terça-feira, 22 de setembro de 2015

O PMDB e as 30 moedas de Judas

No comando do Congresso, o PMDB sempre teve uma força maior que Dilma e o PT e sempre cobrou, cada vez mais caro, por sua cooperação com o governo

Por: Jean Wyllys, no CartaCapital 

pmdb_golpe_cunhaEntre uma crise política grave, que reflete diretamente no desempenho econômico do País e na confiança de seu povo, e uma crise internacional das commodities puxada pela desaceleração brusca da economia chinesa, que derrubou o valor de mercado dos bens brutos - agropecuários ou minerais - nos últimos anos a uma pequena fração do que já valeram, a situação da presidenta Dilma é extremamente delicada.

O isolamento político do que ainda resta da base governista, as propostas para uma saída da crise que, na prática, implicam a penalização daqueles que mais pagam impostos - ou seja, os mais pobres, que pagam imposto sobre a totalidade da sua renda e que, por conta das altas taxas de impostos embutidos neste consumo, têm seu poder de compra severamente afetado -, dos funcionários públicos e das políticas de assistência social, acabam servindo como um prato cheio para a oposição de direita, hoje capitaneada pelo PMDB, que deseja que, sangrando, o PT saia do governo e lhes dê, automaticamente, o cargo de chefia do Executivo.

Dilma e sua equipe, mais uma vez - que não é a primeira, e provavelmente não será a última - recorrem à benevolência de quem, hoje, lhes apunhala, e pedem a Cunha que participe da reforma ministerial que servirá para reduzir gastos com a máquina pública em tempos de aperto. Cunha, como não poderia ser diferente, recusou. A ele cabe o papel de algoz, autoproclamado. Quanto pior, melhor para ele e para seu partido: hoje o PMDB ocupa a vice-presidência, a presidência da Câmara e a presidência do Senado. Comandando o Congresso, sempre teve uma força muito maior que a de Dilma ou do Partido dos Trabalhadores, e sempre cobraram o aluguel de sua cooperação com o governo. Quando queriam mais, impunham ao Executivo sucessivas derrotas.

Plutocratas, sabiam impor seu poder econômico, evidenciado no tamanho de sua bancada. Sim, no Brasil o poder econômico influi diretamente no resultado das eleições: Cunha, por exemplo, teve tantos investidores em sua campanha que cada voto recebido teve um custo equivalente a 30 reais - apenas com as doações oficiais!

Cleptocratas de carteirinha, há trinta anos no poder, direta - com Sarney na presidência do país - ou indiretamente, são estes políticos com extensa ficha corrida de envolvimento em escândalos de corrupção que agora se impõem como peças chave do movimento pelo impeachment da presidenta, e é a eles a quem Dilma ainda recorre em busca de salvação.

Contra Cunha pesam acusações de crimes contra a administração pública, enquanto foi presidente da  Companhia de Habitação do Estado do Rio de Janeiro na década de 90, sonegação de impostos, a falsificação de documentos públicos, improbidade administrativa, compra de votos, abuso do poder econômico durante as eleições e, agora, é investigado por envolvimento nos episódios de corrupção na Petrobrás. Renan Calheiros, que não fica para trás, deu nome a um escândalo - o Renangate - que envolvia empresas, lobistas e sua atuação como presidente do Senado, ao qual renunciou à época, mantendo, porém, seu cargo graças ao corporativismo e ao voto secreto que ainda imperava.

São estes mesmos que pautam parte da imprensa e a opinião pública, que hoje atribuem ao PT a culpa de tudo, inclusive daquilo que não passa diretamente pelo controle do governo federal, mas que, claro, poderiam não ser vulnerabilidades tão grandes caso as gestões petistas tivessem tido, quando havia um bom cenário, a coragem de promover reformas e reajustes de rota. Isso afeta injustamente a credibilidade de toda a esquerda, porque embora as políticas desse governo não sejam de esquerda, são identificadas dessa forma pela simbologia do partido governista.

Nada foi feito, senão maximizar o lucro das instituições bancárias, penalizar ainda mais a população e, por fim, pagar o alto custo disto com uma desastrosa política de austeridade, quando sabemos que é perfeitamente possível contornar a crise sem tirar do prato e do bolso dos mais pobres. Com isto os algozes não se importam, o urgente é aprofundar a crise política e colher seus frutos, e disto, infelizmente, a população só se dará conta quando for tarde demais!

Nós, como bancada do PSOL, sempre lutaremos contra os joguetes políticos e também contra qualquer iniciativa que transfira para a população o ônus de uma administração ineficiente, marcada, assim como as que a antecederam, por escândalos de corrupção que juntam Legislativo e Executivo no mesmo balaio do enriquecimento ilícito, e por isto mesmo estamos à vontade para criticar tanto o governo quanto o bloco da oposição de direita.

Cunha já anunciou que lerá na quinta-feira 24 o parecer sobre o possível impeachment da presidenta. A ver.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

6 ideias para que os super-ricos paguem a conta

Prestem atenção em 100 mil contribuintes. Se conseguir que eles percam as isenções escandalosas que têm, teríamos mais dinheiro do que com os ajustes.

Por Reginaldo Moraes, no site Brasil Debate

Faz alguns anos, a Receita Federal divulga os grandes números das declarações de renda. Neste ano, divulgou dados que nunca divulgara. E com isso ficamos sabendo, número por número, coisas estarrecedoras que só podíamos deduzir, observando o comportamento de nossos ricaços. Veja alguns destaques:

Quantas pessoas físicas fazem declaração?

Quase 27 milhões.

Qual é o “andar de baixo”?

Os 13,5 milhões que ganham até 5 salários mínimos. Se deixassem de pagar IR, a perda seria de mais ou menos 1% do total arrecadado pela receita. Só. E gastariam esse dinheiro, provavelmente, em alimento, roupa, escola, algum “luxo popular”.

Quais são os andares de cima?

São três andares:

1. Os que ganham entre 20 e 40 salários mínimos. Correspondem a mais ou menos 1% da população economicamente ativa. Podem ter algum luxo, pelos padrões brasileiros. Mas pagam bastante imposto.

2. Tem um andar mais alto. Os que ganham entre 40 e 160 SM representam mais ou menos 0,5% da população ativa. Já sobra algum para comprar deputados (ou juízes).

3. E tem um andar “de cobertura”, o andar da diretoria, da chefia. A nata. A faixa dos que estão acima dos 160 SM por mês. São 71.440 pessoas, que absorveram R$ 298 bilhões em 2013, o que correspondia a 14% da renda total das declarações. A renda anual média individual desse grupo foi de mais de R$ 4 milhões. Eles representam apenas 0,05% da população economicamente ativa e 0,3% dos declarantes do imposto de renda. Esse estrato possui um patrimônio de R$ 1,2 trilhão, 22,7% de toda a riqueza declarada por todos os contribuintes em bens e ativos financeiros. Pode estar certo de que são estes que decidem quem deve ter campanha financiada. Podem comprar candidatos e, também, claro, sentenças de juízes.

Quem sustenta o circo? Quem mais paga IR?

A faixa que mais paga é a do declarante com renda entre 20 e 40 salários mínimos, que se pode chamar de classe média ou classe média alta.

Quem escapa do leão?

O topo da pirâmide, o grupo que tem renda mensal superior a 160 salários mínimos (R$ 126 mil). As classes média e média alta pagam mais IR do que os verdadeiramente ricos.

Em 2013, desses 72 mil super-ricos brasileiros, 52 mil receberam lucros e dividendos – rendimentos isentos. Dois terços do que eles ganham sequer é taxado. São vacinados contra imposto. Tudo na lei, acredite. A maior parte do rendimento desses ricos é classificada como não tributado ou com tributação exclusiva, isto é tributado apenas com o percentual da fonte, como os rendimentos de aplicações financeiras.

Em 2013, do total de rendimentos desses ricaços, apenas 35% foram tributados pelo Imposto de renda pessoa física. Na faixa dos que recebem de 3 a 5 salários, por exemplo, mais de 90% da renda foi alvo de pagamento de imposto. Em resumo: a lei decidiu que salário do trabalhador paga imposto, lucro do bilionário não paga.

O que isso exige da ação política?

Quando a classe trabalhadora e suas organizações se enfraquecem, burocratizam ou recuam, deixam a ideologia e os sentimentos da classe média sob o comando da classe capitalista. Mais ainda, da sua ala mais reacionária. Pior ainda: a direita conquista até mesmo o coração dos trabalhadores que são tentados a se imaginar como “classe média”.

Na história do século 20, o resultado disso foi a experiência do fascismo, em suas múltiplas formas e aparições.

Nos últimos anos, os bilionários brasileiros e seus cães de guarda na mídia perceberam que podiam conquistar o ressentimento da classe média para jogá-la contra os pobres, os nordestinos, os negros, tudo, enfim, que se aproximasse dos grupos sociais que fossem alvo de políticas compensatórias, de redistribuição. E contra governos e partidos que tomassem essa causa.

E a esquerda, de certo modo, assistiu a essa conquista ideológica sem ter resposta. Uma resposta política: a criação de movimentos reformadores que fizessem o movimento inverso, isto é, colocassem essa classe média contra os altos andares da riqueza. Nós não soubemos fazer isso. Talvez pior: acho que nem tentamos fazer isso.

Aparece agora essa urgente necessidade e a providência divina, travestida de Receita Federal, nos traz uma nova chance.

Já sabíamos que os brasileiros mais pobres pagam mais impostos, diretos e indiretos, do que os brasileiros mais ricos. Sabemos que todos pagamos imposto sobre propriedade territorial urbana – o famoso IPTU. E conhecemos o estardalhaço que surge quando se fala em taxar mais os imóveis em bairros mais ricos.

Mas sabemos coisa pior: grandes proprietários de imóveis rurais não pagam quase nada. Sobre isso não tem estardalhaço. É assim: se você, membro da “classe média empreendedora” passeante da Avenida Paulista, tem uma loja, oficina ou restaurante de self service, paga um belo IPTU. Se você fosse um grande proprietário rural (como os bancos e as empresas de comunicação), seu mar de terras com uma dúzia de vacas não pagaria ITR. Ah, sim, teria crédito barato.

Tudo isso já é mais ou menos sabido e merece reforma. Mas ainda mais chocante é o que se chama de “imposto progressivo sobre a renda”, que agora sabemos que é ainda menos progressivo do que imaginávamos.

Faz algum tempo escrevi um artigo dizendo que a Receita Federal deveria concentrar sua fiscalização na última faixa dos declarantes pessoa física, responsável por 90% do IR. Se o resto simplesmente deixar de pagar não vai fazer tanta diferença. Além disso, a faixa mais alta é aquela que menos recolhe na fonte e a que mais tem “rendimentos não tributáveis” e de “tributação exclusiva”, isto é, rendimentos derivados de investimentos, não de pagamento do trabalho.

Fui injusto ou impreciso, moderado demais. A Receita e os legisladores podem economizar mais tempo do que eu supunha. Basta que prestem atenção em 100 mil contribuintes, do total de 26 milhões. Essa é a mina. Se conseguir que eles paguem o que devem e se conseguir que eles percam as isenções escandalosas que têm, posso apostar que teremos mais dinheiro do que os ajustes desastrados e recessivos do senhor ministro da Fazenda.

O que isso significa para o que chamamos de esquerda – partidos, sindicatos, movimentos sociais? Sugiro pensar em um movimento unificado com uma bandeira simples: que esses 100 mil ricaços paguem mais impostos e que deem sua “contribuição solidária” para reduzir a carga fiscal de quem trabalha. É preciso traduzir essa ideia numa palavra de ordem clara, curta e precisa, mobilizadora. E traduzi-la numa proposta simples e clara de reforma, cobrada do governo e do Congresso. A ideia é simples: isenção para os pobres, redução para a classe média, mais impostos para os ricaços.

Talvez essa seja uma boa ideia para fazer com que a “classe média” que atira nos pobres passe a pensar melhor em quem deve ser o alvo da ira santa. Afinal, milhares e milhares de pagadores de impostos foram para as ruas, raivosos, em agosto, enquanto os nababos que de fato os comandam ficavam em seus retiros bebendo champanhe subsidiada.

Os passeadores da Avenida Paulista são figurantes da peça, eles não sabem das coisas – os roteiristas e produtores nem deram as caras.

Em que rumo os partidos e movimentos populares devem exigir mudanças?

1. É justo e perfeitamente possível isentar todo aquele que ganha até 10 salários mínimos. Não abala a arrecadação se cobrar um pouco mais dos de cima.

2. É necessário e legítimo criar faixas mais pesadas para os andares mais altos. Mas não é suficiente.

3. É preciso mudar as regras que permitem isenção e desconto para lucros e dividendos.

4. É preciso e é legítimo mudar as regras para os pagamentos disfarçados, não tributáveis, em “benefícios indiretos”. A regra tem sido um meio de burlar a taxação.

5. É preciso e é legítimo mudar as regras de imposto sobre a propriedade territorial. A classe média estrila com o IPTU. Mas deveria é exigir cobrança do ITR.

6. É preciso ter um imposto sobre heranças. Com isenção para pequenos valores e tabela progressiva.

Texto original : CARTA MAIOR

Publicado : CARLOS GEOGRAFIA

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Levy não enfrenta “tubarões”

Dilma errou. Errou principalmente ao colocar a raposa para vigiar o galinheiro

Por: Eliseu 

ditadura_militarMinha posição política sempre foi cristalina: sou de esquerda. Até na época dos malditos anos de chumbo - período que os militares “detonaram” o Brasil e poucos falavam algo contra –, mas que hoje ladram pedindo a volta dos militares ou apoiando o golpe contra a Presidenta (É Presidenta mesmo. É assim que ela gosta de ser tratada) Dilma o que no fim é a mesma coisa. E também não sou filiado ao PT ou qualquer outro partido político.

Mas como a grande maioria dos brasileiros, esse blogueiro está insatisfeito com a política econômica em curso. Porém, há de se ressaltar que antes de Lula, ou seja, do PT assumir o poder, o Brasil ficou 502 anos com a direita dominando o País e na maioria do “pequeno” período as coisas eram bem piores para os menos favorecidos. Antes a corrupção era bem maior, apenas não era investigada. O PT deveria ser aplaudido por mandar investigar. Devemos lembrar que a Polícia Federal é subordinada ao Ministro da Justiça que por sua vez é subordinado à Presidência da República. Esse é o principal motivo da podre elite brasileira ulular pelo impeachment  de Dilma, com o PIG liderado pela Rede Globo tanto “bater” na Presidenta.

Dilma errou. Errou principalmente ao colocar a raposa para vigiar o galinheiro, ou seja, colocar Joaquim Levy, sabidamente comprometido com os poderosos, como Ministro da Fazenda.

CartaCapital explana bem a situação em sua reportagem que transcrevo abaixo, com o título: “Levy boicotou medidas tributárias progressivas”.

levy_ministro_fazenda“Ministro não quis 'enfrentar tubarões'. No Senado, pesquisadores do Ipea dizem que fim isenção de IR em lucros e dividendos fecharia orçamento 2016 – Por André Barrocal — publicado 15/09/2015 14h40

O governo anunciou na segunda-feira 14 alguns aumentos de impostos para tentar transformar o rombo de 30 bilhões de reais no orçamento de 2016 em uma sobra de 34 bilhões. Embora tivesse à mão um leque de opções capazes de tornar o sistema tributário brasileiro mais justo, o pacote tem propostas progressivas tímidas. O motivo foi o boicote do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Entre as medidas anunciadas, só duas atacam a injustiça da tributação nacional, concentrada na taxação do consumo, um modelo punitivo dos mais pobres.

Uma cria uma tabela progressiva de imposto de renda (IR) sobre o lucro obtido na venda de imóveis. Hoje, há uma alíquota de 15% de IR no lucro nestas transações. O governo quer cobrar 20%, 25% ou 30% em cima dos ganhos que, durante um ano, superem um milhão de reais.

A outra reduz um pouco as vantagens obtidas pelas empresas no uso de um dispositivo chamado “juros sobre capital próprio”. Este mecanismo, criado por uma lei de 1995 e existente só no Brasil, permite às pessoas jurídicas inventar uma despesa para pagar menos IR.

Juntas, as duas medidas, caso entrem em vigor tal qual propostas pelo governo, vão render 2,9 bilhões de reais anuais, nas contas da equipe de Levy.

A principal aposta tributária do governo para fechar o orçamento de 2016 é recriar a CPMF com uma alíquota de 0,20%. Renderia 32 bilhões de reais por ano.

Além da volta da CPMF, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, defendia dentro do governo duas medidas tributárias progressivas. Alíquotas maiores para o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). E fim da isenção de IRPF na distribuição de lucros e dividendos a donos e sócios de firmas.

Barbosa contava com o apoio de ao menos dois ministros do chamado núcleo duro do governo: Miguel Rossetto (Secretaria Geral) e Ricardo Berzoini (Comunicações). Segundo um ministro deste núcleo duro, Levy resistiu a “enfrentar os tubarões”, tendo optado por propostas que lhe pareciam “neutras”, ou seja, incapazes de transmitir sinal contrário ao “andar de cima”.

“A principal medida de progressividade tributária hoje no Brasil é acabar com a isenção de IR nos lucros e dividendos”, diz Sérgio Gobetti, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Por coincidência, Gobetti participou logo após o anúncio do governo de um debate na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre a carga tributária nacional. Ele e o também pesquisador do Ipea Rodrigo Orair examinaram dados recém-divulgados pela Receita Federal sobre o IRPF e concluíram que a maior distorção está na blindagem dos lucros e dividendos.

A isenção foi instituída pela mesma lei de 1995 que inventou o “juro sobre capital próprio”. Na declaração de IR entregue pelos brasileiros em 2014, essa isenção protegeu 71 mil contribuintes recebedores de quase 200 bilhões de reais isentos de tributação. “Há uma brutal concentração de renda no Brasil graças a essa isenção”, afirma Orair.

A volta do IR sobre a distribuição de lucros e dividendos poderia resolver quase sozinha os problemas do orçamento de 2016. Com uma alíquota de 15% como era até 1995, dizem os pesquisadores do Ipea, a taxação renderia 53 bilhões de reais por ano. Já com a aplicação da tabela progressiva do IRPF, com um teto de 27,5%, a arrecadação chegaria a 72 bilhões de reais anuais.

“O Brasil já avançou no gasto público para fazer justiça social. Falta arrecadar melhor”, diz o senador Lindberg Farias (PT-RJ), relator da subcomissão da CAE responsável pelo debate nesta segunda-feira 14.

sábado, 12 de setembro de 2015

Como a PM paulista tornou-se máquina de assassinar jovens

De repente, a força tarefa montada para apurar a chacina de Osasco — na qual 19 jovens foram assassinados — foi atropelada pelas investigações da Polícia Militar (PM).

A maior suspeita era de PMs envolvidos.

As investigações da PM atuaram em duas frentes: para atrapalhar os aspectos materiais e para comprometer os aspectos formais da investigação.

Na primeira frente, atrapalharam a colheira de provas e expuseram nomes de testemunhas. A partir do vazamento, todas elas passam a ser juradas de morte.

Na frente formal, caso as investigações levem a nomes de policiais de menor patente, com toda certeza serão anuladas nos tribunais superiores, já que crimes de morte só podem ser investigados pela Polícia Civil (PC). À PM cabe apenas investigar infrações administrativas.

Escancara-se, assim, um dos grandes desafios nacionais, que mais cedo ou mais tarde teria mesmo que ser encarado: o do enfrentamento do poder paralelo incrustado nas PMs, cuja manifestação mais trágica é a extraordinária taxa de letalidade nas suas ações. Em muitos lugares — especialmente em São Paulo — a PM tornou-se uma máquina feroz de assassinar jovens de periferia, escudada na mais absoluta impunidade.

O papel dos P2

Os problemas da PM começaram quando transformaram o P2 em agentes policiais.

Os P2 são uma espécie de polícia judiciária, responsáveis por levantar as infrações disciplinares e propor correções de rumo à polícia. Os PMs usam fardas, os P2, não. Os PMs são cidadãos comuns; os P2, os PMs de confiança.

Gradativamente houve uma alteração na sua atuação, conforme se contará mais à frente, tornando-se a linha de frente das operações extralegais da PM, como agentes de confiança do oficialato.

Essa máquina de assassinato foi montada de forma gradativa.

Na década de 70 consolidou-se a imagem da PC corrupta e da PM violenta. Vem de lá os conflitos entre as duas polícias.

Na linha de frente, os conflitos se manifestavam no próprio atendimento policial. O PM prendia o suspeito, levava para a delegacia e lá havia a primeira frente de conflito.

Há duas espécies de policiais civis.

O policial sério é garantista — isto é, não está lá meramente para apurar culpas, mas para apurar a verdade. Ele precisa seguir o Código de Processo Penal (CPP), requisitar laudos e perícias. Já a PM não se prende a códigos e busca culpados.

Além disso, não havia interesse em fortalecer a PC, porque a própria PM pretendeu desde sempre controlar o ciclo completo da apuração do crime. No passado, houve inúmeros casos de efetivos da PM cercarem delegacias para fazer valer a vontade do oficial, exigindo flagrante em determinados casos, contra a opinião do delegado, que não via motivos para tal.

O problema maior surgiu com a segunda espécie de policial civil, o corrupto.

Ainda na década de 70 a PM deu-se conta de que prendendo o contraventor e entregando-o em uma delegacia — em geral ligado ao jogo de bicho e ao bingo — apenas valorizava a corrupção da PC.
Talvez por efeito-demonstração, as companhias da PM que atuavam na região da Santa Ifigênia começaram a praticar venda de segurança. Havia reuniões formais entre os capitães e comerciantes. Os oficiais alegavam que o Estado não tinha verbas. Os comerciantes montavam então uma associação incumbida de recolher recursos para financiar os PMs. Foi o início de um modelo que se expandiu para outras regiões da cidade e deu início ao crescente mercado de segurança, dominado por companhias de propriedade de oficiais da PM.

Hoje em dia, é comum a venda casada de segurança por essas empresas. Tipo, se a contratarem garante-se pelo menos duas vezes por dia a presença de viaturas da Rota transitando pela região.

A segurança de quem pagava

A venda de segurança começou a dar na vista, porque regiões e cidadãos passaram a ser divididos entre os que podiam e os que não podiam pagar.

Para administrar a opinião pública, a maneira encontrada por setores da PM e das companhias de segurança foi a criação de grupos de extermínio.

Se surgiam problemas em determinada região, mandavam um esquadrão na calada da noite que executava meia dúzia de pessoas, quadrilheiros ou não. A ação servia para alertar os quadrilheiros: mudem-se! Para a população, passava a ideia de guerras de quadrilha.

Aos poucos, o modelo de execução foi sendo aprimorado.

Quando surgem problemas em determinadas regiões nobres, os grupos de segurança privada combinam entre si e aquele de outra região vai até o local, procede à matança e à desova dos corpos em outro lugar.

Esse mesmo procedimento passou a ser adotado por setores da PM.

Quando precisa matar alguém, setores da PM valem-se de três equipes. A primeira, executa as vítimas. A segunda, vai até o local e esconde as provas. A terceira comparece para registrar o crime.
A eficácia do modelo é assegurada por dois instrumentos.

O primeiro, o sistema de gestão avançado, que permite programar a ida ou retirada de policiais da área. Se um grupo de extermínio planeja uma ação em determinada área, basta acionar o sistema para tirar o policiamento do entorno do alvo.

O segundo é a falta de uma polícia técnica independente. O Instituto Médico Legal não tem verba própria. Depende da Polícia Civil, porque até hoje não foi instituída uma polícia científica, conforme preconizado pela Constituição.

No geral, os PMs desenvolvem laços de compadrio com médicos. De posse da escala de médicos, é fácil identificar aqueles menos exigentes nos laudos.

Os crimes de maio de 2006 só cessaram quando médicos do Conselho Regional de Medicina correram para o IML (Instituto Médico Legal) para acompanhar as autópsias. É nesse momento que aparecem as provas mais objetivas que podem levar ao criminoso.

Os crimes de agosto

Não foi por acaso que Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) exigiu providências do governo brasileiro tão logo foram divulgadas as notícias sobre a chacina de Osasco. Nos organismos internacionais, há consenso de que as autoridades públicas perderam o controle sobre as PMs.

A primeira atitude do Secretário de Segurança Alexandre de Moraes foi a constituição de um grupo de trabalho de 50 pessoas, entre policiais civis e procuradores estaduais visando apurar os crimes. Não incluiu ninguém da PM. Parecia que, pela primeira vez, seria rompida a blindagem.

Quando a PM colocou seu bloco na rua, o Secretário calou-se. Dele não se ouviu mais nenhuma palavra, nenhuma declaração.

A chacina de Osasco tornou-se um divisor de águas. Nos próximos dias se saberá onde reside o poder de fato em São Paulo: se no Palácio Bandeirantes ou se no quartel da PM.

Dessa resposta dependem centenas de rapazes de periferia que serão executados nos próximos meses, caso o governo de São Paulo atue de forma pusilânime.

Luís Nassif
No GGN

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Esse texto é para a nossa hipocrisia!

Fique bem claro que me causou repugnância e revolta ao tomar conhecimento do ocorrido, mas não podemos fechar os olhos ao que acontece em nosso quintal

Por: Eliseu 

refugiadoApesar de não concordar com a autora quando ela diz sobre “quem diz que menino de rua é trombadinha e é a favor da redução da maioridade penal” – eu (opinião pessoal), penso que quem comete crime, independente de idade, raça, religião, dinheiro, etc. deve pagar com cadeia –, o restante do texto traduz bem próximo o que vinha pensando sobre a foto da criança síria morta na areia, sendo o assunto mais comentado no Facebook nos últimos dias.

Abaixo reproduzo o texto de Nathali Macedo, no DCM.

“O grande acontecimento na internet nesta semana não foi uma modelo que foi traída ou uma subcelebridade que resolveu escrever uma autobiografia ou uma atriz que mostrou os seios na televisão. Foi a foto chocante de uma criança síria morta na tentativa de fugir da guerra e da fome e alcançar o primeiro mundo.

A família do menino Aylan Kurdi tentava entrar no Canadá, que teria negado pedido de refúgio e ofereceu asilo ao pai da criança depois que a foto viralizou na internet. Só depois que a tragédia foi assistida pelo mundo imigraçaointeiro – antes disso, a questão imigratória simplesmente não era um problema da Europa (e nem nosso, para sermos sinceros).

A fotografia – que promete ser um divisor de águas na atitude europeia com a questão dos imigrantes (embora eu, particularmente, não guarde essa esperança) — rendeu opiniões emocionadas, ilustrações tocantes e milhões de manifestações de condolências na internet.

Parece que o mundo enxergou que a questão imigratória – assim como várias outras questões sociais – é, sim, um problema nosso.

O poder da internet de viralizar absolutamente tudo finalmente alcançou um refugiado, um esquecido, um marginalizado, um invisível. É claro que é louvável saber que as pessoas – a internet, sobretudo – ainda são capazes de se deixarem tocar, mas isso me pareceu cruelmente raso e efêmero, exatamente como aquelas fotos de crianças africanas famintas nas timelines de quem diz que menino de rua é trombadinha e é a favor da redução da maioridade penal.

A foto viralizou exatamente como a Andressa Urach, a traição do Marcelo Adnet, a morte de um cantor sertanejo: nada muito frutífero, nada realmente tocante, nada que vista um sentimento permanente.

Esse texto é pra você que acha que o mundo vai mal porque um imigrante sírio foi fotografado morto numa praia, mas ignora a guerra urbana nas favelas da sua cidade. Que lamenta a questão imigratória na segurança do seu quarto, protegido pelos muros – visíveis e invisíveis – do seu condomínio, que acha tocante que a tentativa imigratória mate crianças (e adultos, e idosos), mas não enxerga que isso é um fruto amargo do mesmo sistema que não ampara o homem que te pede esmola na mesa de um bar.

Pra você que lamenta a fome na África, o trabalho escravo, a desigualdade social e a questão imigratória mas compra roupas no AliExpress. Pra você que se deixa tocar pela foto de uma criança morta – vítima da mesma, mesmíssima desigualdade que dizima o seu país, o seu bairro, a sua rua – mas é contra programas sociais.

Esse texto é para a nossa hipocrisia que, de tão cega, não nos deixa enxergar que nem o menino sírio, nem o garoto negro do sinal, nem as crianças mortas na rocinha são um fato isolado, e que tudo isso é, sim, um problema nosso. Esse texto é pra nós, que só tiramos os olhos de nosso próprio umbigo quando vemos a foto de uma criança morta com a cara na areia. Pra nós que somos insensíveis às mazelas da vida até que elas pisem na nossa consciência. Abraço!”

domingo, 6 de setembro de 2015

Formatando a vida

Chega um momento que tem que se decidir. Ou deixa os “vírus” tomarem conta, ou mesmo doendo, deleta-se alguns arquivos que gostamos

Por: Eliseu

life-resetQuem acompanha meu blog sabe que dificilmente me refiro a assuntos pessoais. Entretanto, minha vida pessoal se confunde com a do blogueiro, e se uma está de certa forma comprometida, a outra também fica. Fiquei mais de 40 dias sem adicionar uma postagem e sequer percebi. Ruim quando se trata de alguém como eu que gosta do debate.

Quando se refere à informática, software principalmente, pensa-se logo em jovens nerds. Mas na vida existem exceções, e no caso, sou uma. Gosto muito de software e comparo muitas vezes com o ser humano. Até algumas coisas temos em comum: vírus e as vacinas para os mesmos (antivírus).

O problema é quando nos preocupamos em demasiado em não permitir deixar os vírus agirem nas máquinas, principalmente para não serem invadidas e esquecemos-nos de nos proteger. Aí sim, o perigo ronda e ficamos sem proteção.

No computador a melhor solução é fazer backup do que temos de bom para não perder bons momentos e experiências e formata-lo, que significa apagar tudo e refazer todo o sistema voltando assim às configurações iniciais e, usando o backup, colocamos de volta o que temos de bom. Caso não queiramos perder nenhum arquivo em definitivo, podemos colocá-los em “quarentena” num disco separado. Não gosto de fim. Prefiro reticências!

eliseu_ocarcaraNa vida não é muito diferente. Descuidei de minha por alguns momentos e vi que tinha sido infectado por alguns “vírus”. Relutei, tomei as vacinas, mas como nos computadores, ficam “restos” nos registros, e eles, (os vírus) acabam voltando e se não resolvermos o problema logo eles “tomam conta” e acabam nos fazendo lentos, nos paralisando e nos dominando, assim como fazem nas máquinas.

Chega um momento que tem que se decidir. Ou deixa os “vírus” tomarem conta, ou mesmo doendo, deleta-se alguns arquivos que gostamos mas que estão nos paralisando.

Tomei a decisão: fiz o que faço com computadores para resolver de vez o problema: FORMATEI MINHA VIDA, usei o “backup” e guardei os bons arquivos. Mas como disse, prefiro as reticências ao ponto final. Então, os outros não deletei, guardei num “disco” separado de onde não causarão qualquer problema. Pode ser que algum dia a tecnologia dê condições de excluirmos os “vírus” recuperá-los “limpos”. É o que espero, e o futuro a Deus pertence.

O O Carcará está de volta em definitivo!