quinta-feira, 23 de maio de 2013

Novo currículo do curso de jornalismo escamoteia poder do oligopólio


Pesquisadores acadêmicos de alto quilate conseguiram a proeza de propor as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Jornalismo sem se pronunciar sobre como se configura o sistema empresarial, oligopólico, firmado sobre a propriedade cruzada de diferentes meios de comunicação.

Pedro Pomar

Estão prestes a ser homologadas pelo ministro da Educação as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Jornalismo, aprovadas pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE) em 20/2/2013. O Parecer 39/2013 CNE/CES pouco alterou o relatório final da chamada Comissão Marques de Melo. O estágio obrigatório de 200 horas foi mantido, apesar da posição inicial desfavorável do relator.

A meu ver, a ausência mais aguda nas Diretrizes Curriculares é a do Capital. Um conjunto de pesquisadores acadêmicos de alto quilate conseguiu a proeza de reunir-se para tratar do Curso de Jornalismo tendo chegado ao final de seu trabalho sem se pronunciar sobre como se configura no Brasil o sistema empresarial, oligopólico, firmado sobre a propriedade cruzada de diferentes meios de comunicação, que dá as cartas na mídia e no jornalismo brasileiros. Dizendo de outra forma, o sistema responsável pela produção da maior parte do jornalismo brasileiro, diário ou semanal, seja ele impresso, televisivo, radiofônico ou digital, é ignorado no documento.

Desse modo, não há uma avaliação crítica do papel desempenhado no jornalismo pelos empregadores de importante parcela dos atuais e dos futuros jornalistas, empregadores esses dotados de notável poder econômico e político na sociedade brasileira, habituados a moldar o jornalismo que praticam de acordo com seus interesses. Eles deixaram de ser criticados pelos especialistas da “Comissão Marques de Melo”, que, no entanto, preocuparam-se em atender suas demandas, por exemplo por meio da figura do estágio obrigatório (“possibilitando a interação da universidade com o setor produtivo”) ou do Mestrado Profissional (recomendação felizmente ignorada pelo CNE/CES), que permitiria a “formação de profissionais especializados, pleito histórico das organizações jornalísticas” (leia-se: empresas de jornalismo).

Também no tocante à comunicação entendida como sistema global, mundial, o relatório que embasou as novas Diretrizes Curriculares valorizou excessivamente as redes sociais e a convergência digital, bem como os “novos sujeitos”, sem levar em conta que prossegue célere o processo de concentração e fusão das corporações gigantes de mídia, ou seja, dos capitais que atuam no setor. Por exemplo, afirmam os especialistas: “Os conteúdos da atualidade, veiculados pelos gêneros jornalísticos são, em esmagadora maioria, ações discursivas de sujeitos que agem no mundo e sobre o mundo por meio de acontecimentos, atos, falas e/ou silêncios. Valorizados pelas técnicas e pela identidade ética, esses conteúdos são socializados no tempo e no espaço do Jornalismo, pelos instrumentos da difusão instantânea universal. E assim, pelas vias confiáveis do Jornalismo, se globalizam idéias, ações, mercados, sistemas, poderes, discussões, interesses, antagonismos, acordos” (Relatório, p. 4). Tudo parece, assim, muito difuso e etéreo, quando a realidade é bem outra, mesmo na Internet, onde a presença das grandes corporações, bem como a ação de grandes Estados, é avassaladora.

Quando cita o mercado ou as empresas, o relatório final da “Comissão Marques de Melo” o faz acriticamente, como se o protagonismo desse setor nada tivesse a ver com o jornalismo que se pratica hoje (no Brasil e no mundo) ou com a formação jornalística. O jornalista, assim, apesar da retórica humanística do texto, ao fim e ao cabo é apenas força de trabalho para as empresas de jornalismo. Mas o Relatório não se limita a escamotear, na abordagem geral prévia, o oligopólio da mídia e do jornalismo. Ele também deixa de incluir esse tópico nos próprios conteúdos curriculares sugeridos. E o CNE/CES aprovou integralmente tais conteúdos.

O objetivo principal do relatório final parece ser subordinar a formação oferecida aos imperativos do mercado. É isso que explica os ataques presentes, no relatório, a um tipo de formação mais reflexiva, mais crítica dos meios de comunicação de massa, por exemplo: a teoria “passou a não reconhecer legitimidade no estudo voltado ao exercício profissional, desprestigiando a prática, ridicularizando os seus valores e se isolando do mundo do jornalismo” (Relatório, p. 12); ou: “A ênfase na análise crítica da mídia, quando feita sem compromisso com o aperfeiçoamento da prática profissional, abala a confiança dos estudantes em sua vocação, destrói seus ideais e os substitui pelo cinismo” (idem).

Observe-se, porém, a seguinte recomendação da Unesco, presente em publicação recente sobre os currículos de jornalismo: “Uma boa formação deve fornecer aos estudantes conhecimento e treinamento suficientes para que reflitam sobre a ética do jornalismo, suas boas práticas e sobre o papel do jornalismo na sociedade. Eles também devem aprender sobre a história do jornalismo, a legislação da comunicação e da informação e sobre a economia política da mídia (incluindo tópicos como propriedade dos meios, estrutura organizacional e competição)” (Modelo curricular da Unesco para o ensino do Jornalismo, Unesco, Brasil, 2010; página 6). Mais adiante, mesmo ressaltando que o curso pensado não se destina a formar pesquisadores acadêmicos, o texto diz: “Pretendemos, igualmente, preparar os estudantes para que sejam críticos a respeito do seu próprio trabalho e em relação ao de outros jornalistas” (idem, p. 7).

A “Comissão Marques de Melo” fechou seu relatório em 2009 e cita apenas a versão anterior (2007) do Modelo curricular da Unesco... Mas é importante assinalar que há uma preocupação da Unesco com essa questão (para quem trabalhamos? quem detém o poder no jornalismo?) que é simplesmente diluída, no documento dos especialistas, em considerações genéricas sobre a ética e a responsabilidade do jornalista.

Em nenhum dos seis Eixos de Conteúdo que constam do item 5 do Relatório (Conteúdos Curriculares) e foram aprovados in totum pelo CNE/CES consta algo consistente sobre o tema, exceto por uma vaga referência, no Eixo III, à “regulamentação dos sistemas midiáticos, em função do mercado potencial” (sic). Basta conferir isso nas páginas 11 e 12 do Parecer CNE/CES 39/2013.

Por fim, é bastante deplorável que o CNE/CES tenha mantido o estágio obrigatório, sob a forma de Estágio Curricular Supervisionado. Isso legitima e amplia a enorme pressão das empresas sobre os estudantes e sobre os cursos. O estágio em jornalismo tem sido um dos mais importantes fatores de aviltamento do mercado de trabalho dos jornalistas brasileiros, funcionando como instrumento de substituição de força de trabalho qualificada. Do ponto de vista simbólico, ele reforça a propaganda das empresas de que só elas dominam o saber jornalístico, e dilui a pressão sobre as escolas de jornalismo para que ofereçam laboratórios de boa qualidade e corpo docente qualificado.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Charge Online do Bessinha # 431

Bessinha #431

Rafael Videla tem encontro com “cramunhão”

Cramunhão, para quem não sabe, também é conhecido como capeta, diabo e outras porcarias mais.

“Todo mundo é um cientista maluco e a vida é o Laboratório. A gente está sempre experimentando, tentando achar um jeito de viver, de resolver os problemas, de se livrar da loucura e do caos”. David Cronenberg

Por: Eliseu

rafael-videla-ditador_argentinoNa postagem anterior dei uma pausa no O Carcará, sem data definida para a volta, ou mesmo se voltaria a editar o blog. Neste curto período de tempo recebi apoio de varias pessoas. Principalmente de leitores e  blogueiros, e nas minhas reflexões acabou ficando claro para mim que o melhor seria voltar com todo potencial que puder. Está em minhas entranhas não aceitar  ver desmandos e violências de toda ordem e ficar calado. E o melhor lugar que tenho para denunciar e colocar minhas opiniões é aqui no blog.

Deixando a tristeza e a saudade em seu devido lugar, na leitura cotidiana,- que não vinha sendo tão cotidiana assim - vi uma notícia que muito me alegrou, chegando à euforia mesmo, o que foi decisivo para minha volta ao blog. Na verdade foram duas: ver os tucanos serem impiedosamente derrotados na MP dos Portos, a a melhor delas, que foi a morte do famigerado general ditador argentino Rafael Videla.

“Os Canalhas vivem por muito tempo, mas às vezes eles morrem”. Mario Benedetti.

Lá, na terra dos hermanos, a impunidade não rola tão solta como no nosso Brasil, terra dos971655_360212444090335_1851416331_n desmandos sem punição. O general Jorge Rafael Videla morreu na manhã de hoje (17) no presídio federal Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua por cometer crimes contra a humanidade, incluindo a acusação de desaparecimento de bebês. Tinha 87 anos e foi o penúltimo presidente da ditadura argentina, sucedido por Reynaldo Bignone, também condenado.

A líder da organização Avós da Praça de Maio, Estella Carloto disse à rádio Continental estar mais tranquila agora, “já que um ser desprezível deixou este mundo”. “A história seguramente vai classificar como genocídio o que o povo argentino sofreu, a infâmia de uma ditadura civil-militar como a que ele comandou, e da qual ele nunca se arrependeu, inclusive dando declarações tardias para reivindicar seus delitos.”, completou.

Enquanto isso aqui em terras tupiniquins, a Comissão da Verdade engatinha a passos de tartaruga, dando a entender até agora que tudo acabará em “pizza”.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fim do O Carcará?

“Só sei que nada sei, …” – Sócrates

Por: Eliseu 

A nossa existência é algo verdadeiramente surpreendente. Ora nos surpreende positivamente, ora negativamente, e às vezes com surpresas brutais, violentas mesmo. Embora saibamos que desde o momento da fecundação caminhamos inexoravelmente rumo ao fim, à morte, nunca queremos aceitá-la. Sempre há a pergunta: por que ele (ou ela)? Porque agora, não alguns anos pela frente? Principalmente quando é uma pessoa nova, aparentemente saudável, sem sintomas de alguma doença.

Pois bem, foi o que aconteceu com esse blogueiro, editor do O Carcará. Quando tive oportunidade de me dedicar à fazer o que gosto, procurar contribuir com o pouco conhecimento de vida que possuo alertando pessoas através do blog, (que já era um projeto pessoal de vida) sobre maus políticos (quase todos), denunciar sem receio de represálias dos “poderosos” as mazelas do país e principalmente da cidade que resido, podendo ver in loco e registrar os abusos contra o cidadão, vem a surpresa. Desagradável surpresa. Violenta!

Em 19 de dezembro do ano passado, a vida (será vida mesmo?) me arrancou de forma inesperada e brutal minha esposa. Um casamento com seus problemas e felicidades, que já durava 33 anos. Mais da metade de minha existência.

Durante o curto período de sua doença (quando começou a parecer que algo estava errado), obviamente que deixei O Carcará em segundo plano e fui cuidar dela, o que apesar de minha insignificância consegui fazer muito bem, contando com a ajuda de uma renomada médica do estado que atua exatamente na área, e que considera esse blogueiro como amigo. Nem ela, com toda a sua sabedoria científica, humana e boa vontade conseguiu evitar o pior. Ela se foi…

ludzmarE com a ida dela um pedaço de mim também morreu. Recebi muita tentativa de conforto por parte de familiares e amigos, grande parte deles dizendo que foi Deus que quis assim. Pode ser que seja, mas será que Deus quer mesmo a morte? O sofrimento das pessoas? Ou será que existe mesmo Deus?

Fato é que o que já não estava bom no blog, piorou com a morte dela. Passados mais de quatro meses e depois de algumas interrupções nas postagens, utilizar postagens de terceiros, alguns pedidos de desculpas aos leitores, chequei à conclusão que não tenho condições de levar esse blog adiante. Não agora, e não sei se terei algum dia condições para tal.

Após muita hesitação, é com grande tristeza que resolvi escrever comunicando aos leitores e colaboradores (meu cumpadi Prof. Diógenes, mestre em língua portuguesa e editor do blog Terra Brasilis, Antônio Carlos, mestre em geografia e na vida, editor do blog Carlos – Professor de Geografia, o genial Bessinha, chargista de primeira) que me prestigiaram e me deram a honra de lerem o que publiquei e também publicaram em meu blog nestes dois anos e meio, para dizer que não tenho condições de continuar mantendo o blog. Não por motivos financeiros. Na verdade nunca auferi lucros com divulgação de publicidade (quando entrava algum dinheiro, mal dava para pagar o acesso à internet) e nem tive e nem quis ter patrocínio de político. Aliás o meu ideal nunca foi de ganhar dinheiro com o blog, mas como já citei antes, informar e denunciar os políticos safados que pululam Brasil afora.

Mais uma vez agradeço a todos. Leitores e colaboradores. Se algum dia, não sei se com uma semana ou alguns anos conseguir superar um pouco a lancinante dor pela perca da Ludzmar e ver que tenho condições de voltar a fazer um trabalho sério e independente como sempre fiz, estarei de volta. Caso não consiga, sinto muito por mim mesmo.

O blog continuará aqui, neste mesmo endereço pelo menos até março do ano que vem. Estará à disposição para leitura de antigos artigos, pesquisas… Reforço que não reivindico direitos autorais, e as postagens são livres para republicação.

Abraços,

Eliseu.