sábado, 22 de dezembro de 2012

Após encontro festivo com Dilma, moradores de rua e catadores têm dura volta à realidade

Tradicional encontro de Natal reuniu políticos e líderes de movimentos sociais em São Paulo. Presidenta reiterou compromisso, mas problemas continuam

Por: Gisele Brito, no Rede Brasil Atual 

catador_reciclávelUm grupo de catadores de material reciclável carrega caixas com copos de água mineral pelo centro de São Paulo. “Acabaram de limpar isso aqui e vocês estão sujando. Ou vocês voltam lá e limpam ou eu vou pedir a nota fiscal disso aí e vai ficar ruim para vocês!”, grita um guarda civil metropolitano, em tom ameaçador, quando pedaços de papelão se soltam e caem no chão.

O episódio ocorreu na praça da Sé minutos depois que catadores e moradores de rua deixaram o encontro com a presidenta da República, Dilma Rousseff. Durante seu discurso, na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo, ela cobrou que a sociedade reaja contra a violência institucional que afeta os grupos mais vulneráveis da população, e pediu que o poder público dialogue com todos, independentemente da origem.

Realizado todos os anos desde 2003 na capital paulista, o encontro entre catadores, moradores de rua e o presidente da República não consegue eliminar as contradições que cercam a questão social no Brasil. Minutos depois do discurso de Dilma, o grupo de catadores, que caminhava contente com os copos d'água que sobraram do evento, se viu obrigado a pegar os pedaços de papelão que se soltaram da caixa. 

“Eles são folgados”, descreveu uma das mais exaltadas do grupo. Ao chegar na praça, uma das dezenas de pessoas em situação de rua dispersas por lá perguntou o que tinha ocorrido no evento. “Nada. Ela (Dilma) disse que ninguém vai poder bater na gente”, resumiu um dos que compareceram para ouvir o discurso da presidenta.

Nem mesmo a organização do evento se viu alheia aos problemas que todos os dias afetam os mais pobres na capital. Um grupo com cerca de 20 pessoas foi impedidas de entrar na quadra. Elas chegaram depois que os detectores de metal haviam sido desmontados, quase no final do evento, e traziam cartazes de protesto contra despejos e políticas de higienização em função da Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. 

“Os seguranças disseram que a gente está alcoolizado. Mas eu não estou. Mais uma vez a população de rua foi deixada para fora”, esbravejava um deles, com aparência mais abatida do que as pessoa que assistiam ao discurso da presidenta. “Vocês não perderam nada. Mais uma vez ela veio aqui e falou coisas que a gente quer ouvir. Eu queria perguntar se ela gostou dos anos da ditadura, porque o que está acontecendo no Rio com a população de rua é uma ditadura”, argumentou Fernando José Nascimento, do movimento de população de rua do Rio de Janeiro. “Estão sequestrando a gente lá. Internação compulsória é sequestro”, explicou.

Dentro da quadra, no entanto, o público ouvia atento. Quase todos têm histórias de superação para contar depois de passar anos vivendo na rua. “Quando eu lembro o que eu passei em mais de 40 anos, eu não aguento”, conta aos prantos Francisco Chagas, de 60 anos, que há apenas três meses tem endereço fixo em Salvador. Ele se orgulha de ser o coordenador de uma república na capital baiana, espécie de abrigo administrado pelo próprio movimento com características diferentes dos albergues municipais para pessoas em situação de rua na cidade. 

“Lá o movimento é mais articulado que em outros lugares do Brasil. Temos muitos equipamentos sociais e isso tem melhorado a situação para alguns”, conta. “É muito importante a presidenta vir aqui falar com a gente. Eu sou da organização. Mas, é tudo mais para o pessoal aí. O que nós temos é pouco ainda. Pergunta para qualquer um se quer viver em albergues lá. Ninguém quer. Porque tem agressões lá dentro. E eles são muito sujos. Praticamente um alojamento de rato”, relata. “Eu me orgulho muito de mim por servir de exemplo para muita gente que ainda não conseguiu sair. Trabalho para isso”, diz, emocionado.

Geraldo Magela, de 47 anos, ainda não saiu. Há dez anos perdeu as rédeas da própria vida por causa do vício em álcool e passou a viver pelas ruas de São Paulo. “Eu bebia, usava drogas desde os 12 anos. Aos 21 me casei, tive dois filhos. Mas a bebida desestruturou tudo. Com a separação, depois de 15 anos de casado, me afundei de vez e fui parar na rua”, conta. Em 2008, ele “descobriu” os albergues, e acredita que eles foram fundamentais para chegar ao estágio que está hoje.

“Eu estou tentando me reerguer aos poucos. Mas só quando comecei a ter de responder perguntas para entrar em albergues que percebi que não era a droga, mas as escolhas que eu fiz que me levaram a essa situação.” No inicio do mês, ele havia conseguido um emprego como pedreiro. No segundo dia de trabalho, no entanto, tomou um porre, dormiu na frente do albergue e foi roubado. Sem dinheiro para pagar a passagem, faltou e foi demitido. “Mas eu estou bem melhor agora do que já estive. O albergue é muito importante, porque eu não consigo dormir dois dias dormindo na rua sem beber”, aponta.

Para o movimento das pessoas em situação de rua, os albergues são a porta de entrada para a recuperação, não a saída para a rua. Eles pedem políticas integrais e intersetoriais que vão desde atendimento de saúde mental e de tratamento de dependentes químicos, até moradia. Em todo país se estima que existam mais de 30 mil vivendo em ruas e calçadas.

“Eu nunca tinha vindo nesse evento antes, mas é muito importante para gente. Muita coisa já melhorou desde que o Lula virou presidente. Mas a gente ainda é muito descuidado pelas autoridades. Na rua, a pessoa só vai se afundando. Sem assistência é muito difícil”, analisa Magela.