sábado, 20 de outubro de 2012

José Serra foi abandonado pela Folha e o tucanato?

Duas matérias veiculadas pela Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (18) chamam a atenção por apontarem uma possível mudança da postura do jornal paulista e de figurões do PSDB em relação à candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo. Estariam a publicação dos Frias e os principais quadros tucanos, entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apostando no sepultamento político do ex-ministro da Saúde?

Por: Igor Ojeda, no Carta Maior 

serra_fhcDuas matérias veiculadas pela Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (18) chamam a atenção por apontarem uma possível mudança da postura do jornal paulista e de figurões do PSDB em relação à candidatura do tucano José Serra à prefeitura de São Paulo.

Uma delas, de meia página, denuncia que integrantes do Movimento dos Sem-Teto do Ipiranga (MSTI) que participam de eventos do candidato ganham pontos em um ranking interno da organização, que serve de parâmetro para definir os beneficiados por programas de moradia popular.

Desde o início da campanha para o segundo turno, foi a primeira reportagem da Folha de S. Paulo de cunho claramente negativo à candidatura Serra. Apesar de se autointitular “plural” e “apartidário”, o jornal paulista sempre foi conhecido no meio jornalístico pela relação bastante próxima de sua diretoria com José Serra e tucanos mais “liberais” no que diz respeito aos valores morais.

O primeiro indício dessa possível mudança de postura da Folha de S. Paulo foi o editorial “Kit evangélico”, de 13 de outubro. No texto, o jornal critica os rumos tomados pela campanha de José Serra, que já teriam ultrapassado o ponto de não retorno. “Na corrida presidencial de 2010, ao explorar contradição da petista Dilma Rousseff – que se dizia favorável à descriminalização do aborto, mas recuou na campanha de maneira oportunista –, Serra já havia selado uma aliança com o conservadorismo evangélico. Sua atual peregrinação por templos e a aceitação graciosa de apoiadores que flertam com a intolerância indicam um caminho sem volta.” De acordo com o editorial, é impossível para o tucano querer se fazer passar como uma liderança moderna ao mesmo tempo em que adota o discurso conservador.

Dois dias depois, o site da Folha veiculou a informação de que, quando governador do estado, Serra havia distribuído em escolas paulistas material de conteúdo muito parecido ao do kit do MEC. O tucano negou a semelhança e acusou a reportagem de ter “o dedo do Zé Dirceu”.

A outra matéria da Folha de S. Paulo desta quinta-feira que chama a atenção vai ao encontro das preocupações explicitadas pelo próprio jornal paulista no editorial de cinco dias atrás. Traz a informação de que o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso estaria criticando “duramente” a campanha de Serra por causa de sua aliança com setores ultraconservadores – o pastor Silas Malafaia à frente – em torno dos ataques ao kit anti-homofobia produzido pelo Ministério da Educação (MEC) durante a gestão de Fernando Haddad. De acordo com o texto, FHC estaria alertando aliados sobre o risco de o tucano sair da eleição rotulado de conservador. A estratégia eleitoral de Serra vem contrariando também nomes como Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo, e José Gregori, ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique.

Segundo o jornal digital Brasil 247, a movimentação de FHC estaria vinculada à certeza, por parte de quadros tucanos, de que José Serra será derrotado em 28 de outubro. O ex-presidente, o senador Aécio Neves, o atual governador paulista Geraldo Alckmin e o candidato a prefeito de Manaus Arthur Virgílio estariam articulando o “sepultamento político” do ex-ministro da Saúde, que seria excluído do núcleo duro tucano. Segundo o Brasil 247, os figurões do PSDB estão preocupados com uma possível guinada ideológica do partido, de origem social-democrata, em direção ao espectro ultraconservador.

Nos últimos anos Serra vem acumulando inúmeras tensões com outras alas do partido – em especial, as comandadas por Aécio e Alckmin –, que o veem como uma figura extremamente autoritária e personalista. Seu ostracismo político serviria para fazer a agremiação se revigorar. Estaria a Folha de S. Paulo fazendo a mesma aposta?