domingo, 16 de setembro de 2012

O riso do Belzebu

No que deu incorporar o capeta numa estrada da Bahia

Por: Mônica Manir, no Estadão

belzebuVá pondo o seu perceber: dia da Independência, estrada federal apinhada de carro, pista dupla sem acostamento, onze e meia da matina, um calor da égua e o tinhoso no comando de uma cegonha. Deu o dito. O Que-Nunca-se-Ri apareceu gargalhando na foto da polícia. E virou motivo de chiste como o caminhoneiro que se mascarava de demônio porque botava chifre na mulher.

Senão, explico: Sérgio Aparecido Rodrigues saía de Camaçari abarrotado de veículos Ford. Dez no todo. Ia da Bahia para São Bernardo do Campo, onde se daria o descarrego. No caminho - disse a polícia -, Aparecido quis ziguezaguear. Jogava a carreta pra cima dos menores. Quando os motoristas iam revidar na base do xingo, davam de cara com o capeta na direção. Precisavam denunciar.

Passado o pedágio, a inspetoria encostou no danado. Mandou parar mais à frente, no posto de abastecer do km 550. Aparecido foi revistado, mas não pediram seu bafo de onça: o hálito era puro. Revistaram o cavalo, revistaram o reboque. Nada nem alma alguma, a não ser o Lúcifer murcho no banco do passageiro. Aparecido ouviu que sua direção era perigosa e que precisava ser recolhido à delegacia. A condução ficaria para trás.

Então, se arrepare: era dia da Independência, Messias, delegado de Amélia Rodrigues, a cidade do pedágio, estava de folga. Um guarda veio atender. Apurou a diabrura e passou um carão em Aparecido. No seu compreendido, não era caso de B.O. A infração era um ilícito administrativo. Coisa de rodoviário, não coisa de civil. Aparecido voltou para seu cavalo vermelho. E tomou a direção da volta, não sem antes ligar para o sindicato.

Lenilson, o Baiano, atendeu em São Bernardo. “Tu não é associado, mas a gente sempre tá ajudando, quando chegar me passa a verdade.” Enquanto isso, João Batista, presidente do Sindicato das Empresas e Autônomos e Transportador Rodoviário Intermunicipal de Veículos da Bahia, garantia: baiano, Aparecido não é. “Pra mim, esse cara não gosta de nordestino, fez isso pra sacanear os motoristas daqui.” Aproveitou para explicar por que os seus associados vivem se acocorando em protesto pelo Estado. Eles reclamam do uso de mão de obra de fora da Bahia para o transporte dos veículos fabricados em Camaçari. Afora a Ford, que produz 250 mil veículos por ano na cidade, há suspiros pela vinda da Foton Motors, montadora chinesa de caminhões, que quer aplicar ali R$ 300 milhões e empilhar 30 mil veículos anuais até 2017. A Jac Motors, sua conterrânea, aliviou o pé dos R$ 900 milhões que tiraria do bolso. Quer que Dilma divulgue antes as regras do novo regime automotivo. “Não é bairrismo, não, desejamos que as transportadoras acomodem os baianos também”, insiste João Batista, certo de que não prega no deserto. Por e-mail, manda o folder colorido do próximo passo da categoria, uma sessão especial na Assembleia Legislativa da Bahia amanhã para tratar de cegonheiros, geração de emprego e distribuição de renda.

Não falou dos quarteirizados, a condição de Aparecido, que prometia estacionar em São Bernardo na terça-feira. Mas na segunda a Polícia Rodoviária Federal divulgou um arrazoado da féria prolongada no Estado: 129 acidentes, 57 feridos, 2 mortos, 25 quilos de maconha e 500 gramas de crack na mala de uma mulher de 51 anos e a foto do Chavelhudo rindo. Aparecido não tinha só o nome divulgado por inteiro. Dali a pouco diziam que andava pela estrada com uma amante vistosa na boleia, e por isso fazia o diabo para se esconder da esposa.

Invencionice falsa, declarou Likinha, o patrão. Pai de família, cidadão na idade de Cristo, em quatro anos de casa Aparecido nunca fizera estripulia. Na visão de Likinha, proprietário de três conjuntos, o funcionário teria vestido o Cramulhão apenas para se divertir com outro cegonheiro. “Se fosse carnaval, ninguém ia fazer esse estardalhaço todo, concorda?” Eu ache e não ache, ele foi arremedando: “E não dava para ziguezaguear, eu conferi o rastreador, o caminhão puxava fila naquela hora, estava tudo parado”.

Suspenso das atividades, Aparecido não se deixou aparecer. Estaria no Paraná, na cidadezinha natal, onde a única certeza da história é que falar ao celular é um verdadeiro inferno. Já a máscara do Pai-da-Mentira continua apreendida. O delegado Messias diz que ela continuará assim, sob seus cuidados. Problema é o diabo na rua, no meio do trânsito.