É o que está registrado no posfácio reproduzido, em forma de reportagem, na edição número 70 da revista Piauí que chegou às bancas nesta terça-feira 3. Quem era incendiário, resumindo, virou bombeirinho.

No sexto parágrafo de quarenta e dois, Mario Sergio lembra quais eram os solertes profissionais e o que fazem hoje. Reproduzindo: “Luís Costa Pinto, que fizera a entrevista na qual Pedro Collor acusava Paulo Cesar Farias de ser testa de ferro de seu irmão, tornou-se consultor. Prestou serviços ao deputado João Paulo Cunha, réu do mensalão, e a Agnelo Queiroz, governador de Brasília cuja administração foi acusada de relacionamento espúrio com o contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Cachoeira. Mino Pedrosa descobrira o motorista Eriberto França, que comprovou o elo econômico entre Paulo César Farias e o presidente. E posteriormente ele trabalhou na primeira campanha de Fernando Henrique Cardoso, e foi assessor de Roseana Sarney e Joaquim Roriz, o ex-ministro de Collor que renunciou ao Senado ao ser apontado como corrupto. A sua agência de comunicação prestou serviços a Carlos Cachoeira. Mario Rosa, que revelara as desgraças da Legião Brasileira de Assistência presidida por Rosane Collor, virou gerente de crises. Ele participou de campanhas eleitorais e foi consultor de Ricardo Teixeira, quando este era presidente da Confederação Brasileira de Futebol, e de Daniel Dantas, dono do banco Opportunity. Assim como Costa Pinto, Rosa foi contratado por Fernando Cavendish, ex-proprietário da empreiteira Delta, implicada nas traficâncias de Cachoeira. Expedito Filho relatara o exibicionismo da corte collorida e relatara as acusações de Renan Calheiros ao presidente, e passou a atuar em relações públicas. Gustavo Krieger, que levantara os gastos do porta-voz Cláudio Humberto Rosa e Silva num cartão de crédito, foi chamado a dirigir a campanha publicitária de Gabriel Chalita, do PMDB, à prefeitura paulistana”.

O autor do livro e seu posfácio despeja mais munição – 73 linhas na medida da revista Piauí, sobre o marqueteiro petista João Santana. “Exemplar tanto do abandono do jornalismo quanto da nova configuração político-publicitária é a trajetória de João Santana Filho”, inicia Mario Sergio. “Ele contou a Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, que recebeu 13,750 milhões de reais pela reeleição de Lula”, repete o autor, seguindo com o currículo de marqueteiro do ex-editor da seção de Política da revista IstoÉ.

Ao final do posfácio, Mario Sergio garante que Notícias do Planalto realmente mudou a sua vida. O pé do texto é assim:

“De todo modo, ninguém perdeu o emprego por ter escrito isso ou aquilo de Notícias do Planalto. Exceto o autor do livro. Trabalhei quinze anos em Veja, e nos quase sete em que fui seu diretor de redação a tiragem dela passou de 900 mil para 1.250 milhão de exemplares semanais. Preparava na Editora Abril uma revista mensal de reportagens e artigos, para um público menor, quando o livro saiu, o que fez com que eu fosse demitido de pronto e o projeto cancelado”, narra para, dali em diante, mostrar seu currículo de sempre jornalista, jamais marqueteiro. Vale, ainda, registrar o fecho:

“Aprendemos com o passado? Quiçá. Como disse outro poeta, T.S.Eliot:

O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos presentes talvez no tempo futuro,

E o tempo futuro contido no tempo

passado”.

Em tempo: o conteúdo da edição 70 da revista Piauí ainda não está disponível na internet.