sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Candidatos desperdiçam potencial da internet

O peso da internet na campanha que elegeu Dilma Rousseff fez especialistas preverem um papel crucial para a web nas eleições municipais deste ano, como na eleição de Barack Obama em 2008. Mas ainda não foi dessa vez.

Por: Mariana Della Barba, no BBC Brasil 

internet_brasil“Os candidatos estão apenas replicando o que fizeram na internet nas últimas eleições, usando a web apenas como uma via de mão única, em que o político apresenta a sua agenda, sem uma real interação”, diz Pollyana Ferrari, que é a pesquisadora em mídia social e professora de jornalismo multimídia da PUC-SP.

Para ela, alguns candidatos aprimoraram seus vídeos e entraram em redes sociais que estão se popularizando, como o Instagram, mas sem uma estratégia específica. “Em geral, eles usam essas ferramentas muito mal, porque poderiam, por exemplo, monitorar o que está se falando online e tentar capitalizar em cima disso.”

Se em 2010 vários ignoraram o potencial da internet, agora, esse mesmo “erro” pode ter consequências graves, por causa da penetração da internet na chamada nova classe média.

Esta corresponde hoje a 53% da população ou 104 milhões de pessoas, segundo o governo. Atualmente, mais de 60% da classe C está na internet, sendo que mais da metade entra online diariamente e 76% está nas redes sociais, de acordo com dados do instituto Data Popular, que faz pesquisas entre essa fatia da sociedade.

“Diferentemente dos outros canais de comunicação como jornais, rádio e TV - que têm empresas atuando junto a todos os segmentos da sociedade - a indústria da internet ainda rejeita trabalhar para a classe C”, diz o pesquisador de internet, Juliano Spyer, que já trabalhou na estratégia online das campanhas da Marina Silva (2010) e Gilberto Kassab (2008).

Preconceito?

Na opinião de Spyer, o motivo pode estar relacionado a preconceito, uma vez que a classe C é acusada de “orkutizar” diversos ambientes online. “A internet talvez seja vista como um demarcador de classes e, na medida em que a distância entre as classes encurta, a antiga classe média sente que está perdendo seu prestígio e reage desprezando a maneira como esses novos usuários atuam na internet.”

Entender que a internet é hoje sinônimo de interatividade parece óbvio, mas na opinião do sócio-diretor do Data Popular, Renato Meirelles, é justamente isso que falta à maioria dos candidatos.

“Não tem nada a ver com o horário eleitoral, em que o político falava e o eleitor ouvia. Na democracia 2.0, o eleitor quer falar e também compartilhar. E não adianta apenas estar nas mídias sociais e dar respostas padrões, porque isso não cola mais”, diz.

Os integrantes da nova classe média aprenderam nas redes sociais, segundo Meirelles, que a opinião dela conta e ela sabe usar isso a seu favor, inclusive como eleitor.

O analista e professor de comunicação política da USP Gaudêncio Torquato também vê essa apropriação: “Essa nova classe C é imediatista, pragmática, reivindica coisas da micropolítica - melhor sistema de transporte, escolas mais próximas, bom atendimento na saúde, segurança. Já a classe média tradicional é atraída por conceitos mais abstratos.”