quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Serra sai em defesa de coronel tucano que matou 36 e ameaçou jornalista

Para candidato a prefeito do PSDB em São Paulo, coronel Telhada é um “defensor dos direitos humanos”

No: Rede Brasil Atual 

serra_telhadaO candidato tucano à prefeitura de São Paulo, José Serra, fez campanha ontem (10) pelas ruas de Pirituba, zona oeste da cidade, ao lado do coronel Paulo Telhada, que se elegeu vereador pelo PSDB, mas é alvo de três pedidos de impugnação feitos pelo Ministério Público, um dos quais por incitação à violência. Telhada, que se orgulha de ter assassinado 36 pessoas – supostamente criminosas – e que recentemente fez ameaças a um jornalista da Folha de S.Paulo, foi tratado durante o ato de ontem como “amigo” de Serra.

Questionado, o tucano defendeu a atuação do correligionário – cujo lema é “bandido bom é bandido morto” –, e chegou a dizer que Telhada respeita os direitos humanos. “Ele desempenhou muito bem sua função. Foi um homem muito competente, seguindo as orientações do governo: uma política firme que respeita os direitos humanos”, disse o candidato a prefeito.

Ao participar do ato em Pirituba, Telhada cumpre o que havia declarado no início dessa semana, de que sairia às ruas para tentar eleger o amigo Serra. “Com certeza (vou participar da campanha de Serra). No que ele precisar de mim. Entrei no PSDB em lealdade ao Serra, que me deu o comando da Rota quando ninguém acreditava em mim”, afirmou.

Ameaça de morte

Telhada é acusado de ameaçar de morte o jornalista André Caramante, do jornal Folha de S.Paulo, que teve de sair do país para preservar sua vida. Após publicar um artigo com críticas aos crimes cometidos pela Rota, em 14 de julho, Caramante passou a receber várias ameaças. Uma delas foi postada por Telhada no Facebook. Disse o coronel: “Quem defende bandido, é bandido também. Bala nesses safados”. Em outra mensagem, um policial militar chamado Paulo Sérgio Ivasava Guimarães dá apoio a Telhada: “Esse Caramante é mais um vagabundo. Coronel, de olho nele”.

O recém-eleito vereador nega que tenha feito ameaças. No entanto, nesta semana foi divulgada notícia de que o jornalista saiu do país com a família, em razão das ameaças que vem recebendo. Em entrevista à repórter Eliane Brum da revista Época, Caramante informou que está fora da redação desde o início de setembro e que teve de alterar toda sua rotina e a de sua família, pois as ameaças tornaram-se insuportáveis.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgou nota em que “lastima profundamente a situação do repórter André Caramante”. A entidade classificou como “aberração” a intimidação e a ameaça contra um profissional de imprensa e ressaltou que isso demonstra a dificuldade em exercer com plenitude a liberdade de expressão no Brasil. A Abraji lembrou o episódio ocorrido com o jornalista Caco Barcellos, quando do lançamento do livro Rota 66 – A História da Policia que Mata, que também teve de deixar o país em razão de ameaças.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, José Augusto Camargo, em entrevista à Rádio Brasil Atual, apontou a falta de ação do Estado como um dos elementos que contribuíram para a piora da situação do jornalista. 

“O autoexílio de Caramante é um desdobramento negativo, pois não houve um acompanhamento adequado para evitar essa situação e agora estamos em uma situação mais delicada. Desde antes das eleições pedimos averiguação dessas ameaças pelas autoridades policias e pelo governo. Chegamos a isso por falta de ação por parte do Estado, as autoridades não deram a devida atenção a tempo”, disse Camargo.

Para a coordenadora do Movimento Mães de Maio Débora Maria da Silva, é revoltante que um profissional preocupado com questões de direitos humanos passe por tal situação. “Isso demonstra a situação ditatorial que vivemos em São Paulo, com a tentativa de controlar e impedir o direito de manifestação de um repórter, por uma instituição que se acha no direito de controlar a vida dos cidadãos. O jornalista tem uma importância fundamental em denunciar os atos arbitrários do Estado contra o povo, sobretudo o povo pobre e preto”, disse Débora.

O presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, cobrou a Folha de S. Paulo e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) a se posicionar sobre essa situação. “São parte disso um dos maiores partidos do país e também um dos maiores jornais. É preciso que a Folha e o PSDB se manifestem sobre essa expressão da truculência que forçou o Caramante a se esconder. Isto é um grave atentado contra a liberdade de imprensa e a Folha não tem dado a publicidade e a relevância que poderia”, disse Borges.

Todas as entidades afirmam ter cobrado o Ministério Público de São Paulo para que investigue e tome as atitudes cabíveis sobre as ameaças sofridas pelo repórter.