sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um robô pode fazer melhor

De que vale uma sociedade que não tem pensamento crítico?

Por: Menalton Braff, no CartaCapital 

roboDe uns tempos pra cá muita gente pôs-se a discutir a educação e a opinar sobre ela. Fico pasmo com a desfaçatez de grande parte dos opinantes, que da escola nunca passaram de gazeteiros por puro ódio ao tempo roubado à vadiagem. Sei de vários.

Bom, mas o assunto tem assumido proporções e níveis de verdadeira catástrofe.

Há umas pessoas, mesmo nos meios oficiais, afirmando que só se deve aprender aquilo que terá alguma utilidade prática na vida.

Então é assim: você quer ser advogado? Que sentido faz aprender trigonometria, logaritmo, essas coisas? Então tire-se a matemática do currículo geral. Ela deve ser ensinada apenas a quem pretender cursar engenharia. Certo?

Mas se você for estudar engenharia, que falta lhe fará o conhecimento de verbos e análise sintática? Tire-se o português do currículo, deixando-o apenas em quem pretenda cursar jornalismo.

Geografia é uma disciplina dispensável, uma vez que os guias turísticos (os únicos a saber que o mundo é redondo, tem rios e mares) podem muito bem substituir aquelas aulas.

E história, então? Pra falar a verdade, hoje em dia nem os políticos (a maioria deles) tem a menor noção de que não somos mais um império, que a monarquia é um regime ultrapassado e que vivemos em uma república. Mas você já parou para pensar que a maioria das pessoas, em suas atividades práticas e produtivas, nunca usa o nome de José Bonifácio, tampouco de D. Pedro II?

Podíamos parar por aqui, não fosse a existência de química, física, biologia, esses conhecimentos inúteis, que nunca vamos empregar em nossas atividades profissionais.

Aliás, como estou envolvendo-me no assunto, vou também colaborar com o aperfeiçoamento da sociedade brasileira. Por que usar vestuário de vários tecidos, feitios os mais diversos. Isso só encarece as roupas. Vejam só: macacão de zuarte azul para todos os homens, inclusive os engravatados; vestidos de chita com estampas de flores, todos iguais, para as mulheres. As pessoas não teriam mais de que se queixar sobre o custo de vida, pelo menos no que diz respeito ao vestuário.

E continuando, de manhã todos em fila para entrar nas fábricas, escritórios e escolas, cantando alegremente marchas patrióticas. Cada um possuidor de conhecimentos necessários e suficientes para suas atividades profissionais. Sim, porque esta história de cidadania, cultura, isto tudo é muito prejudicial à produção e circulação de mercadorias.

Pois não é que ainda tem gente defendendo o ensino de filosofia nas escolas? As pessoas aprendendo a pensar, a refletir, as pessoas tendo uma visão mais larga da existência, isso tudo não é uma coisa perigosa? Talvez comprando alguns robôs se resolva o problema, mas os robôs são um pouco limitados.

Antigamente havia um ditado popular: Quem pensa muito, não casa. Mas é preciso casar, caso contrário onde se vai buscar mão de obra? É melhor não pensar muito.