sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ludzmar, dois anos…

Nunca julgue a vida dos outros, porque cada um sabe da sua própria dor

Por: Eliseu 

ludzmar_luto_esposaTempo… uns dizem que ele é amigo e alivia a dor, outros – incluindo esse que vos escreve, ou escreve para si mesmo –, pensa que ele, o tempo é um inimigo implacável e só prolonga a dor. Seja como for, acredito que cada um tem sua visão e opinião sobre o tema e sente o que pensa.

Hoje faz dois anos que ela com toda sua sapiência se foi. Veio à esse planeta com a missão de fazer o bem, trazer alegria, consertar algumas “coisas” que podem se classificadas como pessoas. Terminada sua missão, deu um jeito de cair fora desse lugar horroroso, tenebroso, lúgubre - mas que ela demonstrava gostar - e voltar de onde veio, lá em cima...

Ela, a quem me referi é Ludzmar, essa da foto, mulher de fibra, linda, alegre e que não sei porque cargas d’agua foi minha esposa por 33 anos. Na verdade sei, era uma de  suas missões a cumprir. Mas ela me amava, isso sempre tive certeza. E eu também a amei. Com todos os meus defeitos a amei e ela também sabia disso. Faltaram apenas alguns dias para arredondar a conta. De 12 de janeiro de 1980 até o dia 19 de dezembro de 2012 às 11:05 hs quando ela resolveu partir para continuar brilhando de forma mais intensa.

Poderia ficar escrevendo páginas e páginas sobre você Ludzmar, ou bem, como sempre nos tratamos, mas para que? Você sabe de tudo! Prometi encontrá-la em breve, mas parece que eu não sou tão iluminado como você. Aliás, sempre soube disso! E o culpado é o tempo… Um ditador, metido a mandar, decidir quem, quando e porque a gente pode fazer algo. Mas você sabe que nunca gostei de obedecer ordens. Detesto! A gente pode interferir, mas apesar de não ser temeroso de coisa alguma, por enquanto não tive coragem de ir contra ele. Talvez seja porque ele é muito poderoso. Mas todo poderoso em um momento acaba perdendo para alguém.

Quanto ao blog, vou fazer todo o possível para dar continuidade e mante-lo mais atualizado. Não tenho conseguido escrever, desenvolver as ideias. A mente “embaralha”. Mas daqui em diante, enquanto eu estiver por aqui O Carcará vai voltar a escrever. Nunca me esqueci daquela última quinta-feira que você passou entre nós e apesar de já estar debilitada fisicamente fez,  - sem que eu percebesse - e me trouxe o café na mesa enquanto escrevia um post no notebook. Raramente o uso. Comprei outro computador e coloquei no nosso quarto. “Ralhei” com você: “não faça isso. Vá descansar!”. Não aprendi fazer o danado do café. Café só de cafeteira, mas não fico sem ele. Arroz só na panela elétrica que Carla e Thiago me deram. Mas a Flavinha tem feito comida. Ela terminou a faculdade ano passado. Quanta falta você fez na formatura dela… Na Colação de Grau, nossa netinha Ana Beatriz no alto de seus dois aninhos gritava: “Favinha… Favinha… Favinha…”. Como ela está linda e inteligente. Pouco tempo atrás me perguntou por você. Parece que tem bem mais de três anos. Vem aqui pra Flavinha a maquiar, passar esmalte… vaidosa, linda, muito fofa!

Há… Houve melhoras por aqui. Aqueles ônibus que você tanto queria já estão circulando a um bom tempo, mas só para Laranjeiras. Virão outros de Carapina. Eu e o Gilmar (o Gilmar mais que eu) estamos articulando. E o ponto fica bem debaixo de nossa janela. Também tem polícia passando todo dia (poucas vezes, mas tem). E você ia adorar: estão asfaltando aquela rua ao lado do muro da empresa em frente a nossa janela e as ruas próximas aos outros condomínios, a saída para Novo Horizonte. As máquinas estão me atazanando o dia todo inclusive finais de semana. Mas tudo teve o “meu dedo” para concretização. Ainda tem muito o que fazer. Aquele terreno baldio que você detestava ainda não conseguimos resolver. Também pra que estou te contando? Você sabe de tudo, inclusive que não pude fazer essas coisas enquanto estava conosco…

Saudades… Também não consigo dimensionar, se é que existe uma fórmula. Falta de você? Imensa!

Loucura de estar falando com você? Talvez. Vá saber… Está aí a vantagem de ter um blog e não aceitar patrocínio: posso escrever o que quiser. Ele é meu!

Você sabe que do meu jeito eu te amei. 33 anos… uma vida! Ando meio confuso, você sabe, mas essa música é para você e como não sei cantar, escolhi o Benito de Paula para me representar. Claro que sou mais bonito que ele. Rssss

Um beijo, nos encontraremos. Preciso bater um papo sem o tempo para atrapalhar. Nesse momento, de uma forma ou outra terei vencido o tempo!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Imprensa finge que não vê mas Polícia fecha o cerco ao ninho tucano

A mídia tradicional vem martelando na cabeça dos leitores 24 horas por dia o assunto Petrobras, mas “esquece” a roubalheira no metrô, trens e monotrilho de São Paulo

Por: Helena Sthephanowitz, no Rede Brasil Atual 

tucano_corrupçao_psdbO jornal Folha de S.Paulo denuncia que planilhas apreendidas pela Polícia Federal na sede da empreiteira Queiroz Galvão, na capital paulista, mostram que a empresa vincula valores recebidos por obras públicas a doações eleitorais para partidos e candidatos de oposição ao governo federal.

O material foi obtido no âmbito da sétima fase da Operação Lava Jato, chamada de Juízo Final, que investiga denúncias de desvio de recursos de obras e pagamento de propinas por empresas a funcionários da Petrobras.

De acordo com a planilha, datada de 2014, para chegar ao valor da doação ao político a empreiteira fazia um cálculo sobre o valor recebido por determinada obra.

Segundo a reportagem, um dos registros dos papeis encontrados, nomeado como “VLT” – uma provável referência ao Veículo Leve sobre Trilhos da Baixada Santista, obra realizada pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin(PSDB), por meio da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), é possível perceber a aplicação de uma fórmula sobre o “recebimento acumulado” até medição de junho de 2014, para que a empreiteira chegasse ao valor que seria destinado a “doações”.

Após descontos, o valor aparece na planilha como sendo de “117.500”, possivelmente R$ 117,5 milhões, sobre o qual incidia o cálculo: 1,5% vezes 66% (percentual já recebido pela obra), resultando numa doação de R$ 1,16 milhão. Esse valor constituía uma “ProfPart” (sigla usada na planilha), que a Queiroz Galvão reconheceu ser uma “Provisão Financeira para o PSDB”.

Em outra planilha apreendida junto com a primeira, esse exato valor é atribuído ao “PSDB nacional”. Outros políticos destinatários de possíveis doações aparecem na planilha, com iniciais.

Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a empreiteira doou R$ 3,7 milhões ao diretório nacional do PSDB nas eleições de 2014.

A Queiroz Galvão explicou outras iniciais na planilha: “J.S.” é o senador eleito José Serra (PSDB-SP), “P.S.” é o candidato do PMDB ao governo Paulo Skaf e “E.A.” é o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Há outros valores associados a outras obras realizadas em São Paulo, como o CSS (Contorno de São Sebastião) e CEML (Consórcio Monotrilho Leste), realizados pelo governo de São Paulo, mas com dinheiro do governo federal.

No entanto a imprensa não “martela” esse tipo de notícia na cabeça do leitor, o  excessivo bombardeio ao governo federal no noticiário, funcionando como artilharia para a oposição partidária, começa a dar sinais de fadiga de material. Ou seja, provoca cansaço no próprio leitor e telespectador, com consequente ceticismo em vez de chegar ao objetivo dos editores: levar a população ao sentimento antigoverno.

É absolutamente desejável em democracias sólidas que notícias de corrupção façam parte do cotidiano e sejam divulgadas com total transparência, da mesma forma que existe o noticiário policial, onde todo dia há notícias de crimes e criminosos. Funcionários públicos, maus policiais, políticos, juízes, procuradores, seja quem for que de fato cometa crimes, e corrupção é um deles, não há por que ser blindado no noticiário.

Mas no noticiário político denuncista, não há delimitação clara da individualização de condutas, buscando criar no imaginário popular a ideia de que todo um governo, uma estatal, um partido, serem todos uma grande “organização criminosa”. No entanto, o governo da coligação petista iniciado em 2003 foi o que mais criou instrumentos para combater a corrupção.

Editores de notícias comprometidos com projetos de poder oposicionistas constroem há anos narrativas de forma seletiva, no final das contas buscando direcionar o leitor ou ouvinte a votar em candidatos de oposição. Deu certo com alguns eleitores, mas a maioria sente o cheiro de picaretagem quando o noticiário é seletivo demais, e o resultado das três últimas eleições presidenciais mostram isso.

O cidadão desconfia do ambiente político como um todo e dos próprios jornais e TVs. Não crê que a oposição seja melhor do que o governo neste quesito de combate à corrupção. Não por acaso, Aécio Neves (PSDB) não só perdeu a última eleição, como despontou nas pesquisas com rejeição mais alta do que a presidenta Dilma Rousseff, pela fadiga do discurso falso de combate à corrupção.

Além disso, ninguém aguenta ficar tantos anos seguidos ouvindo notícias de denúncias repetitivas, sem que a imprensa tradicional conte algo de novo para modificar o quadro, como falar nas causas e soluções.

O debate sobre o financiamento empresarial de campanha e da reforma política não ocupa o noticiário de grande audiência, e até para justificar o excesso de denuncismo precisaria receber a mesma ênfase. Seus repórteres nunca perguntam ao ministro Gilmar Mendes quando ele vai devolver o processo da ação da OAB para terminar o julgamento que declarará inconstitucional o financiamento de campanhas por empresas.

No jargão político a expressão “fadiga de material” geralmente é usada contra os governos que se desgastam após um tempo no poder. Mas ela também acontece com um discurso de oposição repetitivo que não convence mais. Nas urnas, faltam votos. Ao golpe, faltam adeptos. No jornalismo, a perda é, primeiro de credibilidade, seguida da perda de audiência.

Mas o governo também não pode se iludir apenas com o cansaço deste discurso oposicionista, pois não existe vácuo nem no poder, nem na pauta de notícias. Alguém sempre a ocupa. Se o governo não disputar essa pauta, democratizando as comunicações para haver mais circulação de informações e debate de ideias, a oposição, ainda que seja uma nova oposição, vai continuar ocupando sozinha.

A mídia tradicional vem martelando na cabeça dos leitores 24 horas por dia o assunto Petrobras, mas “esquece” a roubalheira no metrô, trens e monotrilho de São Paulo.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Saudade é Diferente - João Cunha




SAUDADE É DIFERENTE
João Cunha


MINHA SAUDADE É DIFERENTE DA SUA...

MINHA SAUDADE É DIFERENTE...
TÃO BELA!... TÃO NUA!..
MINHA SAUDADE PASSA DE REPENTE,
FINDA AO SOL... RENASCE À LUA.

MINHA SAUDADE ME FAZ TÃO FELIZ!
DO MARCO ZERO À IMPERATRIZ.
DERRAMANDO POESIA EM CANÇÕES
VIOLINOS, VIOLÕES,
CLARINETES, CLARINS!

NA ARSENAL TODOS PARAM PRA VER
O MEU POVO, EM SAUDADE, NA RUA...
SÓ ALI VOCÊ ENTENDE POR QUE
MINHA SAUDADE DIFERE DA SUA...

MINHA SAUDADE É DIFERENTE
CANTA PONTES, RIO E MAR...
MINHA SAUDADE,
PASSA CANTANDO PRA GENTE
FAZ MEU RECIFE SONHAR...

MINHA SAUDADE É DIFERENTE DA SUA...
LÁ, LAIÁ, LAIÁ, LAIÁ, LÁ...

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Economia retoma crescimento

No: Agência Brasil

economia-brasileiraO Ministério da Fazenda avalia que o aumento de 0,1% do PIB no terceiro trimestre na comparação com o trimestre anterior mostra que a economia entrou em processo de retomada do crescimento econômico, embora em ritmo ainda modesto. O ministério destacou também, por meio de nota, a expansão de 1,7% da indústria e de 1,3% dos investimentos.

“Os indicadores antecedentes e coincidentes sinalizam a continuidade dessa trajetória de melhora no quarto trimestre. A retomada do investimento é fundamental para que o crescimento econômico se acelere e tenha sustentação ao longo do tempo”, informa a nota.

Outro destaque, informou o ministério, é que a queda de 1,9% na agricultura no terceiro trimestre foi provocada basicamente pela seca prolongada, que afetou importantes culturas, como a de cana-de-açúcar e a de café.

Na avaliação do ministério, é importante mencionar que a demanda interna mostrou enfraquecimento no terceiro trimestre, situação expressa na queda de 0,3% do consumo das famílias, que reflete a escassez de crédito em um ambiente de restrição monetária para combater a inflação. “É importante destacar que o crédito começa a dar sinais de melhora, mas ainda está aquém do necessário para levar a taxa de crescimento do consumo das famílias para uma situação de normalidade.”

Outro destaque na nota é para o baixo desemprego no país, com a menor taxa de desemprego da série histórica (4,7% em outubro) e para a continuidade do aumento da renda dos trabalhadores. Para o ministério, isso significa que a massa salarial continuou crescendo, mas o desempenho do mercado interno tem sido contido pela falta de crédito.

“O bem-sucedido desempenho do mercado de trabalho brasileiro é resultado da estratégia de política econômica anticíclica, que mitigou os impactos da desaceleração econômica mundial e doméstica sobre os trabalhadores”, diz a nota.

O ministério destaca ainda que a economia brasileira apresenta fundamentos macroeconômicos sólidos e tem todas as condições para apresentar, no quarto trimestre e em 2015, crescimento mais intenso, garantindo e ampliando as conquistas sociais, em especial da população trabalhadora e de menor renda.  

Jane Birkin - Quoi

O Carcará também gosta de música!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Desigualdade social cai

São Paulo lidera ranking com 0,794 e Manaus fecha a lista com 0,720. Em dez anos, a diferença entre elas caiu 12%

No: CartaCapital 

Os indicadores socioeconômicos das regiões metropolitanas brasileiras melhoraram entre 2000 e 2010 e mostram redução das disparidades entre metrópoles do Norte e do Sul do país. Os dados são do Atlas do Desenvolvimento Humano nas Regiões Metropolitanas Brasileiras, divulgado nesta terça-feira 25, fruto de parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro.

De acordo com o atlas, entre 2000 e 2010, as disparidades entre as 16 regiões metropolitanas analisadas diminuíram e todas se encontram na faixa de alto desenvolvimento humano. A análise leva em conta o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). As regiões metropolitanas que apresentaram os maiores valores para o IDHM em 2010 foram São Paulo (0,794), Distrito Federal e Entorno (0,792), Curitiba (0,783), Belo Horizonte (0,774) e Vitória (0,772), todas com índices mais altos que os apresentados em 2000.

A boa surpresa veio nas regiões metropolitanas de mais baixo IDHM. Todas elas melhoraram. Em 2000, apenas São Paulo tinha índice de desenvolvimento humano alto. Manaus tinha baixo e as outras regiões, médio. Em 2010, todas passaram a ter IDHM alto. Hoje, Recife apresenta IDHM de 0,734 e é seguido por Natal (0,732),Fortaleza (0,732), Belém (0,729) e Manaus (0,720).Em 2010, a diferença registrada entre a região metropolitana com o maior e o menor IDHM foi 0,074 pontos ou 10,3%. Enquanto São Paulo ficou com índice 0,794, Manaus estava com IDHM 0,720. Dez anos antes, essa diferença era 22,1%.

O IDHM é um número que varia entre 0 a 1: quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano de um estado, município ou região metropolitana. O índice é calculado levando em conta três fatores: expectativa de vida, renda per capita e acesso ao conhecimento, que considera a escolaridade da população adulta e o fluxo escolar da população jovem.

Os dados do atlas são calculados com base nos Censos Demográficos de 2000 e 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 2000 e 2010, as regiões metropolitanas que apresentavam um IDHM menor tiveram avanço maior e as que tinham índices maiores cresceram menos. Isso fez com que as diferenças entre as regiões metropolitanas diminuíssem, resultando em maior equilíbrio entre as 16 regiões pesquisadas (Belém, Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, Distrito Federal e Entorno, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís, São Paulo e Vitória). Essas 16 regiões correspondem a quase 50% da população brasileira.

No período analisado, as regiões metropolitanas que tiveram o maior avanço no IDHM, em termos relativos, foram Manaus, Fortaleza, São Luís, Belém e Natal. As que tiveram menor avanço foram as de São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Vitória. Para o representante do Pnud no Brasil, Jorge Chediek, gestores públicos e população devem usar os dados do atlas não apenas para constatar as disparidades, mas também para direcionar e reivindicar políticas pública inclusivas e eficientes para as áreas mais carentes. “Para além de evidenciar o fato de que o país ainda tem um caminho a percorrer na redução das desigualdades em suas cidades, a intenção do atlas é justamente ajudar no estabelecimento de políticas inclusivas que tenham como fim a melhoria das condições de vida das pessoas”, disse.

Além das regiões metropolitanas, foram pesquisadas 9.825 unidades de Desenvolvimento Humano (UDHs), conceito próximo ao de bairros. Nessas UDHs, “é possível notar níveis significativos de desigualdades intrametropolitana”, aponta o atlas.

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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

As mãos sujas

Que Deus ouça a presidenta Dilma, mas o fenômeno é o de sempre

Por: Mino Carta, no CartaCapital 

Admitia um parlamentar do Partido Democrata-Cristão da Itália, envolvido na célebre Operação Mãos Limpas: “Os partidos são máquinas de caça-níqueis”. A frase será certamente muito apreciada por todos aqueles que enxergam nos políticos em geral outros tantos ladrões. Nem por isso vale em todas as circunstâncias, embora em parte não destoasse quando foi pronunciada e tampouco destoe no Brasil de hoje.

Pretende-se semelhança entre a nossa Operação Lava Jato e a Operação Mãos Limpas dos começos dos anos 90. Ambas visam devassar e condenar esquemas corruptos, mas há mais diferenças do que parecenças. Aquelas, de saída. Tanto a Mãos Limpas quanto a Lava Jato resultam de uma investigação inicial a respeito de fato e personagens de porte miúdo. Tampas pequenas para panelões ferventes.

As duas operações apresentam os rostos de figuras centrais, o PM Antonio Di Pietro e o juiz Sergio Moro. Na Itália, o grande inquisidor Di Pietro foi logo secundado por um pool de juízes e a operação levou à cadeia mais de mil cidadãos, atingidos ao cabo por condenações inflexíveis e amiúde longas. Políticos e empresários. Alguns destes mataram-se antes de ser presos. O político que dominara por dez anos, o líder socialista e primeiro-ministro Bettino Craxi, condenado a oito anos de cárcere, fugiu para a Tunísia, a salvo da extradição.

A comparação entre o PT e o PCI exibe outra diferença. Ao contrário daquele, a se revelar igual a todos os demais partidos brasileiros, não houve condições de provar que políticos comunistas de qualquer escalão tivessem embolsado um único, escasso tostão, conquanto não fossem isentados de meticulosas investigações.

O desfecho da Mãos Limpas foi a implosão da Primeira República, nascida no imediato pós-Guerra. Nem sempre este gênero de terremoto produz bons resultados, além do ataque à corrupção, eficaz de saída. No vazio de poder que se seguiu, ao vir à luz a Segunda República, instalou-se um predador clownesco chamado Silvio Berlusconi, enquanto o PCI mudava de nome, chamuscava a sua identidade e se perdia em disputas internas.

Eis aí uma lição que seria oportuno aproveitar: a antipolítica sempre deságua em desastre. Em nome da negação da política, tida como origem de todos os males e de todas as mazelas, as ideologias chamadas a nutrir o debate responsável são abandonadas em proveito do desarme da consciência. Ou, por outra, da promoção da ignorância, do preconceito, do equívoco. No Brasil, um pensamento antipolítico leva ao fortalecimento da casa-grande e incentiva a mídia nativa no seu esforço de despolitização de quantos a leem ou ouvem.

Aonde nos conduz a Operação Lava Jato não é fácil prever. Creio que o juiz Moro queira apenas e tão somente fazer justiça e creio que esta venha a ser aplicada com todo o rigor. Tenho outra certeza: este processo vai confirmar o pecado capital da política à brasileira, cometido desde sempre. Gostaria, portanto, que outros fatos a enodoar o passado da política brasileira viessem à tona, inclusive os ocorridos em tempos recentes, antes da primeira vitória de Lula.

Pois então, em um arroubo de pacata ilusão, proponho: chamemos o tão falante Fernando Henrique Cardoso, erguido no alto de livros que ninguém leu, para que explique como se deu a privatização das Comunicações, a maior bandalheira da história do Brasil. Ou de como foi feliz na compra de votos para conseguir a sua reeleição. Ou de que maneira foram enterrados os casos Sivam e Pasta Rosa. Nesta terra pretensamente abençoada por Deus, uma multidão implora pelo definitivo triunfo da moral, com M grande, e não se incomoda com quem inaugurou a transgressão. A maioria, por viver no limbo, alguns por hipocrisia.

Se a Operação Lava Jato cumprisse o cauteloso vaticínio da presidenta Dilma, ao imaginá-la capaz de provocar uma mudança positiva nos hábitos políticos do País (e eu gostaria se também fossem comportamentais para a sociedade em peso), que bem venha. Até para impedir, daqui para a frente, que somente pobres e petistas sigam para a cadeia.

domingo, 23 de novembro de 2014

Dilma reage à Veja

Talvez um dos maiores pecados do PT, tanto no governo Lula e agora no de Dilma tenha sido tratar seus inimigos à “pão de ló”

Por: Eliseu

dilmaRecentemente tive a oportunidade de ver alguns blogueiros – felizmente a minoria – reclamando que Dilma não deu a devida retribuição à militância e oposição ferrenha que fizemos ao PSDB e por consequência ao Aécio Neves, ou “Never”, como queiram. Não me manifestei mas minha opinião é que ela não tem obrigação de qualquer retribuição, seja afetiva ou financeira uma vez que fizemos e continuamos a fazer por convicção ideológica. Quem reclamou na minha opinião não faz por ideologia e sim esperando auferir vantagens, o que não é o meu caso e de grande parte de nós.

Mas um “pecado” o PT tem que corrigir imediatamente: o tratamento que dá à mídia tradicional, o PIG (inclui-se aí  principalmente Globo; Veja; Folha; IstoÉ, que dia após dia tenta um novo golpe contra a presidenta.

Às véspera do segundo turno da eleição deste ano a Veja, da Editora Abril, soltou em vão uma desesperada matéria, em que foi condenada pela justiça eleitoral. Agora volta à carga na edição deste sábado (22), mais uma vez tentando envolver a presidenta Dilma Rousseff no esquema de corrupção investigado pela Polícia Federal na Petrobras, afirmando que ela tinha conhecimento do esquema.

Reportagem da Rede Brasil Atual dá conta que a informação desta vez seria um e-mail de 2009 de Paulo Roberto Costa para Dilma, então ministra da Casa Civil, em que o ex-diretor da Petrobras trata de restrições do Tribunal de Contas da União às obras da Refinaria Abreu e Lima. Costa teria proposto que o tema passasse pelo Congresso. Segundo Veja, naquele momento, Dilma poderia ter feito parar o esquema de corrupção na Petrobras.

Finalmente o Palácio do Planalto reagiu à nova tentativa da editora contra o governo Dilma, afirmando em nota que a reportagem é mais um episódio de manipulação jornalística que marca a publicação nos últimos anos.

Leia a nota do Planalto

“A reportagem de capa da revista Veja de hoje é mais um episódio de manipulação jornalística que marca a publicação nos últimos anos.

Depois de tentar interferir no resultado das eleições presidenciais, numa operação condenada pela Justiça eleitoral, Veja tenta enganar seus leitores ao insinuar que, em 2009, já se sabia dos desvios praticados pelo senhor Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobras demitido em março de 2012 pelo governo da presidenta Dilma.

As práticas ilegais do senhor Paulo Roberto Costa só vieram a público em 2014, graças às investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.

Depois de tentar interferir no resultado das eleições presidenciais, numa operação condenada pela Justiça eleitoral, Veja tenta enganar seus leitores ao insinuar que, em 2009, já se sabia dos desvios praticados pelo senhor Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobras demitido em março de 2012 pelo governo da presidenta Dilma.

As práticas ilegais do senhor Paulo Roberto Costa só vieram a público em 2014, graças às investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.”

Aos fatos:

Em 6 de novembro de 2014, Veja procurou a Secretaria de Imprensa da Presidência da República informando que iria publicar notícia, “baseada em provas factuais”, de que a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, recebeu mensagem eletrônica do senhor Paulo Roberto Costa, então diretor da Petrobras, sobre irregularidades detectadas em 2009 pelo Tribunal de Contas da União nas obras da refinaria Abreu e Lima. O repórter indagava que medidas e providências foram adotadas diante do acórdão do TCU. A revista não enviou cópia do e-mail.

No dia 7 de novembro, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República encaminhou a seguinte nota para a revista:

“Em 2009, a Casa Civil era responsável pela coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Assim, relatórios e acórdãos do TCU relativos às obras deste programa eram sistematicamente enviados pelo próprio tribunal para conhecimento da Casa Civil.

Após receber do Congresso Nacional (em agosto de 2009), do TCU (em 29 de setembro de 2009) e da Petrobras (em 29 de setembro de 2009), as informações sobre eventuais problemas nas obras da refinaria Abreu e Lima, a Casa Civil tomou as seguintes medidas:

a. Encaminhamento da matéria à Controladoria Geral da União, em setembro de 2009, para as providências cabíveis;

b. Determinação para que o grupo de acompanhamento do PAC procedesse ao exame do relatório, em conjunto com o Ministério de Minas e Energia e a Petrobras;

c. Participação em reunião de trabalho entre representantes do TCU, Comissão Mista de Orçamento, Petrobras e MME, após a inclusão da determinação de suspensão das obras da refinaria Abreu e Lima no Orçamento de 2010, aprovado pelo Congresso.

Nesta reunião, realizada em 20 de janeiro de 2010, “houve consenso sobre a viabilidade da regularização das pendências identificadas pelo TCU” nas obras da refinaria Abreu e Lima (conforme razões de veto de 26 de janeiro de 2009). Foi decidido, também, o acompanhamento da solução destas pendências, por meio de reuniões regulares entre o MME, o TCU e a Petrobras.

A partir daí, o Presidente da República decidiu pelo veto da proposta de paralisação da obra, com base nos seguintes elementos:

1) a avaliação de que as pendências levantados pelo TCU seriam regularizáveis;

2) as informações prestadas em nota técnica do MME que evidencia os prejuízos decorrentes da paralisação; e

3) o pedido formal de veto por parte do então Governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Este veto foi apreciado pelo Congresso Nacional, sendo mantido.

A partir de 2011, o Congresso Nacional, reconhecendo os avanços no trabalho conjunto entre MME, Petrobras e TCU, não incluiu as obras da refinaria Abreu e Lima no conjunto daquelas que deveriam ser paralisadas.

E a partir de 2013, tendo em vista as providências tomadas pela Petrobras, o TCU modificou o seu posicionamento sobre a necessidade de paralisação das obras da refinaria Abreu e Lima”.

A inconsistência da reportagem de Veja é evidente. As pendências apontadas pelo TCU nas obras da refinaria Abreu e Lima já haviam sido comunicadas, em agosto, à Casa Civil pelo Congresso e foram repassadas ao órgão  competente, a CGU.

Como fica evidente na nota, representantes do TCU, Comissão Mista de Orçamento do Congresso, Petrobras e do Ministério de Minas e Energia discutiram a solução das pendências e, posteriormente, o Congresso Nacional concordou com o prosseguimento das obras na refinaria.

“Mais uma vez, Veja desinforma seus leitores e tenta  manipular a realidade dos fatos. Mais uma vez, irá fracassar.”

E os coxinhas continua alimentando essa revista sem ética, sem moral, sem princípios como eles próprios. Afinal quem farelo come aos porcos se mistura.

sábado, 22 de novembro de 2014

Deputado alerta para conivência com erros do PSDB

O deputado Amauri Teixeira (PT-BA) utilizou-se de artigo publicado na imprensa intitulado: Procuradores da Operação Lava-Jato dizem que esquema começou no Governo Fernando Henrique para criticar a postura da oposição no Congresso Nacional de sucessivos ataques ao PT. E destacou que, na época do governo FHC, o Judiciário era totalmente submisso.

No: Vermelho

fhc_corrupçaoEle observou que tornou-se comum falarem do PT, como se esse esquema tivesse começado nos governos do PT. “Isso não é verdade”, vaticinou. Segundo Amauri, a mesma abordagem foi feita no caso do mensalão, que começou em Minas Gerais. “Os tucanos foram o pai e a mãe do mensalão! E não há nenhum julgamento de tucanos neste País”.

Recentemente os tucanos foram julgados, condenados, e a Justiça decretou a prescrição dos crimes. “Então, este é o esquema dos tucanos: controle do Judiciário, controle do Ministério Público e controle da mídia. Mas eles são os pais e as mães da corrupção moderna neste País”, frisou o deputado.

 

No artigo, os procuradores que respondem pela Operação Lava Jato afirmaram que o esquema de cartel das empreiteiras de obras da Petrobras teve início antes da chegada dos diretores Paulo Roberto Costa e Renato Duque. “Aliás, é bom lembrar que Costa e Duque estavam na Petrobras desde os anos 1970 e assumiram cargos de responsabilidade bem antes da eleição do governo Lula”, afirmou Amauri Teixeira. Ele lembrou que as mesmas empreiteiras envolvidas no esquema junto à Petrobras desbaratado pela Polícia Federal também estão envolvidas no escândalo do Rodoanel de São Paulo.

Na avaliação do deputado Amauri Teixeira, esta é a oportunidade de passar o país a limpo. “E a chance de passar este País a limpo é com a presidenta Dilma. Os tucanos são mestres em botar o lixo debaixo do tapete. Os tucanos são mestres em escapar das garras da Justiça”, alertou.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Jurista critica uso seletivo da delação premiada

Fábio Medina Osório, especializado em improbidade administrativa, acha que é preciso cautela na aplicação do instrumento, até para se evitar calúnias por parte dos delatores

Por: Hylda Cavalcanti, no Rede Brasil Atual 

delaçao_premiadaO jurista Fábio Medina Osório, que possui 14 anos de atuação no Ministério Público e é professor e autor de livros sobre Direito administrativo e improbidade administrativa, afirmou hoje (18), em Brasília, que o instrumento da delação premiada não deveria ser seletivo, ao ser questionado sobre a forma como o recurso vem sendo utilizado pelos lobistas e ex-diretores da Petrobras envolvidos na Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Para Osório, deveria existir uma regulação interna do procedimento, até para se evitar calúnias por parte dos delatores.

“É um instrumento moderno que eu defendo, mas é necessário afirmar que tem que ser aplicado com cautela”, acentuou. Para ele, também em relação à conduta dos delegados da Polícia Federal que publicaram críticas ao PT e ao governo federal e elogios ao PSDB em redes sociais, é preciso haver certo cuidado. “Ao exporem suas posições políticas, estes policiais podem terminar passando para a sociedade a ideia de que existe uma parcialidade entre eles.

Segundo Osório, o episódio da Operação Lava Jato deve provocar uma avaliação no país sobre a lei anticorrupção (12.846/2013), que responsabiliza civil e administrativamente pessoas jurídicas por atos contra a administração pública. Ele explicou que a lei só atinge os casos observados a partir da sua vigência, por isso, não poderia ser aplicada às empresas envolvidas no esquema de pagamento de propina referente ao caso da Petrobras. Mas ele acredita que o episódio pode dar margem para uma ampla análise sobre essa aplicabilidade.

Um pouco mais cedo, em São Paulo, o chefe da Controladoria-Geral da União (CGU), ministro Jorge Hage, também ressaltou que poderia caber o efeito retroativo à referida legislação, e que o tema ainda deverá “suscitar muita discussão”.

Hage disse que preferia que tal legislação fosse chamada de "lei empresa limpa" e não lei anticorrupção. Acrescentou que a mesma consistiu em um passo importante para esclarecimento de responsabilidade das empresas sobre envolvimento em atos de corrupção, mas por si só não resolverá tudo. “A lei é o coroamento de uma etapa”, colocou, lembrando que existem outras medidas importantes que ainda não foram feitas no país, como a reforma política.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Dilma esvazia jogada política desastrada de Marta Suplicy

Só um plano de mudar de partido explicaria o gesto da senadora de sair do ministério praticamente “atirando”. Ao atuar como bombeira, Dilma defendeu o governo de intrigas e até Marta, de queimaduras

Por Helena Sthephanowitz, no Rede Brasil Atual 

dilmaO gesto da demissionária ministra da Cultura, Marta Suplicy (PT-SP), de divulgar carta de demissão quando a presidenta Dilma Rousseff viajou para o encontro de países do G-20 na Austrália, foi calculado. Fato semelhante ocorreu com Marina Silva (PSB-AC), quando pediu demissão do Ministério do Meio Ambiente durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, também quando o ex-presidente estava fora de Brasília. A diferença é que Lula pensava em manter Marina à frente do ministério conciliando divergências.

Marta, já sabendo que teria de entregar o cargo, principalmente devido à necessidade de Dilma de revigorar seu governo com novas forças mais representativas do cenário político e social, resolveu sair da forma mais barulhenta possível. Esperou ela viajar para divulgar publicamente a carta com críticas recorrentes na imprensa oposicionista à política econômica. O assunto foge à alçada de seu ministério, mas garante manchetes e visibilidade por estar dentro da pauta oposicionista que a imprensa tradicional gosta.

Marta volta ao Senado, onde tem mandato até 2018, e cogita sair candidata à prefeitura de São Paulo em 2016. Sendo do mesmo partido da presidenta, o mais sensato seria fazer uma transição suave de ministra para senadora, seja para usar o apoio da presidenta e do partido na pretensão de ser candidata a prefeita em 2016, seja para disputar a reeleição ao Senado em 2018. Só um plano de mudar de partido explicaria seu gesto de sair do ministério praticamente atirando.

Seu partido, o PT, já tem no prefeito Fernando Haddad o candidato natural à reeleição. Haddad já passou pelos maiores desgastes de popularidade, sobretudo em 2013 quando enfrentou as grandes manifestações contra o aumento da tarifa dos ônibus urbanos. Depois disso vem recuperando gradualmente sua popularidade à medida que a população vê resultados nas políticas públicas implantadas, tais como corredores de ônibus, ciclovias, revitalização de espaços urbanos, recomposição do salário dos professores da rede municipal de ensino, ampliação da rede de saúde, combate à corrupção e outras iniciativas em curso. Também terá mais folga orçamentária a partir da redução dos juros da dívida municipal. Marta só teria chances de ser candidata pelo PT se Haddad fracassasse completamente em seus dois últimos anos de mandato, o que parece bastante improvável.

Seja qual for a real pretensão da senadora, sua carta de demissão alinhada com críticas da oposição, se agrada setores da imprensa oposicionista e costuma abrir espaço para entrevistas nas páginas mais destacadas das revistas e jornais, desagrada sua base eleitoral mais fiel, mais ideológica e militante.

Dilma, em visita ao Catar, a caminho da Austrália, concedeu entrevista coletiva e respondeu duas vezes sobre o assunto. Contemporizou. Disse que a saída de Marta já estava acertada há mais de um mês entre as duas: “Logo depois da minha eleição, disse que sairia e eu aceitei. Ela me disse que enviaria uma carta”. Afirmou que a ministra “não fez nada de errado” e que “não teve atitude incorreta”. Mesmo as críticas dirigidas à área econômica, a presidenta se limitou a dizer que “trata-se da opinião dela”, esvaziando as tentativas de alimentar intrigas em torno deste fato.

Ao atuar como bombeira que apaga focos de incêndio, Dilma não apenas defendeu seu governo de intrigas, como também evitou que a própria Marta sofresse queimaduras. Afinal, não se troca facilmente de base eleitoral com meia dúzia de entrevistas na imprensa tradicional.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O diálogo não basta

As dificuldades de Dilma ao contar com uma base governista interessada apenas nas benesses concedidas pelo governo

Por: Mauricio Dias, no CartaCapital

dilmaDebruçado sobre o resultado das eleições para o Congresso, Senado e Câmara, o cientista político Fabiano Santos olha para os números tendo em perspectiva o segundo governo Dilma e se vê tomado de preocupação. Uma dobrada preocupação, diga-se, possivelmente refletindo no mundo acadêmico as mesmas inquietações sofridas pela presidenta, reeleita após uma disputa eleitoral duríssima.

“Dilma terá de cuidar com muito mais atenção das relações com o Parlamento. Mais especificamente com a Câmara dos Deputados”, acentua Santos, numa das salas do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde trata do tema com o pesquisador Júlio Canello.

À frente deles, na tela do computador, espalham-se números, porcentuais e votações obtidas pelos 28 partidos, incluindo os seis novos, representados na Câmara dos Deputados na legislatura de 2015. Com esse amontoado de informações Santos e Canello formaram, com a precisão possível, o cenário de governabilidade para Dilma, considerando as relações com o Congresso. No Senado, a oposição será menor, porém, mais dura. Uma coligação de apenas 18 senadores certamente mais sintonizados.

“A vantagem numérica do governo no Senado pode ser compensada, do ponto de vista das estratégias e processo deliberativo, pelo peso político e experiência de nomes da oposição, como os do próprio Aécio Neves, de José Serra, Tasso Jereissati e Aloysio Nunes Ferreira”, lista Fabiano Santos.

Ao falar sobre a composição da Câmara, ele faz avaliação distinta. Acredita que “o menor peso relativo da coalizão de apoio a Dilma seguramente será revertido com a presença maior do que chamamos centro flexível, isto é, os partidos que não são marcadamente de direita e tendem a aderir ao governo por conta de acordos pragmáticos a um baixo custo para a operação do governo e do Estado em seu conjunto”.

A vitória parece não ter subido à cabeça dela, onde, aliás, estão registradas as crises no começo do primeiro governo. Havia então um quadro muito menos problemático do que agora. Dilma e seus “aliados”, como Renan Calheiros, senador pelo PMDB, já destoam quanto à proposta de reforma política.

Na Câmara, a coalizão do governo, a chamada base governista, cairá de 340 para 304. Ainda é grande e, pelo tamanho, igualmente fragmentada e unida apenas pelas benesses oferecidas pelo Executivo aos aliados.

Júlio Canello acredita que o adversário “seguirá enrijecido”. E explica: “A oposição poderá seguir em sua estratégia de adversário implacável. Para governar será preciso equacionar as agendas do PT e dos vários PMDBs”.

É o quadro que já se projeta nos estertores do atual Congresso.

O ex-presidente Lula foi um dos primeiros a tocar nessa “ferida”. Ele não esconde a preocupação e diz que a convivência de Dilma com o Congresso será agora “cada vez mais difícil”. Não é por outra razão que a própria presidenta pretende montar um núcleo para construir uma ponte com o Parlamento, conforme circula no mundo político. Faz sentido. Dilma, nas afirmações públicas feitas após a vitória, pontuou seguidamente a palavra “diálogo”.

Mas “diálogo” não parece ser fazer a mágica. Ou seja, superar a agressividade da oposição, capitaneada pelo PSDB.

sábado, 11 de outubro de 2014

Em 2013 um monstro predador emprenhou as urnas de 2014

No: Terra Brasilis – postado originalmente em 10/10/2014

ITAMARATY2

Há algo incongruente, paradoxal e fora do contexto conspurcando os votos destas eleições.

Refiro-me às manifestações de junho de 2013. Começou com o movimento MPL, em Sampa, contra o aumento de 20 centavos na passagem do ônibus. A partir daí se espalhou por todo o Brasil. Surgiram várias novas reivindicações  e as principais, mais saúde e educação, foram atendidas pela presidente Dilma. Mais saúde, com o programa Mais Médicos. Mais educação: a presidenta Dilma Rousseff sancionou sem vetos  a lei que destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde. Além disso, o texto prevê que 50% de todos os recursos do Fundo Social do pré-sal sejam destinados para os dois setores, Saúde e e Educação.  Havia também manifestações contra a corrupção, e hoje são as que mais chamam a atenção.

Em Brasília,  um partidário de Marina Silva chegou a tentar incendiar o Itamaraty. Houve muita violência, depredação do patrimônio público e privado, saques em lojas, feridos e mortes. Faixas e mais faixas contra a corrupção.

Mas o que se viu nas eleições de 2014 foram corruptos e mais corruptos sendo eleitos e  reeleitos. Serra, por exemplo, envolvido com a corrupção do Metrô, com o trensalão, com o desvio de de recursos das privatizações (documentado no livro A Privataria Tucana), com depoimento na PF marcado para 7/10, foi eleito.

Maluf, mesmo cassado porque comprovadamente roubou os cofres públicos de São Paulo, enviando o dinheiro para vários paraísos ficais, foi reeleito mas não pode assumir.

O Arruda, no DF, que  aparece em vídeos recebendo propinas, estava na frente nas pesquisas eleitorais e só não foi eleito porque, sabendo que perderia no STF, renunciou  à candidatura.

Em Rondônia  o candidato  Expedito JR., do PSDB, foi eleito Senador em 2006 mas teve seu mandato cassado três anos depois sob as acusações de compra de votos e abuso de poder econômico. Tentou em 2010 a candidatura para o governo de Rondônia, mas foi impedido pela Lei da Ficha Limpa: agora vai disputar  o 2º turno para governador de Rondônia.

Geraldo Alckmin é um fenômeno à parte. Envolvido com a corrupção da  Alstom, cartel do metrô e da CPTM, com acusação comprovada de recebimento de propinas por secretário de confiança e ao PSDB. Alckmin comprovadamente não investiu para criar reservatórios de água suficientes para abastecer os paulistas e por isso já estamos sem água. Vai ser  o” apagão da  água”. Alckmin também não investiu em segurança e a violência em SP aumenta a cada dia. No entanto, foi reeleito. Alckmin aumentou os pedágios, que já são os mais caros do Brasil, em 6,97%. Por causa do arredondamento de tarifas previsto em contratos, o reajuste deste ano chega, na prática, a até 8,57%, dependendo da praça de pedágio. Ninguém se manifestou, todo mundo paga calado.  E faz manifestação por 20 centavos  nos ônibus?  Então por que fazer manifestações de combate a corrupção, se elegeram e reelegeram os mais corruptos do Brasil?

Jussara  Seixas (coeditora do Terra Brasilis - São Paulo)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

EXCLUSIVO: MENSALÃO PERNAMBUCANO

MENSALÃO PERNAMBUCANO: GRAMPOS DA PF REVELAM ESQUEMA MILIONÁRIO OPERANDO DURANTE ANOS DENTRO DO GOVERNO EDUARDO CAMPOS COMANDADO POR TESOUREIRO DO PSB E TUCANO

No: Terra Brasilis 

EXCLUSIVO



Grampos realizados pela Polícia Federal, com autorização da justiça, dentro das Operações “Farda Nova” e ”Zelador”, iniciadas ainda em 2007, para investigar ações do doleiro Jordão Emerenciano, com o “Jogo do Bicho” (objeto da Operação "Zebra"), acabou por flagrar a intensa atividade de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva, de políticos e empresários, dentro do governo Eduardo Campos e até do que nas conversas se chamou de negócios com “petróleo”. 

Dentre os flagrados pelos grampos da Polícia Federal, destacam-se, pela desenvoltura com que operavam e direcionavam licitações e negócios de empresários em SUAPE, em troca de

comissões que chegavam a 35% do valor contratado pelas mais diversas secretarias e órgãos do Governo do Estado de Pernambuco, o ex-vereador de Jaboatão dos Guararapes, Geraldo Cisneiros, hoje um dos coordenadores da campanha de Aécio Neves, em Pernambuco e extremamente ligado a tucanos da mais alta plumagem, o ex-deputado federal Bruno Rodrigues, hoje

do PSB, mas quando das práticas criminosas filiado ao PSDB e o até hoje presidente da CEASA de Pernambuco, Romero Pontual, do PSB e ex-tesoureiro de campanha do Partido Socialista Brasileiro e do ex-governador Eduardo Campos.

Da “Operação Zelador” surgiu a Operação “Farda Nova”, onde Romero Pontual é apontado pelos agentes federais como integrante de uma “verdadeira quadrilha” destinada a fraudar licitação para compra de fardamentos para alunos da Rede Estadual de Ensino de Pernambuco. Já ali, chama a atenção dos agentes federais, o fato de que Pontual fora “tesoureiro da campanha” do então governador Eduardo Campos:

Nos grampos, é possível acompanhar a desenvoltura com que o ex-tesoureiro de campanha de Eduardo Campos e do PSB, juntamente com o doleiro Jordão Emerenciano, direcionavam as licitações milionárias nos mais diversos órgãos do Estado de Pernambuco, para favorecer as empresas comprometidas com o esquema de corrupção de seu grupo: fardamento, combustível, merenda, medicamentos, empreiteiras, Petrobras, influência política, instalação de empreendimentos em SUAPE, nada ficava fora do esquema do que a própria Polícia Federal chamou de "Organização Criminosa", que usava a própria sede da CEASA para reuniões de "negócios":

Em um dos relatórios a que o Blog teve acesso, fica claro que o doleiro Jordão Emerenciano era uma espécie de Alberto Youseff dos esquemas de corrupção, em Pernambuco, que não poupava nem o FUNDEPE - Fundo de Pensão dos Servidores do Estado de Pernambuco, numa espécie de conluio com o então deputado federal do PSDB, depois filiado ao PSB, Bruno Rodrigues: "aparecem indícios de que o mesmo poderia estar envolvido na prática de crimes de tráfico de influência, corrupção ativa e passiva, possível pagamento de propina a políticos dentre outros crimes contra o Sistema Financeiro, e operações ilegais de câmbio e corretagem, o que, pelo menos em tese, se constatado mediante investigação policial, formaria verdadeira Organização Criminosa":

O relatório da Polícia Federal chega a comparar o esquema montado pelo doleiro Jordão Emerenciano juntamente com o ex-deputado Bruno Rodrigues com aquele arciculado pela Corretora Bônus Banval: "O esquema montado pelo DEPUTADO FEDERAL BRUNO RODRIGUES e por JORDÃO EMERENCIANOse assemelha ao esquema praticado pela BANVAL CORRETORA que se aproveita dos fundos de pensão para fazer operações (…):

A Polícia Federal flagrou, ainda, nos grampos, articulações do então vereador de Jaboatão dos Guararapes, Geraldo Cisneiros e do doleiro Jordão Emerenciano, junto  ao que chamaram de "caciques da política pernambucana ligados ao PSDB" para "aprovarem projetos e instalações de empresas no PORTO DE SUAPE":

Outro fato que chama a atenção nos grampos da “Operação Zalador” é o próprio ex-governador Eduardo Campos ser flagrado cobrando Romero Pontual sobre a licitação da Saúde, apesar de Romero Pontual ser presidente da CEASA, órgão, portanto, totalmente dissociado da área a ele cobrada pelo ex-governador. Em outra conversa interceptada entre Romero Pontual e o ex-governador Eduardo Campos, observa-se que o assunto tratado é a licitação da "Educação". Confiram:

Os grampos ainda apontam para a influência de Romero Pontual, juntamente com Jordão Emerenciano na Casa Militar, além de possível tráfico de influência do ex-deputado Bruno Rodrigues, junto ao governador de São Paulo, também do PSDB, que, na época, era o recém eleito senador José Serra:

Os grampos ainda apontam para vários contatos de Pontual com Antônio Figueira, à época presidente do IMIP, o que leva a crer que o contrato a que se referia o então governador Eduardo Campos, era a terceirização dos Hospitais e UPAS para a entidade presidida por seu futuro secretário de Saúde, que também aparece nos grampos da Operação Assepsia do Ministério Público do Rio Grande do Norte, que resultou na cassação da prefeita de Natal, Micarla, do PV.

O presidente da CEASA de Pernambuco, Romero Pontual, de acordo com as investigações realizadas pela Polícia Federal, nas Operações “Farda Nova” e “Zelador”, mantinha rotina de almoços com o ex-governador Eduardo Campos, ao mesmo tempo em que manipulava os resultados das licitações e negócios nas mais diversas secretarias e órgãos do governo de Pernambuco, o que demonstra o alto grau de confiança e proximidade do Chefe do Executivo pernambucano com seu subordinado, chefe do esquema de achaques ao Erário, flagrado pela Polícia Federal:

O filho de Romero Pontual, conhecido como Romerinho, é dono de várias empresas fornecedoras de merenda escolar, entre elas a "Casa de Farinha", fornecedora, por coincidência, de todas as prefeituras do PSB, inclusive para a Prefeitura do Recife, Ipojuca, São Lourenço da Mata, Paulista, Moreno e para o governo do Estado de Pernambuco.

As empresas de Romero Pontual Filho também já foram alvo de Operações da Polícia Federal. Em um trecho das gravações, os policiais flagram uma conversa entre pai e filho sobre um cheque que haveria para eles na sede da Construtora Moura Dubeux e que foi considerada uma "conversa obscura" pelos agentes federais:

O que causa estranheza é que tendo sido iniciadas em 2007, nenhuma dessas operações, apesar dos flagrantes de crimes gravíssimos, até agora resultaram nem no afastamento do senhor Romero Pontual e nem muito menos em processos ou prisões para os criminosos flagrados, pela própria Polícia Federal, com o conhecimento do Ministério Público Federal, em atos atentatórios contra o Erário.

No Blog da Noélia Brito

“Só o antipetismo não elege Aécio”

O tucano precisará falar ao eleitor mediano, afirma o cientista político Claudio Couto

Por: Rodrigo Martins, no CartaCapital 

aecio_psdb_tucanoVítima de suas próprias contradições, Marina Silva derreteu na reta final da campanha e abriu caminho para a virada de Aécio Neves. Na avaliação do cientista político Claudio Gonçalves Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas, o presidenciável tucano recuperou um eleitorado tradicionalmente do PSDB, que havia migrado temporariamente para uma candidata então aparentemente mais competitiva. O especialista destaca, porém, que Aécio não deveria insistir no discurso antipetista se quiser vencer a eleição. “É preciso ir atrás do voto do eleitor mediano, caminhar para o centro”, explica. “Até porque o eleitor antipetista já é dele, corre para o PSDB por força gravitacional.”

CartaCapital: Como entender o fenômeno Marina Silva?

Claudio Gonçalves Couto: Em toda eleição, a dinâmica dominante é o enfrentamento entre governo e oposição. Há 20 anos, o PT e o PSDB polarizam no plano nacional. A inesperada entrada de Marina na disputa deste ano embaralhou as referências políticas do eleitorado. Ela entrou na campanha após a morte de Eduardo Campos. Uma parcela do eleitorado pode ter se emocionado com a tragédia, mas não acho que a comoção seja o principal fator para explicar sua meteórica ascensão. Na verdade, os eleitores passaram a dar mais atenção ao processo e, naquele momento, ela estava em evidência.

CC: Por que ela despencou tão rapidamente?

CGC: Marina não transmitiu a imagem de possuir convicção clara do que pretendia fazer caso fosse eleita. Recuou no plano de governo em relação à população LGBT. Os economistas ligados à campanha apresentavam um discurso ambivalente. A própria Marina tropeçava nas palavras, uma hora falava em autonomia do Banco Central, na outra em independência. Outro ponto: ela se apresenta como representante de uma nova política. Por que então subiu no palanque de Jorge Bornhausen em Santa Catarina? Poucos nomes são tão associados à velha política como o dele.

CC: E a ascensão de Aécio na reta final?

CGC: Lembra-se das eleições de 2006? Naquela disputa, Geraldo Alckmin teve menos votos no segundo turno do que no primeiro. O que houve? Lula recuperou os votos que já eram dele, momentaneamente deslocados para  Alckmin por conta do caso dos aloprados petistas. O Aécio recuperou um eleitorado tradicionalmente do PSDB, mas que migrou temporariamente para Marina.  Há uma fatia dos eleitores de Eduardo Campos que apostaram em um primeiro momento na Marina e, depois de ver suas fragilidades, optaram por ficar com Dilma mesmo.

CC: Dilma e Aécio disputam qual tipo de eleitor?

CGC: As pesquisas indicam que Dilma sempre teve folgada liderança entre os eleitores mais pobres, com renda de zero a dois salários mínimos. Entre aqueles com renda superior a dez salários mínimos, Aécio sempre manteve a dianteira. O que está em disputa são os votos das classes B e C.

CC: O que muda na estratégia do PT e do PSDB?

CGC: O PT deve manter a estratégia de destacar os avanços sociais, a valorização do salário mínimo, o elevado nível de emprego. Na disputa com Aécio, os petistas deverão explorar as comparações com o governo FHC. No caso do PSDB, o cenário é mais complicado. No segundo turno, o eleitorado costuma se dividir entre direita e esquerda. Para vencer, é preciso ir atrás do voto do eleitor mediano, caminhar para o centro.

CC: Aécio teria mais dificuldade para lidar com isso?

CGC: Desde a eleição de Lula, o PT rumou para o centro. Para governar, precisou moderar o discurso, ceder em muitos pontos para manter a base unida. Nos últimos anos, vários partidos tradicionalmente de direita tornaram-se siglas fisiológicas. O PMDB sempre teve esse perfil, mas o PP de Maluf, não. Maluf sempre foi um representante dileto da direita. Não mais. Em São Paulo, ele abraça tanto o prefeito petista Fernando Haddad quanto o governador tucano Geraldo Alckmin. Com isso, a direita programática ficou órfã de legítimos representantes. Para onde esse eleitorado foi? Para o PSDB. E os tucanos apostaram no endurecimento do discurso de direita para fazer oposição ao PT.

CC: Trata-se de um erro de estratégia?

CGC: Totalmente. O PSDB passou a focar mais no antipetista do que no eleitor mediano. Para vencer, precisa fugir dessa lógica. Até porque o eleitor antipetista já é dele, corre para o PSDB por força gravitacional. Aécio precisa sensibilizar quem não é necessariamente contra o PT. Resta a dúvida se eles vão conseguir abandonar esse discurso. O PSDB incorporou o antipetismo de forma muito clara.

CC: Após essa derrota, qual será o futuro de Marina?

CGC: Marina e seu grupo devem sair do PSB, pois ainda têm a perspectiva de criar a Rede Sustentabilidade. A forma como essa saída se dará depende de como a derrota será digerida. Para quem estava tão à frente nas pesquisas, o resultado é muito frustrante. É como o 7 a 1 da Copa.

CC: E o PSB, como sai da disputa?

CGC: O partido ficará em frangalhos. Marina teve um efeito desorganizador geral na política brasileira. Primeiro, ela embaralhou essa dicotomia entre o PT e o PSDB. E também desorganizou o PSB. Aquelas lideranças que a criticaram em plena campanha demostram um partido bastante fracionado.

CC: Em seu último ato de campanha, Marina caminhou pelo Rio de Janeiro praticamente só, sem nenhuma liderança do PSB.

CGC: Ela sempre encontrou resistências na legenda. Mas o racha não é apenas entre o PSB e o grupo de Marina.  Houve traumas nas relações entre as lideranças do próprio partido. Na verdade, o partido sofreu um baque com a morte de Eduardo Campos. Podia não vencer agora, mas talvez voltasse com mais força em 2018. Agora, com essa derrota, nas circunstâncias como ela ocorreu, o partido fica fragilizado. De certa forma, isso lembra a trajetória do PDT após a morte de Leonel Brizola. O PSB corre sério risco de se tornar ainda mais caudatário do PT do que já foi no passado.

domingo, 5 de outubro de 2014

“A troco de quê alguém vai escolher quem nunca construiu, nunca fez?”, diz Dilma

Ao lado de Pimentel, presidenta fecha campanha na Belo Horizonte natal com afirmação de que não teme segundo turno e indiretas a Aécio Neves: “Não se faz programa social no Brasil por projetos-piloto”

No: Rede Brasil Atual 

dilma

A presidenta Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, abriu o último dia de campanha no primeiro turno com caminhada pelo centro da Belo Horizonte natal ao lado do ex-ministro e candidato petista ao governo de Minas Gerais, Fernando Pimentel, favorito para vencer a disputa. Em breve entrevista coletiva concedida antes do ato, ela procurou novamente polarizar atenções com o postulante do PSDB ao Planalto, o ex-governador Aécio Neves.

“Vários dos candidatos dizem que o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec, o Mais Médicos, vários programas serão continuados. A troco de quê alguém vai escolher quem nunca construiu, nunca fez, e quando teve oportunidade não fez contra quem construiu um programa?”, indagou. Dilma em seguida alfinetou especificamente o tucano, acusado de apresentar entre suas propostas presidenciais programas que foram apenas testados quando governador, sem impacto significativo para a população. “Nenhum deles (dos programas federais) é um projeto-piloto. Não se faz programa social no Brasil por projetos-piloto. O Brasil precisa, pelo tamanho da sua população, de grandes projetos.”

Inicialmente Dilma fecharia a campanha em uma caminhada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do candidato do PT ao governo paulista, Alexandre Padilha. Mas, ontem à noite, decidiu mudar a agenda e viajar a Belo Horizonte antes de seguir a Porto Alegre, onde vota amanhã pela manhã. A agenda reforça a atuação da petista em um estado que pode ser decisivo em um segundo turno contra Aécio. No debate realizado pela Rede Globo, na quinta-feira, ela já havia buscado polarizar a disputa com o tucano, deixando de lado o confronto direto com a candidata do PSB, Marina Silva, até então segunda colocada.

As pesquisas têm mostrado um cenário indefinido. Tanto a eleição pode ser definida amanhã, com reeleição, como o tucano pode ultrapassar Marina na última hora e disputar a segunda rodada com Dilma. No estado, a petista cresceu nas últimas semanas e agora tem diferença superior a dez pontos em relação a Aécio, governador de Minas por dois mandatos e que em 2010 conseguiu eleger como sucessor o também tucano Antonio Anastasia. Desta vez, porém, o candidato do PSDB, Pimenta da Veiga, tem dificuldades frente ao ex-ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel, que caminha para sair vencedor já no primeiro turno. “Não temo o segundo turno. Eleição é para ter todas as possibilidades de participação democrática. Se o eleitor decidir que terá segundo turno terei imensa alegria em participar desse processo”, afirmou a petista.

Ao responder sobre a decisão de fechar a campanha em Belo Horizonte, Dilma valorizou a relação de afeto com a cidade e evitou citações a Aécio. “Vou nos dois estados que são responsáveis pela minha formação, e aos quais eu devo minha formação pessoal e política. Nasci aqui. Vivi antes de ser obrigada a sair do estado, 19 anos. Toda minha formação infantil, de adolescente. E aqui eu entrei na política. Daqui eu tive que sair porque naquela época havia uma grande repressão contra qualquer forma de manifestação.”

sábado, 4 de outubro de 2014

Marina errou no debate da Globo e pode ficar fora do 2º turno

Por: Renato Rovai, no Portal Forum

marina-silvaMarina deveria ter tratado sua questão com Dilma num divã antes de deixá-la se transformar num problema para a sua candidatura. Mais uma vez ela preferiu centrar o debate numa disputa pessoal, do que num enfrentamento político. E perdeu.

Os melhores momentos de Dilma foram quando Marina a desafiou. Marina trucou para cima de Dilma dizendo que ela se elegeu presidenta sem ter sido eleita sequer para vereadora. E recebeu um “seis” de Dilma, que lhe disse estranhar que alguém que defende a Nova Política fizesse este tipo de fala.

Além disso, Marina não falou para o povo. Falou em boa parte do tempo para os sonháticos. E em outra parte para o mercado. Suas falas foram de difícil tradução para o homem comum.

Já Aécio fez o discurso coxinha que se esperava dele. Mostrou-se o mais confiável para o seu público e se porventura Marina tivesse tirado algum voto dele, Aécio o recuperou hoje.

A eleição vai para o segundo turno. Não há hipótese de Dilma acabar com o jogo agora. Até porque Eduardo Jorge e Luciana Genro, com méritos, vão ter mais votos do que se imaginava. É fundamental que ambos superem trastes de direita que fazem discursos homofóbicos e servem de linha auxiliar de candidatos conservadores.

Sim, eu tô falando da dobradinha Aécio e Pastor Everaldo, que foi o destaque do começo da noite. O candidato evangélico nem sabia o que perguntar para o tucano, mas o chamava para o centro do palco.

Dilma vai melhor com Marina no enfrentamento direto do que com Aécio. Mas no percurso do debate de hoje ela foi melhorando na sua performance contra o tucano. E quando chamou Aécio pro pau na questão da privatização, se deu melhor.

Levy Fidelix se mostrou como um cão coagido, mas resistente. Foi o ridículo da noite, mas tentou segurar a onda. Não entregou os pontos. É triste que candidatos como ele continuem tendo espaço para aparecer tanto mesmo sem nunca ter tido votos. É por isso que a reforma política é urgente.

Marina perdeu a oportunidade de ouro para ter certeza de ir para o segundo turno. Agora terá de contar com a sorte e o imponderável. Marina mostrou-se uma política sem o tamanho do desafio que lhe foi colocado. Uma pena. Seria lindo um segundo turno entre ela e Dilma.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Vazamento mal calculado

Divulgação sem provas da delação de ex-diretor da Petrobras tem Dilma como alvo, mas ela ainda não foi atingida, mostram as pesquisas

Por: Mauricio Dias, no CartaCapital

dilma_eleiçoesFoi ação calculada o vazamento de acusações vagas, feitas pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, contra governadores, ministro, empresas e parlamentares da base governista integrantes de um suposto esquema de   corrupção nas entranhas da maior estatal brasileira, a empresa mais importante do País.

O juiz do processo, o rigoroso Sergio Moro, não gostou da publicidade dada a um depoimento, ainda incompleto, sob segredo de Justiça, criptografado e despregado dos fatos capazes de sustentá-lo.

Não há nada ocasional nessa história.A informação vazada e vazia de provas ocorreu em momento calculado, para embaralhar a eleição que parecia arrumada e projetava, como ainda projeta, um confronto de segundo turno entre Dilma Rousseff e Marina Silva.

Marina surpreendeu-se com a inclusão de Eduardo Campos na panela. Aécio ficou mais à vontade para atacar as duas opositoras.

O alvo era a candidatura da presidenta. Com o peso da autoridade e a imagem preservada pela seriedade, ela tem reafirmado constantemente um comprometimento profundo, política e administrativamente, com a Petrobras. Atingida por denúncias ainda em fase de apuração, as acusações provocariam mais danos à imagem da empresa e ricocheteariam na candidatura de Dilma.

Exceto pelo vaivém da Bolsa de Valores, provocado pelos adversários de sempre, os danos não ganharam a proporção desejada. Houve, ao contrário, bônus para os especuladores mais famintos.

No caso da candidata petista, isso se comprova com o resultado de três últimas pesquisas de institutos diferentes, realizadas praticamente no mesmo espaço de tempo. Ou seja, entre os dias 5 e 9 de setembro, logo após, portanto, de as acusações explodirem na mídia conservadora sempre sequiosa por boatos contra o governo e o PT.

Em resumo, Dilma, à frente, sobe. Marina, em segundo lugar, desce, e Aécio empaca em terceiro lugar.
As acusações provocaram, porém, efeito profundo no discurso dos candidatos. Os temas políticos, econômicos, o plano para governar, tudo foi sufocado pelo programa das acusações recíprocas. Nesses casos, quem está no poder, com o telhado de vidro sempre à disposição dos opositores, sai prejudicado.

Acusar é mais fácil do que debater.

Assim fez Aécio. E talvez não tenha tomado o melhor caminho para ele próprio. Atacou Marina, sua adversária imediata. Foi mais duro com Dilma como se tivesse gana de desconstruí-la como candidata.

A acusação tomou o lugar do debate temático, em que a presidenta Dilma, malgrado o seu fraco desempenho na oratória, tem um enorme estoque de realizações e propostas para apresentar ao eleitor.

A inconsistência das acusações, caso não surjam provas reais, fará a campanha voltar ao leito normal. É de se esperar. Os problemas brasileiros  vão muito além da corrupção gerada nos vícios de uma sociedade permissiva.

sábado, 13 de setembro de 2014

O difícil diálogo de Marina Silva com o Estado laico brasileiro

Contrária a avanços em temas relacionados aos direitos humanos, como aborto e agenda LGBT, e vulnerável à influência de pastores neopentecostais, a candidata do PSB preocupa o mundo político

por Eduardo Maretti, no Rede Brasil Atual

marina_religiaoO recuo da candidata do PSB à presidência da República, Marina Silva, na proposta a favor do casamento civil entre homossexuais, após pressão do pastor Silas Malafaia, da igreja Vitória em Cristo, foi recebido com perplexidade por parte da comunidade LGBT e por setores mais progressistas da sociedade brasileira, mas é apenas mais um episódio envolvendo a ex-ministra do Meio Ambiente e a expor contradições entre o programa de governo “em movimento” e o Estado laico preconizado pela Constituição de 1988.

O temor de lideranças brasileiras de perder votos ou apoio da chamada bancada evangélica no Congresso não é exclusividade de Marina. A presidenta Dilma Rousseff (PT) foi criticada durante o mandato por não ter enfrentado os representantes neopentecostais, ou mesmo católicos, quando estão em jogo mudanças legais ou constitucionais que mexam em pontos “intocáveis”, como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e descriminalização da maconha. No início de agosto, em evento de mulheres das Assembleias de Deus, a presidenta citou um salmo de Davi – do Velho Testamento. "Feliz a nação cujo Deus é o Senhor", disse.

No Congresso, o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) tem criticado frequentemente as ações da bancada evangélica e a falta de vontade política do governo e de aliados para fazer andar propostas de avanços.

Contudo, o caso de Marina preocupa os analistas por posições que não se resumem à chamada governabilidade ou a uma relação institucional ou política com lideranças religiosas. “Dilma também é suscetível a pressões, teve que negociar com os religiosos, mas o que chama a atenção no caso de Marina é que a fala dela sobre aborto, por exemplo, é a opinião dela. Algumas vezes Dilma deveria ter enfrentado os religiosos, mas o problema da Marina é que ela acredita nisso”, diz a pesquisadora Maria das Dores Campos Machado, professora do Núcleo de Pesquisas em Religião, Gênero, Ação Social e Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os crucifixos que ornamentam as casas legislativas revelam que ainda há um longo caminho para se avançar em busca do chamado Estado laico. No país, os governos ainda convocam igrejas para implementar políticas públicas, como de combate ao crack, à mortalidade infantil ou para a instalação de comunidades terapêuticas, geridas por grupos religiosos cristãos, tanto evangélicos quanto católicos.

No plano de governo lançado oficialmente dia 29 de agosto em São Paulo, Marina Silva elencava uma série de itens “para assegurar direitos e combater a discriminação”, entre os quais um de clareza exemplar: “apoiar propostas em defesa do casamento civil igualitário” entre homossexuais. Porém, após manifestação hostil e ameaças de Malafaia em uma rede social, o programa mudou. Segundo a candidata, o texto original estava errado por “uma falha processual na editoração".

A nova redação propõe “garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo”, o que não representa nenhuma evolução, já que esse entendimento foi consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julgamento de 2011.

“O que me parece um atraso é que, em pleno século 21, a candidatura da Marina Silva coloque em questão certos direitos civis. Há uma opacidade em relação à figura da Marina Silva e um eventual governo dela. A candidatura Marina se mantém como moderna numa agenda ambiental e numa espécie de idade das trevas na questão de gênero ou na questão do aborto”, diz Francisco Fonseca, professor da Fundação Getúlio Vargas.

Quando ministra do Meio Ambiente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2008, Marina teria usado os serviços do pastor Roberto Firmo Vieira, da Assembleia de Deus, como consultor. Segundo reportagens da época, ele promovia cultos e pregações criacionistas nas dependências do ministério, inclusive com a participação da ex-ministra, ou seja, utilizava um espaço público, do Estado, para a difusão de uma tendência religiosa.

Passados seis anos, em conversa com a RBA, o pastor diz que não é mais da Assembleia de Deus, mas de outra instituição, a Sara Nossa Terra. Ele afirma que não era assessor de Marina, não era contratado nem tinha função no Ministério do Meio Ambiente (MMA). “No ministério, não. Eu organizei a segunda e a terceira Conferência Nacional do Meio Ambiente. Não é verdade que promovia cultos evangélicos. Eu participava de alguns cultos. Eu não organizava nada disso”, afirma. “Eu estava na organização da Conferência Nacional do Meio Ambiente. Era contratado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).”

“Em todos os demais prédios ali da Esplanada há cultos. Tem dias que é dos católicos, existe uma organização, um calendário. No intervalo da hora do almoço, aqueles que querem, quando há disponibilidade do auditório, se reúnem para orar. Quando não tem, as pessoas oram debaixo das árvores.”

Constituição

O Estado laico é garantido no país pelo Artigo 19, Inciso I, da Constituição de 1988: “É vedado à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.

Apesar da “Lei Maior”, consta que a candidata do PSB prefere consultar outro livro. Segundo a escritora Marília de Camargo César, autora da biografia Marina: a vida por uma causa (editora Mundo Cristão, 2010), diante da necessidade de tomar decisões difíceis, a ex-ministra pratica a chamada “roleta bíblica”, hábito de consultar uma passagem da Bíblia, aleatoriamente, para saber o que Deus recomendaria na situação.

A visão de Marina sobre o aborto, por exemplo, é conservadora e não propõe avanços. “Qualquer mudança (da lei) é uma atribuição do Congresso. Eu, particularmente, não sou favorável ao aborto, e o que está no nosso programa é o que já é previsto em lei”, disse a candidata no lançamento do programa de governo.

No Brasil, o aborto é crime, a não ser quando há risco de vida para a mulher, quando a gravidez é resultado de estupro ou em casos de feto anencefálico, como também determinou o STF em julgamento de 2012. “Mas o aperfeiçoamento da democracia implica, sim, em aperfeiçoamento das leis”, argumenta Maria das Dores.

Em que pese o conservadorismo na área econômica, até mesmo a candidatura tucana à presidência, com Aécio Neves, deixaria parte do movimento social menos preocupado quanto a direitos da mulher e dos grupos LGBT. Os Planos Nacionais de Direitos Humanos 1 e 2 foram construídos no governo de Fernando Henrique Cardoso (depois, ainda viria o PNDH 3, no governo Lula).

Ao lançar o programa de governo, Marina afirmou defender a laicidade do Estado e justificou: “O Estado laico é uma contribuição dos cristãos protestantes, que, durante muito tempo, foram perseguidos”. “Nosso compromisso é que os direitos civis das pessoas sejam respeitados e isso está na nossa Constituição. Nós queremos o respeito do Estado laico tanto para os que creem como para os que não creem.”

Os analistas entendem que, quando Marina diz ser a favor do Estado laico, de fato ela é. Porém o que ela entende por Estado laico, se pressionada por um religioso, muda seu programa de governo e, além disso, como ministra, permite pregação e realização de cultos em espaços que pertencem ao poder público?

“Para nós, é direito da Marina Silva ter a declaração de fé, mas, dentro do Estado laico, como define nossa Constituição, os valores pessoais não podem ser os principais legisladores do processo”, diz Morgana Boostel, secretária-executiva da Rede Fale, entidade cristã evangélica que reúne pessoas de igrejas e organizações em luta pelos direitos humanos. “Mas ao mesmo tempo a gente conhece um pouco da trajetória de Marina e sabe que isso não tem sido o cotidiano da trajetória dela. Não diria que ela é a única candidata a ter que fazer algumas concessões”, pondera. Para ela, a candidata ser religiosa não necessariamente a coloca num lugar de “não diálogo”.

Estima-se que 800 mil mulheres por ano recorram ao aborto de modo precário no Brasil. Apesar de não haver números precisos, entre 15 a 20 mil mulheres morrem anualmente em decorrência da prática. “Estamos no século 21 e ainda estamos debatendo direitos civis. Do ponto de vista dos direitos civis, Marina é a figura do atraso, mas ela quer dizer que não é”, avalia Fonseca.

Poder político e econômico

Na campanha de 2010, quando questionada sobre a posição em relação ao aborto e à legalização da maconha, Marina sugeriu que essas questões devem ser definidas em plebiscito, postura interpretada como uma saída política que não irrite nem religiosos, nem movimentos sociais. O discurso não ignora o pragmatismo, já que a saída é claramente conservadora, pois plebiscitos sobre esses temas têm remotas chances de aprovar mudanças.

Se nos últimos anos alguns avanços no campo moral e de costumes, devido à omissão e conservadorismo do Legislativo e acordos políticos do governo, têm sido decorrentes de posicionamentos do STF, como a união civil entre homossexuais, aborto de feto anencefálico e pesquisas com células-tronco, as perspectivas são de que, com as eleições de 2014, a composição do Congresso deverá ficar ainda mais conservadora.

O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) prevê que a chamada bancada evangélica cresça, aproximadamente, 30% com as eleições. Atualmente, são 73 parlamentares: 70 deputados e três senadores. Se a previsão se concretizar, a bancada evangélica contará, a partir de 2015, com 95 parlamentares, num salto de 12% para quase 16% da composição de forças.

O diretor do Diap, Antônio Augusto de Queiroz, atribui o possível crescimento da representação evangélica à percepção de que a política institucional traz resultados concretos aos interesses “religiosos”. “O fato de figuras como Malafaia terem ganhado importância no segundo turno da última eleição revelou para eles o prestígio que as igrejas podem ter. Malafaia, pastor Everaldo, o pessoal da igreja Universal e o Magno Malta tiveram uma visibilidade muito grande em 2010 e viram que dá resultado”, diz Queiroz. “Com a articulação político-partidária, eles conseguem brecar uma série de iniciativas que contrariam os princípios que defendem, o que é um estímulo a que concorram à eleição.”

Para a Rede Fale, a bancada evangélica não é representativa do que eles dizem representar. “Muitas vezes, são personagens políticos já conservadores, independentemente da questão religiosa. A questão religiosa fica um pouco como pano de fundo. É usada como desculpa para uma agenda já conservadora”, afirma Morgana.

Os evangélicos não são uma força política apenas do ponto de vista religioso, mas também econômico. Levantamento da revista norte-americana Forbes, no início de 2013, mostrou que igreja, no Brasil, é um ótimo negócio. Segundo a revista, o bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus, encabeça a lista dos neopentecostais donos das maiores fortunas no país. Ele tinha, na época, US$ 950 milhões. Em seguida, Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, com US$ 220 milhões. Em terceiro, aparece Silas Malafaia, da Vitória em Cristo, com US$ 150 milhões. Em quarto, R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, com US$ 125 milhões. Num país em que vigora o financiamento privado de campanhas, o efeito desse poderio em cifrões é óbvio.

Na visão de Fonseca, da FGV, o Estado laico não está ameaçado porque há instituições e uma Constituição no país “capazes de defendê-lo”. “A não ser que mude a Constituição.” Mas, com um Congresso conservador e uma chefe do Executivo evangélica, propostas progressistas continuarão engavetadas. “O presidente tem grande poder de agenda no Brasil e tem poder de veto”, lembra.

Em 2013, quando o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) foi presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara, a influência não foi suficiente para fazer passar uma agenda retrógrada, como a “cura gay”, mas pautas progressistas eram sistematicamente barradas.

Para o analista, só uma reforma política e a pressão popular podem trazer a luz no fim do túnel. “Tem que se fazer uma reforma política e, paralelamente, contar com uma pressão vigorosa de movimentos sociais.”

“A laicidade em si é, hoje, muito mais um valor a ser buscado do que algo concreto, está para ser construída”, ressalta Maria das Dores, da UFRJ. E, nessa busca, vale lembrar que, legalmente, a separação entre Estado e Igreja vem de longe no Brasil, logo após a proclamação da República, em 1889, o que foi consolidado na Constituição de 1891.