terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Racismo chegou a nível insuportável, diz ministra

Ato contra a intolerância religiosa realizado no centro da capital paulista tem cobrança por respeito a afrodescendentes e muçulmanos

Por: Eduardo Maretti, no Rede Brasil Atual 

haddadA cidade de São Paulo celebrou ontem (21), com um ato ecumênico no Anhangabaú, na região central, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data decorre da Lei 11.635, sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2007, como homenagem à Ialorixá baiana Gildásia dos Santos. Hipertensa, Gildásia teve um infarto na data, em 2000, depois que sua imagem foi utilizada no jornal evangélico Folha Universal acompanhada do título “Macumbeiros Charlatães lesam o bolso e a vida dos clientes”.

Inúmeras religiões enviaram representantes ao ato de São Paulo. O prefeito Fernando Haddad participou do evento, assim como a ministra da Secretaria de Políticas de Promoções da Igualdade Racial, Luiza Bairros.

Haddad comentou sobre a relação da igualdade religiosa e a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial na cidade, comandada pelo vereador Netinho de Paula (PCdoB). “Foi uma promessa de campanha. Isso tem uma projeção para além da cor da pele, porque São Paulo é uma cidade de muitos povos e tem a questão religiosa e a intersecção com a questão afro, as religiões afro e a tolerância. O sucesso dessa convocação, com a presença de várias lideranças religiosas, é uma forma de São Paulo dizer que quer viver em paz.”

Sobre os efeitos concretos que o ato ecumênico possa ter em relação às manifestações de preconceito e racistas em São Paulo contra religiões de matriz africana, Haddad afirmou que “atos como esse podem trazer mudança”. “Expressiva maioria da população de São Paulo abraça essa causa de convivência pacífica, de respeito e tolerância. Existe uma pequena minoria a quem o recado aqui é dado”, disse o prefeito. “Este é um convite à reflexão de uma pequena minoria que ainda resiste à cultura da paz, para ela é que dirigimos nosso apelo.”

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoções da Igualdade Racial, Luiza Bairros, foi enfática ao falar da “gravidade dos casos que têm acontecido de agressões físicas, ameaças de depredação de casas e comunidades”. Ela ressaltou: “Isso já chegou a um ponto que consideramos insuportável e que não se trata apenas de uma disputa religiosa, mas de uma disputa por valores civilizatórios.” Também nomeou aqueles que acha os mais intransigentes na discriminação: “Nesse conflito, está explícito que setores especialmente evangélicos e pentecostais gostariam que essas manifestações (afro) desaparecessem da sociedade brasileira, o que certamente não ocorrerá”.

Estado laico

O padre Kyrilos Santana, arquimandrita da Igreja Ortodoxa Bielo-Russa Eslava, disse que participou do evento “pela paz, pela harmonia religiosa, sobretudo racial”. Com um discurso político, o babalorixá Flávio de Iansã afirmou que a principal importância do evento é política. “Porque a gente tem de definir a questão do Estado laico. Todas as religiões com seu espaço e o Estado promovendo a integração entre elas. O que não dá para continuar é as grandes religiões serem privilegiadas e atacando as menos favorecidas.”

Perguntado se percebe perseguição às religiões afro, Flávio de Iansã afirmou que foi vítima dessa perseguição ao ser expulso de um lugar onde mantinha seu terreiro. “Essa perseguição não se dá apenas pelo poder das pessoas, mas também pelo poder instituído, Executivo e mesmo Legislativo; e quiçá o Judiciário julga com esses paradigmas morais voltados à religião.” Para ele, evangélicos e católicos lideram a intolerância contra a cultura religiosa de umbanda e candomblé.

O sheique Mohamad Al Bukai, diretor de assuntos islâmicos da União Nacional das Entidades Islâmicas no Brasil, afirmou que participou do evento para dizer “não para a intolerância religiosa, junto com todas as religiões”. Como muçulmano, Al Bukai disse concordar que “alguns muçulmanos têm sofrido” por causa da confusão, inclusive midiática, que se faz entre o islamismo e o terrorismo. “A mídia fala e mostra às vezes de maneira errada. Então acabam fazendo esse tipo de confusão. Mas aqui no Brasil, graças a Deus, são poucos os casos”. A importância do evento, diz, é que as pessoas enxerguem que existe essa diversidade e “temos que aceitar o outro”.

O rabino Gilberto Ventura diz que “não só no Brasil” árabes e judeus convivem em paz. “Inclusive no Oriente Médio. Meu pai nasceu no Egito e sempre teve muitos amigos árabes e muçulmanos. Em Israel mesmo existe amizade entre eles.” Para ele, “a busca pela paz, da fraternidade, a luta pela justiça social e assim por diante são coisas que temos em comum”. Em sua opinião, um dos principais focos do evento de São Paulo é a luta dos afrodescendentes. “Porque existe um preconceito muito grande principalmente em relação às religiões africanas.” De acordo com ele, os líderes religiosos devem se mobilizar “em prol da sociedade como um todo”.