domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lula e o ódio das elites

O discurso de Lula na 3ª Conferência Mundial pelo Equilíbrio do Mundo, ocorrida nesta semana em Havana, ajuda a entender porque as elites têm tanto ódio do ex-presidente e ex-líder operário. Ele tocou em vários pontos que incomodam a direita nativa e internacional.

Por Altamiro Borges*, no Vermelho 

lula_havanaA reação da mídia privada foi sintomática. Parte dela preferiu omitir as suas palavras e ocultar Cuba, que sediou o evento patrocinado pela Unesco/ONU. Outra parte preferiu desqualificar o “último reduto do comunismo”, como noticiou a Folha, e satanizar Lula.

No que se refere à política externa, Lula fez questão de espinafrar a postura arrogante e imperial dos EUA. “Não existe mais nenhuma razão de se manter o bloqueio a Cuba a não ser a teimosia de quem não reconhece que perdeu a guerra, e perdeu a guerra para Cuba”, afirmou. Ele também conclamou o presidente reeleito Barack Obama “a ter a mesma ousadia que levou o seu povo a votar nele” e a mudar os rumos das relações políticas e econômicas dos EUA com Cuba e com o conjunto do continente latino-americano.

Após homenagear o presidente Hugo Chávez, que está internado em Havana para o tratamento de um câncer, Lula insistiu na urgência da integração soberana da América Latina. “Vocês não podem voltar para suas casas e simplesmente colocar isso (o evento) nas suas biografias. É necessário que vocês saiam daqui cúmplices e parceiros de uma coisa maior, de uma vontade de fazer alguma coisa juntos mesmo não estando reunidos (fisicamente)”. Para ele, a integração regional é decisiva para o futuro dos povos do continente.

O ex-presidente destacou os avanços promovidos pelos governos progressistas da região. “Quem imaginava que um índio, com cara de índio, jeito de índio, comportamento de índio, governaria um país e, mais do que isso, que seu governo daria certo?”, indagou Lula ao se referir a Evo Morales. Estes avanços, afirmou, despertam o ódio das elites reacionárias da região. Ele lembrou a pressão da direita brasileira para que “um ex-metalúrgico brigasse com um índio” quando o governo boliviano estatizou a empresa de petróleo.

Lula também criticou a mídia partidarizada do continente. Irônico, afirmou: “Eu nem reclamo, porque no Brasil a imprensa gosta muito de mim... Mas eu nasci assim, cresci assim e vou continuar assim, e isso os deixa (os veículos de imprensa) muito nervosos... Eles não gostam da esquerda, não gostam do Chávez, Correa, Mujica, Cristina (Kirchner) e do Evo Morales. E não gostam não por nossos erros, mas pelos nossos acertos”. Para ele, as elites “não gostam que pobre ande de avião, compre carro novo ou tenha conta bancária”.

Em Cuba, a ilha revolucionária que enfrenta o império há 53 anos, Lula enfatizou as teses progressistas que tanto incomodam a direita nativa e mundial. O jornal Estadão, que não esconde sua visão conservadora e colonizada, não vacilou em condenar as suas corajosas palavras. Em editorial raivoso nesta sexta-feira, o jornal confirmou o ódio das elites às forças de esquerda. Tratou o evento em Havana como “um daqueles convescotes ideológicos cheios de ar quente e vazios de ideias” e criticou os governos progressistas da região.

O que mais irritou o Estadão, porém, foram as críticas de Lula à imprensa partidarizada. “A mídia, a mesma que o ajudou a decolar do sindicalismo para a grande política - como certa vez, em um momento de franqueza, ele admitiu -, é o bode expiatório de há muito escolhido para livrar o PT do acerto de contas com seus próprios malfeitos”, atacou. O jornal só deixou de explicar que também ajudou a criar o clima para o golpe de 1964 e que elegeu Lula como o seu inimigo principal quando este não seguiu o seu enquadramento liberal.

*Altamiro Borges é jornalista, secretário de Questão da Mídia do PCdoB e presidente do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé