sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Contra Braços Abertos de Haddad, Alckmin oferece a “Lavo Minhas Mãos”

Negativa do governador de São Paulo em prestar informações sobre repressão não é novidade, mas levanta a pergunta: a quem interessa manter a “cracolândia” como “cracolândia”?

Por: João Peres, no Rede Brasil Atual

alckimin_cracolandia_psdb_tucanoSeria espantosa, não fosse repetitiva, a negativa do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), a oferecer explicações sobre a repressão desencadeada pelo Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) na região do centro da capital conhecida como “cracolândia”.

Após manter silêncio no calor do momento, durante toda a tarde e a noite de ontem (23), Alckmin saiu-se com evasivas esta manhã, ao ser questionado sobre a operação promovida pela Polícia Civil justamente no momento em que a administração Fernando Haddad (PT) realiza o programa Braços Abertos, que visa a inserir a questão dos dependentes químicos na lógica do trabalho social, e não da repressão. Ontem, quem telefonava ao Palácio dos Bandeirantes era orientado a procurar a Secretaria de Segurança Pública, que por sua vez repassava a explicação à Polícia Civil, que pedia ao Denarc que se manifestasse.

Alckmin parece disposto a trocar a Braços Abertos pela Lavo Minhas Mãos. Se forem corretas as versões oficiais, os agentes do Denarc foram ao local munidos de cassetete, bombas de efeito moral e ira, muita ira, sem pedir autorização do secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, e do próprio governador. Não importa. Ainda que a Polícia Civil tenha autonomia para agir, cabe ao chefe dela – constitucionalmente, Alckmin – o trabalho de coibir e punir abusos.

Nada na fala do governador, porém, indica vontade de apurar excessos. O tucano não se compromete a apurar coisa alguma e não chama o secretário a prestar explicações. Ao contrário, alinha-se automaticamente à versão de que os policiais foram agredidos, e por isso reagiram de maneira desproporcional – uma versão desmentida até mesmo pelo jornal O Estado de S. Paulo, famoso aliado.

Nenhuma novidade. Alckmin adora o conceito da elite paulista mais atrasada de que pobre bom é aquele a quem se reprime, maltrata e, se preciso for, mata. O tucano sempre gostou de uma atuação “firme”, “enérgica”, capaz de provocar medo e fissuras sociais incuráveis na relação entre polícias e cidadãos. Um racha como aquele a que se assistiu em junho do ano passado, responsável por desencadear uma reação social que tomou o país. Naquela ocasião, foi a Polícia Militar contra manifestantes. Agora, a Polícia Civil contra dependentes químicos. O efeito é o mesmo.

A origem, também. Qualquer governador sabe que suas declarações a respeito de como deve ser a atuação policial refletem diretamente na corporação. Neste sentido, Alckmin tem um invejável currículo de encorajar abusos como os assistidos ontem na “cracolândia” contra uma população em situação de completa exclusão social, a quem se deve estender a mão.

Na fala de Alckmin também não cabem pedidos de desculpa. Nunca couberam: soberba é a marca. Desculpas não apenas ao prefeito Fernando Haddad (PT), nem sequer comunicado sobre a operação policial, mas à população em geral, por colocar em risco um programa que tenta romper o paradigma de que dependente bom é dependente preso, excluído socialmente, de preferência recluso a uma masmorra na qual prevaleça a invisibilidade. E aquele que é tudo isso e ainda dá lucro aos senhores do tráfico, raramente incomodados, é ótimo.

O que está em jogo na “cracolândia” é algo muito maior que os 300 dependentes que desde a semana passada tiveram uma oportunidade – e 292 seguem abraçados a ela – de trabalhar, estudar e ter renda a partir do programa da prefeitura. É a ruptura de um modelo lucrativo para alguns e de imenso custo social. Desde o começo da Braços Abertos, muitos brasileiros têm se dado conta de que o viés da reinserção é o passo certo, e não o da repressão oferecida em 2012 pelo mesmo Alckmin, então em parceria com Gilberto Kassab (PSD), durante a Operação Sufoco, que pretendia limpar a área para permitir a privatização da “Nova Luz”.

Só o fato de a repressão de ontem ter sido desencadeada neste momento deveria ser alvo de investigação por parte do governador. Surge daí uma série de perguntas que o silêncio de Alckmin não ajuda a responder. Pudesse questioná-lo, a RBA o faria de bom grado, mas, infelizmente, a assessoria de comunicação do Palácio dos Bandeirantes só permite que se aproximem do governador os representantes de veículos “parceiros” do governo estadual. Quem sabe algum deles se anima a cobrar do tucano o papel de chefe da Polícia Civil, o que ajudaria a elucidar o caso. Questione-se, por exemplo, se há setores da corporação que não querem que a “cracolândia” deixe de ser a “cracolândia”.

E por que Alckmin, que durante a Sufoco visitou várias vezes a região, desta vez não foi em momento algum ao local? É medo de associar sua imagem a algo que, todos sabemos, pode dar errado, ou é receio de reprovação de eventuais doadores de campanha e eleitores? Se não dá respostas ao público, o governador faz pensar que prefere dar explicações em privado. A quem?