quinta-feira, 25 de julho de 2013

Papa dá apoio a manifestantes e critica “pacificação” de favelas

Em visita à comunidade de Varginha, no Rio, Francisco fez um dos discursos de cunho social mais importantes de seu pontificado
Por: Jamil Chade, no O Estado de S. Paulo

papaO papa Francisco atacou a estratégia de “pacificação” das favelas no Rio de Janeiro, alertando que, enquanto a desigualdade social não for resolvida, “não há paz duradoura”. Nesta quinta-feira, 25, em plena Favela da Varginha, no Rio, ele fez um dos discursos de cunho social mais importantes de seu pontificado e convocou os jovens a continuar pressionando por melhorias, em um sinal de seu apoio aos manifestantes que tomaram as ruas do Brasil desde junho.

O papa ainda completou: a grandeza de uma nação só pode ser medida a partir de como ela trata seus pobres, numa referência indireta à insistência do governo de vender o Brasil como uma das maiores economias do mundo e, ao mesmo tempo, não dar uma solução às suas favelas.

Francisco chega a reconhecer os avanços sociais promovidos pelo governo. Mas alerta que isso ainda não é suficiente e que a pacificação de favelas, como a que ele visita, não pode ser feita com armas. “Quero encorajar os esforços que a sociedade brasileira tem feito para integrar todas as partes do seu corpo, incluindo as mais sofridas e necessitadas, através do combate à fome e à miséria”, disse.

Pacificação.

“Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma”, declarou ainda o papa durante o discurso. E alertou: “Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma, perde algo de essencial para si mesma.”

O papa disse ainda que “somente quando se é capaz de compartilhar é que se enriquece de verdade”. “Tudo aquilo que se compartilha se multiplica. A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, que não tem outra coisa senão a sua pobreza.”

Manifestações

Ele ainda manifestou seu apoio a todos aqueles no Brasil que lutam por mudanças sociais, em uma referência aos protestos que ganharam as ruas do País desde junho.

Atacando a corrupção e o fato de a periferia ser abandonada por políticos, o papa deixou claro que a Igreja vai apoiar o movimento mais amplo de exigências por melhorias. Fontes no Vaticano confirmaram ao Estado que essa foi a forma pela qual o papa optou por lançar seu recado aos manifestantes. A opção foi a de evitar a palavra “protestos”, mas ainda assim fazer um apelo para que a pressão contra a classe dirigente continue.

“Aqui, como em todo o Brasil, há muitos jovens”, disse. “Vocês possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio beneficio”, declarou.

“Também para vocês e para todas as pessoas eu repito: nunca desanimem, não percam a confiança”, insistiu. “A realidade pode mudar, o homem pode mudar.”

Francisco ainda apelou à população que não se deixa “acostumar ao mal, mas a vencê-lo”. O papa ainda garantiu: “Vocês não estão sozinhos, a Igreja está com vocês, o papa está com vocês”.

Às autoridades, o apelo foi para que “trabalhem por um mundo mais justo”. “Ninguém pode permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo”, disse. “Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que regula nossa sociedade. Mas sim a cultura da solidariedade”, insistiu.