domingo, 30 de janeiro de 2011

Dilma: 'Vejo com excelentes olhos a participação da Venezuela no Mercosul'

Todos os refletores estão sobre Dilma, e ela sabe disso. A presidente foi cautelosa ao falar à imprensa argentina. Escolheu com precisão cada palavra e gesto, e dosou até mesmo os sorrisos no rosto de maquiagem discreta.
Rousseff mostrou-se ciente de que a popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumenta as expectativas em relação a seu governo. Em sua primeira reunião oficial com a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, a comparação está na ordem do dia.
"Pretendo ter uma relação muito próxima com a presidente Kirchner", alertou Dilma durante entrevista coletiva aos jornais "Clarín", "Página 12" e "La Nación", em uma sala adjacente a seu gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto.
A decoração sóbria mas alegre da sala, com orquídeas, vasos coloridos e papel de parede floral mostra que a ex-guerrilheira de 63 anos, que fez história ao se tornar a primeira mulher presidente do Brasil, traz um estilo diferente, ao mesmo tempo austero e feminino, em relação a seu antecessor. Destoa do ambiente apenas um crucifixo barroco de madeira e prata, presente na sala talvez para sinalizar um esforço de vontade para com a Igreja, com a qual Dilma teve problemas durante sua campanha eleitoral, quando foi acusada de ser atéia e favorável ao aborto.
Acompanhada pela ministra da Comunicação Social, Helena Chagas, e seu porta-voz, Rodrigo Baena, Dilma Rousseff mostrou-se firme, porém, acessível.
A entrevista, na íntegra:
Qual a importância, em sua opinião, de que os dois países mais importantes na América do Sul sejam governados por mulheres?
Dilma - É algo para se comemorar, uma demonstração de como essas sociedades evoluíram na superação de preconceitos arraigados contra as mulheres. Creio também que é significativo que tenhamos o exemplo da escolha de um índio para a presidência da Bolívia e de um metalúrgico no Brasil.
A América Latina está dando um exemplo ao mundo inteiro, de que determinados preconceitos e bloqueios sociais e econômicos estão sendo superadas, o que representa uma maior democratização de nossassociedades e países.
Quais são as suas expectativas quanto à relação entre Brasil e Argentina?
DILMA - Brasil e Argentina têm imensa responsabilidade em tornar a América Latina cada vez mais presente e ativa no cenário internacional. E podem conseguir fazê-lo de forma mais eficaz quanto mais próximas, articuladas e desenvolvidas se tornem nossas economias, criando, com essa proximidade, laços que tragam ganhos para ambas as partes, em termos de desenvolvimento econômico e tecnológico e melhoria das condições de vida.
Além disso, nossa proximidade é facilitada pelo fato de sermos ambas mulheres à frente de duas das maiores economias da região. Com Brasil e Argentina articulados, sob a liderança de mulheres, isso viabilizará uma maior presença em organizações internacionais como o G20 e o G77. Nossa relação também é muito importante para a Unasul.
O Brasil tem um compromisso - fortemente assumido desde o governo de Lula, a que darei continuidade e aprofundarei -, para com a ideia de que o destino do Brasil, seu desenvolvimento e a melhoria das condições de vida dos brasileiros está ligada e deve ser compartilhada com o resto de nossa América. Daí a importância que atribuo a Unasul e ao Mercosul.
O mundo globalizado exige a formação de blocos regionais. Para mim trata-se de uma relação estratégica, razão pela qual o primeiro país que visito é a Argentina, porque creio que este é um país irmão do Brasil. Com isso não diminuo a importância de qualquer outro vizinho - Paraguai, Uruguai, Colômbia, Venezuela e Peru - mas existe a noção política dentre outros países de que Argentina e Brasil devem estar juntos.
Qual será o foco desta primeira visita?
DILMA - O foco de minha agenda é o seguinte: o governo brasileiro assume, uma vez mais, um compromisso com o governo argentino de estabelecer política e estratégias conjuntas de desenvolvimento da região. Para nós, o desenvolvimento do Brasil deve beneficiar toda a região.
Um exemplo: teremos uma política muito forte de criação e desenvolvimento de fornecedores para a exploração e exportação de petróleo na camada de pré-sal. Temos uma política de produto nacional e buscamos uma política de produto regional com a Argentina. Projetamos um futuro em que a Argentina e o Brasil, que são países com enormes quantidades de alimentos e recursos energéticos, possam aumentar seu valor agregado e criar empregos.
Com a Argentina queremos estabelecer sociedade na área de tecnologia e inovação, e na utilização da tecnologia nuclear para fins pacíficos. Vou focar na noção fundamental de uma relação especial, estratégica com a Argentina. Essa é a idéia principal, que se manifesta em todas as áreas de interesse dos dois países.
Regularmente, nossos países têm disputas comerciais bilaterais e agora também há um problema com a taxa de câmbio. Como o Brasil se posiciona em relação a isso?
DILMA - Brasil e Argentina sofrem, como todos os mercados emergentes, o impacto da política de desvalorização praticado pelas duas maiores economias do mundo. A nossa posição no G-20 deve ser de reação à política de desvalorização que sempre levou o mundo a situações difíceis. As desvalorizações causadas por competições, que levaram avárias crises econômicas e disputas políticas, não são favoráveis a nenhum emergente.
Especialmente os Estados Unidos, que mantêm a moeda que é uma reserva de valor, deve levar isso em consideração. Por outro lado, não precisamos aceitar políticas de dumping ou mecanismos de concorrência inadequados que não se beaseiam em práticas transparentes, devemos reagir a isso. Mas também sabemos que o protecionismo no mundo não nos conduz a um bom termo. Os prejuízos não se restringem àqueles de quem se está defendendo, mas se espalham por todo o sistema.
As medidas que o Banco Central do Brasil vem tomando para evitar a sobrevalorização do real frente ao dólar e não estão dando o resultado esperado, e na Argentina há temor de uma efetiva desvalorização do real. A senhora poderia afirmar que isso não vai ocorrer?
DILMA - No mundo, ninguém pode afirmar isso. Nos últimos tempos temos conseguido manter o dólar numa certa flutuação. Não tivemos nenhum “derretimento”, como se diz por aí. A taxa de câmbio oscilou todo o tempo entre R$ 1,6 e R$ 1,7 real por dólar. Agora, ninguém pode garantir que não haverá desvalorização. Por isso, os organismos multilaterais são tão importantes para discutir isto. É importante que haja responsabilidade dos países desenvolvidos nessa questão.
O presidente Obama vai visitar o Brasil em março. É uma virada de página nas relações do Brasil e dos EUA depois de tantas tensões com o governo anterior no caso do Irã?
DILMA - A relação do Brasil com os EUA é histórica. E essa relação se transformou à medida que os dois países se desenvolveram. Hoje, de modo fantástico, o Brasil tem um superávit na relação comercial com os EUA, algo inconcebível pouco tempo atrás. É importante ver os EUA como um grande parceiro comercial da América Latina. Para o Brasil, os EUA são e sempre serão um parceiro muito importante. E, para nós, se trata sempre de subir o nível da relação.
Tivemos uma boa experiência nos últimos anos e também tivermos diferenças de opinião. Mas o que importa é percebe que esta é uma parceria que tem um horizonte de desenvolvimento muito grande. Consideramos, então, que a cada no teremos que virar a página do ano anterior.
Dizem que a senhora dará atenção especial aos direitos humanos. Como se traduzirá esse interesse em sua política externa?
DILMA - Não negociarei com os direitos humanos, não farei concessões nesta área. E tampouco aceito que direitos humanos possam ser vistos com restritos a um país ou região: isso é uma falácia. Devemos observá-los tanto em nosso país como no resto do mundo. Não se pode adotar dois pesos e duas medidas. Os países desenvolvidos já tiveram problemas terríveis, em Abu Ghraib, em Guantánamo... mas também creio que apedrejar uma mulher não seja algo adequado (como acontece no Irã).
Ter uma posição firme nos direitos humanos não significa apontar o dedo a outros países que não os respeitam. Muitas vezes se usam os direitos para fazer política. Não defenderei quema abusa dos direitos humanos, mas tampouco sou ingênua para deixar de ver seu uso político.
Como fica Cuba nesse contexto?
DILMA - Com a liberação dos prisioneiros políticos Cuba deu um passo adiante. Tem que continuar trabalhando nisso, dentro do processo de construção de melhores condições econômicas, democráticas e políticas do país. Respeito tempo o tempo deles. Há que entender que a política tem seu ritmo.
Em Cuba, prefiro dizer que existe um processo de transformação e creio que todos os países devem incentivá-lo. E devemos protestar contra todas as falhas que houver nos direitos humanos em Cuba. Não tenho nenhum problema em dizer se algo vai mal por lá, ou aqui também. Não somos um país sem dívidas com os direitos humanos; nós as temos.
A Venezuela está a ponto de entrar no Mercosul. Como seu ingresso alterará o bloco?
DILMA - É importante que a Venezuela ingresse no Mercosul. É bom para o bloco que outros países o integrem. Isso muda o nível do Mercosul. A Venezuela é um grande produtor de petróleo e gás; tem muito a ganhar no Mercosul e nós também teremos muito a ganhar com ela no bloco. Vejo com excelentes olhos a participação da Venezuela.
Depois da morte de Néstor Kirchner, qual é sua postura diante da eleição do novo secretário geral do Unasul?
DILMA - Está em processo de negociação, mas creio que, sempre que possível é bom que haja uma mudança. É um bom método, porque se trata de uma reunião em que somos todos iguais, sentados à mesma mesa redonda, em que não há ninguém na cabeceira. A rotação no cargo garante que todos terão sua hora na direção do grupo. Nada mais justo que cada um tenha sua vez. Esse é um princípio democrático essencial entre países soberanos. Ninguém é mais importante que o outro; cada país, um voto.
Do: Extra

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