sábado, 17 de setembro de 2016

Estamos de volta!

Por: Eliseu 

Enfim, após um tenebroso período de alguns meses que perdi de forma brutal minha segunda esposa, tento voltar às minhas postagens, me desculpando aos meus leitores pelas interrupções, e sentindo muito. Por mim!

Mas, afinal, a vida  deve continuar e continuaremos enquanto forças tivermos. Como que por vontade do destino ou seja lá qual a explicação, fato é que as duas falecidas sabiam da importância do blog em minha vida e me amando como amavam, tenho a certeza que gostariam que eu continuasse minha jornada enquanto possível for.

Abaixo segue republicação de Antonio Luiz M. C. Costa, no CartaCapital, mostrando um pouquinho da péssima velha realidade brasileira, que infelizmente volta com os golpistas da direita que sempre dominaram este país e “ferrou” com a vida dos menos favorecidos.

A reunião do G-20 foi um triste lembrete do apequenamento do Brasil e das chances perdidas de cooperação mundial

O G-20, não custa lembrar, foi uma consequência indireta da decisão do governo Lula de articular 20 e poucos países periféricos na reunião de Cancún de agosto de 2003, para se contrapor ao G-7 e sua pretensão de abertura unilateral e incondicional dos mercados dos países periféricos. O projeto da Alca foi definitivamente bloqueado e iniciou-se uma ofensiva para aprofundar laços diplomáticos e comerciais com os vizinhos e o Sul do mundo.

G_20

O G-7 (então G-8 com a Rússia, sócia honorária de 1997 a 2014) havia sido até então o centro das decisões econômicas, capaz de se impor às demais 200 nações sem discussão. Quando surgiu, em 1975, reunia todas as maiores economias capitalistas e 70% do Produto Mundial Bruto, mas o quadro mudou. A economia da China tornou-se a segunda do mundo e Brasil e Índia superaram alguns fundadores do G-7, cuja participação caiu para a metade da produção mundial. 

O episódio de Cancún demonstrou ser impossível continuar a ignorar a realidade e o G-20, até então um quarto dos fundos do G-7, foi promovido a fórum principal.

Apesar de sua legitimidade para responder pelo restante do planeta ser não muito menos problemática do que a do grupo menor e algumas das economias mais importantes (notadamente Irã, Nigéria, Taiwan e Tailândia) ficarem de fora, o G-20 soma 85% da produção, dois terços da população mundial e 80% do comércio internacional, o suficiente para dar direção à economia do planeta, sem ter um número de participantes grande a ponto de inviabilizar o diálogo, como frequentemente acontece na Assembleia-Geral da ONU ou na OMC.

A reunião dos ministros da Fazenda de outubro de 2008, presidida por Guido Mantega, inaugurou o grupo em seu novo papel. Um mês depois, deu-se a primeira reunião dos chefes de Estado, seguida pela de abril de 2009, na qual o recém-empossado Barack Obama festejou Lula como “o cara, o político mais popular da Terra”. Ainda naquele ano, criou-se formalmente o BRICS, como contraponto ao G-7 dentro do espaço do G-20.

Nesse momento, após anos de críticas da oposição e da mídia à “política confusa” do Itamaraty, à “inutilidade” da aproximação com países da África e América Latina e ao suposto “encolhimento do Brasil”, o crescimento do papel dos países periféricos promovidos a emergentes, especialmente o nosso, foi reconhecido pela maior parte do mundo.

Para a Newsweek, o Brasil era o “astro da ONU”, para a Time, o “primeiro contrapeso real aos EUA no Ocidente”, e para a Der Spiegel, o “gigante gentil”. O País ganhava peso não por se submeter às potências ocidentais, mas por conduzir uma política independente. 

Abriu-se uma janela de oportunidade para a construção de uma ordem mundial mais equilibrada, infelizmente mal aproveitada. Lula desentendeu-se com Obama por tentar costurar, em 2010, um acordo com o Irã muito semelhante àquele que a própria Casa Branca celebraria em 2015.

Em vez de tentar coordenar a saída da crise com os emergentes, as nações ricas recorreram à emissão em massa de moeda, redução de juros e desvalorizações competitivas para ganhar espaço no jogo comercial.

O apoio dos EUA aos golpes em Honduras e no Paraguai, a intervenção na Líbia e o apoio aos rebeldes na Síria enfraqueceram as perspectivas de cooperação entre G-7 e BRICS, demolidas de vez pelo apoio de Washington e Bruxelas ao golpe pró-ocidental na Ucrânia e pela ocupação russa da Crimeia.

A China, às voltas com problemas internos e regionais, retraiu-se no cenário mundial. E o Brasil, embora não tivesse mudado de orientação no governo de Dilma Rousseff, também recuou de seu papel internacional por um enfoque supostamente mais técnico e menos político, que na prática se mostrou menos eficaz e agregador tanto no plano internacional quanto no interno.

Foi um retrocesso, mas insignificante se comparado com o desastre após o golpe parlamentar de 2016. O governo interino rachou o Mercosul e esvaziou mais de uma década de trabalho de construção de confiança mútua e cooperação sul-americana.

Do chanceler José Serra, que ainda em 2012 se surpreendia ao descobrir que desde 1969 seu próprio país não se chamava mais “Estados Unidos do Brasil”, não se pode esperar a compreensão das mudanças no cenário internacional nas últimas décadas e da futilidade de querer retornar à alegre submissão dos anos 1990. Do novo ocupante da cadeira presidencial, muito menos. 

A prioridade de Michel Temer em sua participação no G-20 era conseguir uma reunião, uma cena, um aperto de mão capaz de legitimá-lo. Foi literalmente relegado a um canto e nem sequer teve o nome registrado na página oficial do grupo. Não foi acidente.

Ele não interessa aos outros BRICS. Já os líderes dos países ricos saberão se aproveitar da sua ânsia por validação e deixam claro que ela não sairá de graça. Será preciso muita submissão e muitas concessões (inclusive de petróleo) para sair melhor na foto. Mesmo assim não conseguirá um lugar como aquele que dignidade e independência chegaram a proporcionar.

À parte o vexame e o prejuízo ao interesse nacional, é preciso preocupar-se também com o futuro do grupo. O Brexit mostrou que as tendências desagregadoras continuam em alta e nem se fale das possibilidades de vitória da direita nacionalista em países como os Estados Unidos, a França e a Alemanha.

Se até agora o G-20 se mostrou pouco eficaz e incapaz de cooperar para responder em conjunto às crises econômicas, a perspectiva é de que isso se torne ainda mais improvável nos próximos anos. Ao mesmo tempo, é difícil imaginar em qual outro fórum os nós mais cruciais para o mundo poderão ser desatados.