quarta-feira, 6 de março de 2013

Analista diz que “Chavismo será diferente sem Chávez”

Por: José Antonio Lima, no CartaCapital 

velorio_chaves_venezuelaPresidente da Venezuela desde 1999, Hugo Chávez, morto na terça-feira 5, foi uma figura polarizadora, capaz de gerar amor e ódio em seu país e na América do Sul. Críticas a suas tendências por vezes autoritárias e ao desprezo a outros poderes da democracia são corriqueiras, mas, após sua morte, o ponto de maior discórdia deve ser a respeito do que Chávez fez pelos pobres venezuelanos. Segundo números do Banco Mundial, entre 2003 e 2011 o índice de pobreza no país caiu pela metade (de 62,1% para 31,9%). Para muitos analistas, é um feito e tanto. Para outros, não foi suficiente, pois faltou a Chávez ser capaz de institucionalizar mudanças que poderiam colocar a Venezuela numa rota sustentável de redução da desigualdade.

Para Luiz Fernando Sanná Pinto, ex-professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) e hoje pesquisador visitante do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia (Estados Unidos), o maior legado de Chávez supera essa discussão. Para Pinto, que morou na Venezuela entre 2011 e 2012, Chávez provocou alterações profundas na Venezuela. Depois de sua passagem pelo poder, ficou impossível para qualquer força política, chavista ou não, ignorar o povo. Ainda segundo o pesquisador a saída de cena de Chávez não vai diminuir a polarização da política venezuelana. O chavismo terá um perfil mais discreto, mas vai continuar forte.

CartaCapital: Qual é o legado de Hugo Chávez?
Luiz Fernando Sanná Pinto: O legado de Chávez, de certa forma, é o resgate de uma população que ficou totalmente esquecida depois de mais de 20 anos de crises econômicas recorrentes após o grande boom da década de 1970. Essas crises econômicas se tornaram uma crise político-institucional, momento em que os venezuelanos não só empobreceram como perderam alguns direitos. Chávez não só teve essa virtù de resgatar o povo esquecido durante as décadas de 1980 e 1990 como também teve a sorte de contar com um cenário internacional bastante favorável por conta dos preços do petróleo. Isso garantiu todas as condições para criar a ideia, na figura do Chávez, muito carismática, de algo equivalente ao “pai dos pobres” venezuelano. É uma ideia mitológica de Chávez, como sendo ele próprio a expressão do povo. Após Chávez, tanto para o governo como para a oposição, não é mais possível fazer política sem povo na Venezuela, como ocorreu a partir da década de 1980, quando a política no país se tornou uma questão de cúpula.

CC: Com a morte de Chávez, o chavismo continuará a existir?
LFSP: Sim, pois o chavismo como tal é muito forte na Venezuela. Muitos dizem que o chavismo é muito mais do que uma força política, é quase uma forma de pensar hoje de boa parte da população venezuelana, sobre como deve ser a relação entre o Estado e parte dos cidadãos. Sobretudo agora neste primeiro momento vai haver uma unidade muito forte no chavismo e provavelmente eles devem ganhar as eleições sem grandes problemas, mas sem Chávez o chavismo vai ser outra coisa, bem diferente do que foi quando ele estava vivo.

CC: Quais serão as diferenças do novo chavismo, caso continue no poder?
LFSP: O novo governo chavista deve ser diferente dos governos Chávez, entre outras coisas, porque as próprias articulações políticas dentro do chavismo vão ser totalmente diferentes. Provavelmente haverá muito mais conflito por poder, digamos assim, do que existiu até hoje com uma única liderança inconteste e impossível de ser suplantada por outra figura. A influência do chavismo é grande e essa nova relação entre o povo e o Estado não vai ser mudada, nem mesmo no médio prazo, tanto que a oposição tem modificado seu discurso para se adequar ao que foi criado por Chávez e pelo movimento chavista.

CC: O que Chávez fez para garantir a perpetuação do chavismo mesmo sem sua presença?
LFSP: O principal foi alterar a estrutura do Estado no sentido de garantir que parte da renda petrolífera, que aumentou muito nos últimos anos, tanto em função das mudanças no preço do petróleo como em função da legislação petrolífera e dos royalties na Venezuela, passasse a ser, de forma muito mais direta, transferida à população por meio de programas sociais, principalmente na área da saúde e também, de forma indireta, como subsídios para certos alimentos e produtos considerados essenciais. Nenhuma força política na Venezuela, seja ela chavista ou não, vai alterar essa política social. Podem até mudar a forma, mas o conteúdo dela dificilmente seria alterado, porque a população espera isso.