segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mercado financeiro alimenta alarmismo e escolhe seu candidato

Assim como em 2002, preferência ou rejeição em torno de candidaturas alimenta onda especulativa. O país está ruim assim?

Por Vitor Nuzzi, no Rede Brasil Atual 

dilma_eleições_mercadoInício de maio, meio de semana, começa a circular um boato sobre pesquisa do instituto Datafolha que indicaria queda nas intenções de voto da presidenta Dilma Rousseff. A pesquisa nem havia começado – e depois acabaria indicando estabilidade em vez de queda –, mas bastou para o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo acelerar. Assim tem sido nos últimos meses. O mercado financeiro abriu as apostas, marcadamente em nomes identificados com a oposição e em propostas no rumo da flexibilização de regras. A enxurrada de notícias e informações, não raro, atropela análises mais ponderadas. Um momento semelhante ao de 2002, quando o chamado “risco Lula” expunha o então candidato como uma ameaça para o equilíbrio econômico.

Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo,­ a comparação é clara. “Os mercados tendem a exagerar no movimento de preço. Havia um clima de pessimismo, como está sendo colocado agora. O Lula estava sendo ameaçado de ser deposto três meses depois (de eleito). Claramente, o clima era esse”, recorda. A explicação é relativamente simples: “Os mercados são insanos. Não têm fundamentos, são essencialmente especulativos.” Tanto Belluzzo como o professor de Ética e Filosofia Política Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP), referem-se ao termo “antropoformização” para se referir ao mercado, que no noticiário surge como um ser vivo, demonstrando reações emocionais.

“Por um lado, o mercado é apresentado como um grande agente de racionalidade. Mas é curioso que existe esse conjunto de metáforas que apresenta o mercado como nervoso”, diz Janine, para quem as duas leituras possíveis no atual discurso econômico (governista e oposicionista) contêm elementos ideológicos.

Estratégia

Nervoso, mas que sabe o que quer. “O investidor é avesso a mudanças bruscas”, diz o analista Raphael Figueiredo, da Clear­ Corretora. “Há uma tentativa de impor no preço uma expectativa futura. Essa decisão tem de ser rápida, emocional. O impacto vai ganhando cada vez mais peso quando se enxerga naquele candidato, ou grupo de candidatos, um cenário de menor tranquilidade. Ele tenta proteger sua estratégia e coloca no preço essa expectativa”, acrescenta, distinguindo ­visões de curto e longo prazo, resultando em conflito que leva ao movimento especulativo.

Algo que pode partir do nada. Em 13 de maio, lembra Figueiredo, bastou uma declaração do presidente do PT, Rui Falcão, sobre controle de capitais, para “assustar” o mercado. “Um rumor vai sendo criado de forma muito intensa. Em poucos minutos, o mercado tende a embutir no preço.”

Também para o analista, o clima atual lembra 2002, quando se dizia que, vencendo Lula, haveria descontrole de gastos públicos e calote no pagamento de juros da dívida, entre outros perigos. “Existia o risco Lula, o mercado era avesso ao Lula e o mercado cresceu. No histórico recente, é um governo que tem intervindo mais na economia.”

A questão é se a economia, ou o país, vai tão mal assim. Os consensos, diz Belluzzo, trazem avaliações nem sempre corretas. E observadores detectam que o noticiário dá ênfase, principalmente, a temas de interesse do mercado financeiro.

O assunto chamou, inclusive, a atenção de uma jornalista habituada à cobertura econômica, Paula Puliti, que no ano passado publicou um livro a respeito do assunto (O Juro da Notícia – Jornalismo econômico pautado pelo capital financeiro), resultado de uma tese de doutorado orientada, na USP, pelo professor ­Bernardo Kucinski. Segundo ela descreve, nos últimos anos, o noticiário tem sido dominado pelo chamado discurso de pensamento único.

Retórica

dilma“No Brasil, a retórica neoliberal conquistou os jornais em parte por influência da imprensa estrangeira, mas em escala muito maior por conta do discurso estrategicamente preparado e veiculado por banqueiros, executivos de empresas, economistas e acadêmicos alinhados com a forma neoliberal de ver o mundo, que, para eles, é a única capaz de promover crescimento econômico sustentável e distribuição da renda, colocando fim às desigualdades sociais de forma científica e apolítica”, escreve a jornalista. Essa “financeirização” do noticiário também teve como consequência afastar o leitor comum, que não via relação das notícias com seus cotidianos.

Em seu trabalho, a pesquisadora fez, por exemplo, uma análise tendo como amostra um período de 14 anos (1989-2002), mostrando a ênfase na “financeirização” a partir de 1990: notícias sobre reformas, privatizações, impostos, gastos públicos, arrecadação, câmbios, juros estiveram sempre em evidência. Temas sociais – como investimentos em saneamento básico, transportes públicos e habitação – nunca foram destaque. Uma das conclusões: “Ideias e opiniões que não condiziam com o pensamento neoliberal praticamente não apareceram nas notícias econômicas”.

“É um fenômeno internacional”, afirma o professor Antônio Corrêa de Lacerda, do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, um dos entrevistados no livro. “À medida que houve a globalização, há uma tendência de as finanças influenciarem as próprias economias, governos, mídia. No caso brasileiro, tenho a impressão de que isso é mais forte”, diz Lacerda, observando que os bancos, em particular, têm “departamentos bem estruturados que fornecem análises para a mídia, de excelente qualidade e de fácil digestão para o jornalista”.

O resultado é que se vê uma visão “meio consensual”, que às vezes exclui o contraponto, representado pelo setor produtivo e pelos trabalhadores. “O mercado financeiro é, por natureza, especulativo. Num ano eleitoral, isso se torna mais forte. A melhor maneira seria ter fontes qualificadas de outros segmentos da sociedade. Você teria um debate mais qualificado.”

Lacerda diz sempre recomendar a entidades empresariais que seus departamentos econômicos tenham atuação mais incisiva na mídia. Isso também vale para as entidades de trabalhadores. Ele observa que, da forma como é apresentado, o noticiário pode transmitir a impressão de que a economia se mostra pior do que realmente está. “Na verdade, não há um balanceamento entre os vários aspectos que deveriam ser levados em conta, como desemprego baixo, aumento da renda, o fato de ser um país dos que mais recebem investimentos estrangeiros no setor produtivo. Você vê muito uso do off (declarações sem identificação da fonte) como instrumento. Alguém disse que o mercado pensa assim e aquilo vira uma verdade.”

‘Ronronando’

dilma_eleiçõesProfessor da PUC e da Universidade Metodista de São Paulo, José Salvador Faro identifica uma “tendência ideológica” dos noticiários, mas ressalva que sua observação, como leitor, não é linear. “Percebo que há cadernos de economia com boas matérias de política econômica, como no Estado de S. Paulo, que transcende um pouco a posição ideológica do Estadão. O Valor traz excelentes matérias de análise”, comenta. Mas o ponto de vista de que o mercado deve ser o regulador da economia não causa dúvida de que aparenta um discurso único. “A orientação editorial é pró-mercado, e há um discurso econômico muito hermético, um noticiário para iniciados.”

A questão se estende ao próprio ensino, acredita Faro. “As escolas de jornalismo não ensinam. Grande parte do leitorado fica fora da compreensão dessas questões.” O problema se estenderia à formação de economistas, acrescenta o professor. Ele cita artigo publicado no Valor Econômico que chamava a atenção justamente para o fato de as faculdades, em determinado momento, terem abandonado o estudo de algumas linhas de pensamento, menos monetaristas. “Se todo mundo fala a mesma coisa, os jornais acabam sendo homogêneos”, constata.

Porta-voz do pensamento liberal, a revista britânica The Economist, que algumas vezes tentou “derrubar” o ministro da Fazenda, Guido Mantega, publicou recentemente um texto elogioso aos principais pré-candidatos de oposição, Aécio Neves e Eduardo Campos. “Empresários e banqueiros saem ronronando ao encontro com os dois homens”, diz a publicação, que não deixa de citar resultados importantes do governo Dilma Rousseff, como as baixas taxas de desemprego e o crescimento da renda.

O também britânico Financial Times reforçou o coro das reformas, ao sustentar que as preocupações generalizadas no país estão começando a empurrar o debate “para uma direção amigável ao mercado”, o que, para o jornalão, só pode ser “uma coisa boa”. Por sua vez, analistas brasileiros já vêm batendo insistentemente na tecla dos “ajustes” e das “medidas impopulares” – identificadas com Aécio, o que provocou abalos na aparente união entre as candidaturas antigoverno. Tanto Campos como a vice Marina já procuraram demarcar territórios em relação aos tucanos.

Com essa ênfase na cobertura financeira e a proximidade das eleições, terá o chamado mercado escolhido seus candidatos? A lógica indica que sim. “O mercado não dá preferência a partidos, mas a um ambiente de mais estabilidade. Corre para o lado político que transmita esse ambiente. Não vai vestir uma bandeira”, diz o analista Raphael Figueiredo. “O modelo de negócio do investidor embute entre suas variáveis o fator risco. E tem o fator risco político, que não é mensurável.”

Renato Janine vê o debate eleitoral em aberto, à medida que ninguém ainda definiu as “mudanças”, demanda que aparece nas pesquisas. “Ao menos a discussão moralista não está surgindo. Prefiro uma discussão sobre economia a uma discussão sobre aborto.” Mas ainda há problemas no debate político, avalia. “Eles ficam brigando pelo terço que já está convencido. Parece que as pessoas esqueceram que quem decide a eleição são os indecisos.”

Para o professor Lacerda, está se formando certo consenso pró-oposição. “Mas uma coisa é o que o mercado pensa e outra o que a sociedade pensa.”

Belluzzo não vê “importância” nos candidatos do ponto de vista do mercado. “Eles já foram capturados”, afirma. Com isso, ele diz que o debate vai sendo dominado por uma visão restrita, considerando apenas fatores como inflação, superávit fiscal, câmbio. Dentro disso, análises que defendem que mesmo uma alta da taxa de desemprego podem valer a pena. “Criam um clima de catástrofe. O debate econômico hoje está muito centrado nessa tentativa de apresentar as coisas piores do que estão. Isso já faz parte da luta eleitoral mesmo. Eles (mercado) exigem uma fidelidade canina.” E vão sempre lembrar de quem aparentemente se opõe. “Eles nunca aprendem nada, mas também não esquecem de nada.”

sábado, 28 de junho de 2014

A presidenta traída

As razões de Cabral e Pezão não são as de Brutus e Cássio, nem por isso deixaram de apunhalar Dilma pelas costas

Por: Mauricio Dias, no CartaCapital

dilma_traição_cabralTraição anunciada, traição consumada. O ex-governador Sérgio Cabral e o ex-vice dele Luiz Fernando Pezão, este em busca de um mandato completo de quatro anos, tornaram difícil, talvez impossível, as viagens de Dilma Rousseff ao Rio de Janeiro, para fazer campanha eleitoral em palanque armado pelo PMDB, partido com o qual o PT tem instável aliança nacional.

Nos últimos dias, Cabral e Pezão selaram desconcertantes acordos políticos com o PSDB, o PPS e o DEM no plano estadual. Esse grupo inspira o uso daquele velho jogo de palavras. É um trio partidário capaz... de tudo. Têm, agora, a missão de carrear votos para Pezão e também para o presidenciável tucano Aécio Neves. Um reforço inesperado para a oposição no terceiro maior colégio eleitoral do País com um contingente de 12 milhões de eleitores.

Para o PMDB, o racha resulta da rebelião local do PT. Após sete anos e três meses a serviço dos peemedebistas, por imposição da direção nacional, os petistas fluminenses decidiram lançar candidato próprio ao governo estadual. Lindbergh Farias, um ex-cara-pintada que emergiu da eleição de 2010 com histórica votação para o Senado. Foram 4,2 milhões de votos. Mais de um terço do total do estado.

Com a força dessa votação e apoio do ex-presidente Lula, lançou-se como pré-candidato ao governo do estado. Dilma e o PT estão diante de um caso clássico de traição. Há rompimentos em outros estados. No Rio, entretanto, há rastro de traição. Tem um gosto mais amargo. Além de substancial ajuda material do governo federal, a relação política era alimentada por juras públicas de amor sincero e lealdade política.  Sérgio Cabral não digeriu o sapo. Tentou bloquear a candidatura de Lindbergh. Fracassou quando foi chorar no ombro da presidenta. Ele mesmo divulgou a resposta dela: “Isso é coisa do Lula”.

Lula, de fato, tem um projeto de dominar politicamente o Sudeste, onde está quase 50% do total de eleitores brasileiros. Isso faz parte de uma virada no discurso dele. Ficou visível na recente convenção do PT, onde ele apareceu com uma camisa branca com a sigla “PT” sob o blazer preto desabotoado. Franca exibição. Desta vez, o ex-presidente temperou a necessidade de alcançar o objetivo nacional, a reeleição de Dilma, com ênfase na eleição de governadores, senadores e deputados petistas.  Sérgio Cabral pagou com a mesma moeda a resposta que ouviu de Dilma. Mas a moeda dele tinha cara e coroa. Refundida virou um punhal.

A arma branca estava preparada desde que emergiu um movimento chamado “Aezão” (Aécio mais Pezão), aparentemente comandado por Jorge Picciani, milionário político interiorano, presidente do PMDB fluminense e extremamente ligado a Cabral.  Diante dos afagos de Cabral e Pezão, a reação, naquele momento, parecia uma ovelha desgarrada do rebanho.

Logo após o momento em que as pesquisas começaram a indicar uma possibilidade de Dilma não ganhar no primeiro turno, armou-se a cena final de violação do acordo. Ou seja, a traição. Cabral e Pezão não são movidos pelas razões que levaram Brutus e Cássio a apunhalar César. Cabe, porém, lembrar Marco Antônio: segundo Shakespeare, diante do corpo sangrado  do cônsul abatido  aos pés da estátua de Pompeu, diz: “A ambição torna as pessoas duras e sem compaixão”.

terça-feira, 24 de junho de 2014

O ressentimento de Faustão com a Copa no Brasil

A culpa não é dele nem de sua equipe: é do domingo, que vai pouco a pouco se libertando do cativeiro da tevê aberta e ganha mais opções. Por Nirlando Beirão

Por: Nirlando Beirão, no CartaCapital

faustão_copadomundoFausto Silva anda muito nervoso ultimamente. Perdeu muito do humor que o consagrou e de sua verve inteligente e debochada. Aderiu aos rabugentos do #nãovaiterCopa e, já que tem Copa, sim, tenta manter a bandeira do encrenqueiro, distribuindo, sem nenhum fair play, insultos ao evento esportivo. A delicada defesa de Honduras deve estar morrendo de inveja do novo estilo Faustão.

O que estará acontecendo com ele? Não confere a suspeita de que pesa no ex-gordo o ressentimento com os quilinhos a mais que ele, de uns tempos para cá, recuperou.

Não consta, tampouco, que Faustão esteja em momento de renovação de contrato, o que explicaria o seu alinhamento precavido com a agenda político-eleitoral do patrão bilionário. Na verdade, o cidadão Fausto Silva já declarou o voto na oposição. Faz sentido. A turma que faz plantão na sua lendária pizza semanal é a mesma do camarote vip que vaia e ofende.

Se o ex-cronista de campo perdeu de vez a esportiva é porque a vida profissional não lhe faculta mais goleadas no ibope. Fausto Silva devia é, apesar das pressões, relaxar.

A culpa não é dele nem de sua equipe. O culpado é o domingo, cada vez menosDomingão do Faustão. O domingo brasileiro vai pouco a pouco se libertando do cativeiro da tevê aberta. Há mais opções na própria tevê. Aquele exército de popozudas que vem esfregar o traseiro no rosto do espectador entorpecido tem seus dias contados.

Tem razão o Faustão em se irritar com a dobradinha Lula-Dilma. Os pobres ficaram economicamente menos pobres – e culturalmente menos indigentes. Azar de quem, como os autocratas dos auditórios, apostou no contrário.

*Publicado originalmente na edição impressa de CartaCapital com o título "Perdeu a esportiva"

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Forças Armadas não reconhecem tortura em suas instalações

No: Agência Brasil

Tortura-Choque-EletricoAs Forças Armadas encerraram sindicância solicitada pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) concluindo que não houve desvio de finalidade do uso de suas instalações, durante a ditadura militar. “Os dados disponíveis não permitem corroborar a tese apresentada por aquela comissão, de que tenha ocorrido desvio formal de finalidade do fim público estabelecido para as instalações objeto da investigação”, afirma, em documento, o Exército Brasileiro, que terminou a investigação sem reconhecer que os destacamentos de operações de informações foram usados para tortura.

A comissão tornou público hoje (18) os expedientes recebidos dos comandos da Marinha, do Exército e da Força Aérea. Eles apresentam relatórios das sindicâncias instauradas pelas Forças Armadas com o objetivo de responder aos questionamentos da CNV sobre desvios de finalidade das instalações, alocação de pessoal para o desenvolvimento de atividades nesses locais, procedimento utilizado para o emprego de recursos financeiros públicos, com o propósito de custeio e manutenção deles, e de que forma houve a prestação de contas relativamente a esses recursos, dentre outras questões.

Em vários trechos do documento, o Exército, que registra a instauração de dez sindicâncias voltadas às investigações, afirma que não foram encontradas informações ou documentos nos arquivos de comandos militares e de outras instâncias sobre os questionamentos levantados pela comissão. “Por sua vez, ressalta-se que os documentos sigilosos que tratavam sobre segurança interna à época e que poderiam supostamente subsidiar essa pesquisa foram regularmente destruídos, de acordo com a legislação vigente à época”, diz o texto.

O pedido foi feito com base em relatório preliminar da CNV, o qual aponta que o Destacamento de Operações de Informações do 1º Exército (DOI/1º Ex), a Base Naval da Ilha das Flores, a Base Aérea do Galeão e a Companhia da Polícia do Exército da Vila Militar, no Rio de Janeiro; o Destacamento de Operações de Informações do 2º Exército (DOI/2º Ex), em São Paulo; o Destacamento de Operações de Informações do 4º Exército (DOI/4º Ex), no Recife; e o quartel do 12° Regimento de Infantaria do Exército, em Belo Horizonte; foram utilizados como centros de tortura.

A Força Aérea justifica a falta de documentos que poderiam abordar situações como as descritas no relatório da CNV do mesmo modo: “A documentação relativa ao período de 1964 ao ano de 1990, notadamente a produzida pela área de Inteligência, foi em grande parte consumida em sinistro ocorrido no prédio do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e que no acervo remanescente, quase todo de cunho administrativo ou operacional, observou-se a não existência de documentos capazes de atribuir à referida organização militar qualquer utilização diversa da destinação motivadora de sua criação”.

O Exército destaca que buscou informações em bibliotecas e outros centros de acervos documentais, bem como em obras como Brasil: Nunca Mais e A Ditadura Escancarada, as quais registram a existência dos DOI. No entanto, não foram encontradas provas de irregularidades. “No acervo do Exército Brasileiro não foram encontrados documentos que pudessem corroborar as citações contidas nessas obras literárias; entretanto, observa-se que é de conhecimento público a existência da Diretriz Presidencial de Segurança Interna, documento que estabeleceu o marco legal para a criação dos DOI”.

O Exército reconhece a existência dos locais, previstos em lei, mas não o desvirtuamento de usos. “Uma vez que esses destacamentos eram órgãos oficialmente instituídos, foram formalmente instalados nos imóveis destinados ao seu funcionamento, não havendo qualquer registro de utilização para fins diferentes do que lhes tenha sido atribuído; portanto, não se verificando desvio de finalidade na utilização dos mencionados imóveis”, conclui.

A Marinha chega a conclusão semelhante, ao fim de extenso relatório, dividido em três volumes, que traz toda a história da Base Naval da Ilha das Flores. Fotos, recortes de jornais e outros documentos integram o texto, que aponta: "Assim, à luz da ordem jurídica vigente à época, não se pode falar em desvirtuamento do fim público estabelecido para a instalação prisional da Ilha das Flores, justamente por ter sido criada com fim específico, qual seja, de se constituir em local de acautelamento de presos. Portanto, a criação da unidade, a lotação de pessoal, bem como a sua destinação estão em perfeita conformidade com a legislação vigente à época".

Além disso, Exército, Marinha e Força Aérea afirmam que tanto a alocação de pessoal quanto o emprego de recursos orçamentários e a prestação de contas foram feitos conforme as normas vigentes à época. A falta de alguns elementos da prestação de contas da Marinha, por exemplo, é justificada pela forma de documentação no período.

O resultado das sindicâncias das Forças Armadas foi enviado ontem (17) para a comissão. Hoje, o jornal O Globo divulgou matéria com algumas das conclusões, o que levou à disponibilização dos arquivos pela comissão. A Agência Brasil procurou o coordenador da CNV, Pedro Dallari, mas foi informada de que ele volta amanhã (19) de viagem ao exterior. A assessoria da CNV pretende divulgar posicionamento da comissão sobre os relatórios na sexta-feira (20).

Os trabalhos da CNV devem ser finalizados em meados do ano que vem. Até lá, novos questionamentos, inclusive para as Forças Armadas, poderão ser feitos.

Ps do O Carcará. Seria hilário caso não fosse trágico!

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Quem são os bandidos?

Seria o trabalhador que luta por melhores condições e salários ou um governo com integrantes acusados de receber propina?

Por: Vladimir Safatle, no CartaCapital 

greve_metroviarios_tucanoA história tem lá sua ironia. Pense em um governo acusado de, durante décadas, alimentar um dos piores casos de corrupção do Brasil por meio do desvio de dinheiro de obras do Metrô de sua capital caótica. Como ele controla a Assembleia Legislativa e tem influência sobre certos integrantes do Poder Judiciário, o caso parece nunca andar até que tribunais internacionais começam a julgar as multinacionais envolvidas em esquemas milionários de propina.

Então, aos poucos, cada um dos integrantes da alta cúpula do dito governo começa a aparecer nas páginas policiais. Mesmo assim, nenhuma CPI, nenhuma sanha investigativa a alimentar o ímpeto denunciador de amplos setores da mídia. Ao contrário, tudo indica que o referido governo ganhará mais uma eleição em uma terra na qual ele governa há praticamente 30 anos. Ou seja, estamos aí diante do crime perfeito praticado por profissionais.

Imbuído da fé em sua resiliência, o governo resolve enfrentar uma greve, veja só, exatamente no Metrô, a empresa, tudo indica, saqueada por propinas, com uma gestão tão eficiente que construções desabam e matam periodicamente operários. Do outro lado, estão metroviários em luta por algo inaceitável, absurdo, impensável, a saber, melhores salários.  Como assim, funcionários em greve por melhores salários e condições de trabalho? Por meio da força de pressão para poder negociar uma qualidade de vida melhor?

Impossível. Na verdade, eles estão, como se diz, a tornar a “população” refém de seus “interesses políticos”, a querer desestabilizar o governo ordeiro em ano eleitoral. Não, uma greve não pode atrapalhar a população trabalhadora, da mesma forma como, em 2013, uma manifestação não podia impedir a “população” de praticar seu legítimo direito de ir e vir.

Claro que há direito de greve, mas greve legal e somente aquela que ninguém sente e que, por isso, pode ficar durante meses sem conseguir algo. Greve boa é greve morta.

Os metroviários não entenderam assim, por isso o governo precisou agir com firmeza. Funcionários presos, demitidos e ameaçados de demissão. Qual o crime? Ter feito greve. Ou, se quiser, se comportado como “bandidos” por pararem a circulação da cidade a fim de mostrar ao povo suas condições precárias de trabalho e salário.

Então, nessas ironias da história, um governo prenhe de integrantes a serem acusados de bandidos por práticas reiteradas de corrupção no Metrô mostra sua mão dura contra funcionários, desse mesmo Metrô, tratados como bandidos por fazerem uma greve por melhores salários e condições de trabalho. Difícil não se imaginar em uma peça de Alfred Jarry. O título da peça poderia ser, inclusive: “Quem São os Bandidos?”

Para terminar a descrição da peça, haveria ainda o coro. Ele seria composto de cidadãos chorando por não terem conseguido trabalhar, empregados ordeiros revoltados por não poderem realizar suas obrigações laborais de forma civilizada. Gente que, repetidamente, diz não aguentar mais a instabilidade provocada por esses grevistas que confrontam a polícia e que parecem ter alguma forma de prazer perverso em inalar gás lacrimogêneo. Algum dia você ainda verá artigos a provar que esquerdistas gostam de inalar gás lacrimogêneo, porque ele provoca alucinações.

Esse é um capítulo da estranha vida em São Paulo. Muitas vezes, ela parece ser a descrição de um mundo invertido onde o pior pecado é ser pobre, não aguentar ser espoliado em seu emprego, mas ser sindicalizado. Ainda mais se for funcionário do Metrô.

Pois como o Metrô conseguirá pagar melhores salários se ele precisa ainda, ao que indicam os processos abertos nas justiças suíça e francesa, financiar campanhas eleitorais para o grupo que tem o direito de governar São Paulo como uma capitania hereditária?

Isso é não entender nada de choque de gestão e responsabilidade orçamentária. Isso é ser completamente irresponsável com o dinheiro público. Tenha certeza disso, nossos governantes nunca aceitarão tamanha chantagem.

sábado, 14 de junho de 2014

Apesar da torcida contra, abertura da Copa foi vitória do Brasil

No primeiro jogo da Copa do Mundo no Brasil teve um pouco de tudo, mas a organização necessária para proporcionar o que o espetáculo se propunha, o futebol, alcançou pleno sucesso

Por: Helena Sthephanowitz, no Rede Brasil Atual 

image_previewGol contra, erros da Fifa ao dar pouco destaque no primeiro pontapé inicial com auxílio de um exoesqueleto controlado pelo cérebro, vaias políticas, manifestações pequenas mas acima do tom fora dos estádios, com repressão também acima do tom. No primeiro jogo da Copa do Mundo no Brasil teve um pouco de tudo, mas prevaleceu a organização para proporcionar – ao torcedor de todo o mundo – um grande espetáculo de futebol, que afinal de contas, é disso que trata uma Copa.

Na estreia da seleção, apesar de um jogo tenso, não faltou futebol e emoção, que é o essencial. Um gol contra do Brasil abrindo o placar de forma contrária às previsões, deu mais dramaticidade à partida. Um pênalti duvidoso para a seleção garantiu a polêmica que faz parte da mítica do futebol.

Dentro do estádio, o maior vexame foi de uma parte da torcida, que puxou vaias e xingamentos à presidenta da República. O episódio teve início em um setor VIP, com ingressos mais caros e repleto de celebridades televisivas, diga-se, globais.

Quanto a Dilma, a baixaria só mostrou o quanto há no Brasil um segmento da elite econômica intolerante e mal educada que não aceita uma democracia popular com um governo que priorize políticas públicas para os mais pobres. O vexame foi para quem xingou.

Já hoje (13), no dia seguinte à abertura da Copa, Dilma deu as devidas dimensões das vaias e xingamentos que recebeu: “O povo brasileiro não age assim e não pensa assim. Sobretudo, o povo não sente da forma como esses xingamentos expressam”.

A festa de abertura, também sob encomenda e controle da Fifa, foi criticada por muita gente, classificada de “mixuruca” se comparada às superproduções feitas nas Olimpíadas. Mas foi assim em todas as outras Copas do Mundo. Talvez porque, ao contrário das Olimpíadas, a grande superprodução são os jogos de futebol propriamente ditos, com os melhores craques do mundo. A partida inaugural e seus 90 minutos regulamentares de duração dispensa uma longa abertura superproduzida, diferentemente das Olimpíadas.

Mas nada justifica a Fifa ter “perdido o bonde da história”, ao dar quase nenhum destaque ao primeiro pontapé inicial simbólico dado por um paraplégico usando um exoesqueleto controlado por seu cérebro. Seria o grande momento da abertura do evento, capaz de encantar o mundo. Mas a produção da Fifa, que controla a festa, acabou dedicando apenas sete segundos ao fato, que passaram quase despercebidos.

Fora dos estádios, houve manifestações localizadas, pequenas mas barulhentas, de grupos hostis à realização da Copa no Brasil. Em algumas cidades se limitaram a manifestações pacíficas, e nem todas necessariamente contra a Copa, mas em defesa de causas mais concretas, como é o caso da presença de trabalhadores em greve ou em reivindicações entre os manifestantes.

Mas em São Paulo, Rio e Belo Horizonte houve confronto com a polícia e depredações, porém em pequena escala. Salvo casos isolados não chegaram a prejudicar quem queria torcer nas ruas. Em alguns casos, como em São Paulo, a ação policial pecou pelo uso de força muito acima da necessária, acirrando os ânimos.

Se é verdade que a ação provocativa de Black Blocs não ajuda a manter manifestações pacíficas, caberia à polícia, por representar o Estado, evitar ao máximo aceitar provocações e outras táticas para contê-los. Nem sempre é isso o que vemos, e parece ser opção e determinação do governadores a repressão com força bruta.

A Copa passou por sua primeira prova de fogo, a da abertura, aquela que provocava mais expectativas. E no conjunto da obra o Brasil fez bonito e passou com louvor. Ao contrário do que a turma do contra pregava, a “Copa das Copas”, como gosta de chamar a presidenta Dilma, se consolida com o padrão Brasil: uma nação capaz de superar grandes desafios, com uma democracia popular ainda nova, mas vibrante e com oligarquias arcaicas, formada por pessoas que ainda se sentem os reis dos camarotes.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Governo tucano de SP é denunciado por Metroviários por repressão policial e coação

Tropa de Choque invadiu a estação Ana Rosa e usou balas de borracha, bombas, gás lacrimogêneo e cassetetes. Um metroviário acabou detido pelos policiais

No: Rede Brasil Atual 

repressão_tucanoOs metroviários de São Paulo afirmam que, no início da manhã de hoje (6), às 5h, a direção da Companhia do Metropolitano (Metrô) acionou a Polícia Militar para reprimir os mais de 100 trabalhadores que organizavam piquete no pátio da estação Ana Rosa, região da Vila Mariana, zona sul da cidade, que é central para o funcionamento das linhas 1-Azul e 2-Verde. Às 5h30, a Tropa de Choque chegou ao local e, às 6h30, ocupou o mezanino, reprimindo os grevistas. Segundo os trabalhadores, a PM também foi enviada à estação Bresser-Mooca, na Linha 3-Vermelha, zona leste.

A Tropa de Choque invadiu a estação Ana Rosa e usou bombas, gás lacrimogêneo e cassetetes. Três policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE) prenderam um metroviário na rua Joaquim Távora, nas proximidades da estação. Um vídeo da equipe do Mídia Ninja registra o momento em que a Tropa de Choque avança contra grevistas, que faziam piquete na estação:

O Sindicato dos Metroviários também denuncia o governo de Geraldo Alckmin e a direção do Metrô de São Paulo por coação aos supervisores que operam o sistema durante a greve. "São funcionários de escritórios, sem treinamento para operar o Metrô, pessoas que o governo do estado coloca para furar a greve. Eles estão sendo coagidos a entrar nas estações. Alguns deles estão visivelmente abalados, sem qualquer condição de operar um trem", dizem representantes da categoria.

“É uma irresponsabilidade do governo, que coloca a vida da população em risco, forçar esses supervisores a trabalhar. O governo diz que é voluntário, mas eles estão visivelmente coagidos”, comentou um dos grevistas.

A greve continua nesta sexta. Os metroviários reivindicam aumento salarial de 16,5%. Ontem (5) em nova tentativa de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), eles rejeitaram oferta de 8,7%. A direção da empresa não apresentou propostas novas para negociar.

Ainda ontem, em assembleia, a categoria – que chegou a propor ao governo o dia de hoje com catracas livres nas estações – decidiu pela continuidade da paralisação e dos piquetes.

Funcionamento

Apenas uma das cinco linhas do Metrô funcionava normalmente no começo do dia: a via Amarela, operada pelo setor privado, na ligação entre a estação da Luz e a zona sul. Por volta das 5h30, começaram a circular os trens da Linha 5-Lilás, entre o Capão Redondo e o Largo Treze, na zona sul.

Só duas horas mais tarde é que os usuários puderam acessar, parcialmente, as demais linhas: a 1-Azul, entre as estações Paraíso e Luz; a Linha 2-Verde, entre as estações Paraíso e Clínicas, e a Linha 3-Vermelha, entre as estações Bresser e Santa Cecília.

Mais uma vez a prefeitura decidiu suspender o rodízio de veículos. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) havia, às 8h, 133 quilômetros de vias congestionadas.

Em algumas regiões, a alternativa foi recorrer aos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que opera com intervalo reduzido. Há, porém, um bloqueio na estação Corinthians-Itaquera, Linha 11-Coral, onde os acessos são compartilhados com o Metrô da Linha 3-Vermelha. Segundo a CPTM, na integração com a Linha 4-Amarela, nas estações Pinheiros e Luz, foi adotado controle do fluxo de pessoas nos pontos mais movimentados.

A empresa informou, ainda, que solicitou a mudança de itinerário dos ônibus com destino à Corinthians-Itaquera, para redistribuir os coletivos nas demais estações e evitar aglomerações.

A São Paulo Transporte (SPTrans) informou que, a exemplo de ontem, foi reforçada a frota de ônibus do Plano de Atendimento entre Empresas de Transporte em Situação de Emergência (Paese).

Com informações da Agência Brasil