quarta-feira, 23 de julho de 2014

Mais um! Aécio construiu aeroporto em outra cidade que tem fazenda: Montezuma

Cidade tem 7.500 habitantes, apenas 27% das residências atendidas por rede de esgoto e muitas ruas não têm ainda um asfalto como o da pista do aeroporto, feito com recursos do munícipio

Por: Helena Sthephanowitz, no Rede Brasil Atual 

aecio_aeroporto_tucanoNão foi só a cidade de Cláudio (MG), onde o senador Aécio Neves (PSDB) tem propriedade rural, que teve aeroporto construído com critérios que mais atendem a conveniência privada da oligarquia política dos Neves da Cunha do que ao interesse público.

A cidade de Montezuma, no norte do estado, também teve sua pista de pouso asfaltada quando o tucano era governador. A Perfil Agropecuária, empresa herdada pelo senador tucano, apropriou-se de 950 hectares de terras no município, que o estado de Minas Gerais considerava públicas, por meio de um polêmico processo de usucapião.

Nas licitações do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) realizadas em 2008 aparece uma única obra de pavimentação de aeródromo no interior: Montezuma. Justamente onde a empresa agropecuária do Aécio tem fazenda.

Como o uso da pista é muito raro, já que a cidade tem cerca de 7.500 habitantes, a população dos sem-avião questionou a obra, uma vez que há diversas outras necessidades urgentes a ser atendidas. Detalhe: já há aeroportos em municípios vizinhos da região, como Salinas, Janaúba, Rio Pardo de Minas e Espinosa.

Para se ter uma ideia das outras prioridades, só 27% dos domicílios contam com rede de esgoto. É a empresa estadual de água e esgoto (Copasa) que atende a cidade. Enquanto o orçamento estadual era gasto em obras convenientes para a família do governador tucano, foram necessários recursos federais do PAC Saneamento para melhorar as condições locais. Além do problema do saneamento básico, muitas ruas de Montezuma ainda não têm sequer pavimentação como a da pista do aeroporto.

A imagem abaixo mostra que pista do aeroporto é praticamente da extensão dos eixos da área urbana.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como a família de Aécio ficou dona de terras públicas em Minas

Pai do senador registrou em seu nome uma área de 950 hectares pertencente aos mineiros localizada numa das regiões mais pobres do estado. Aécio governador entrou em conflito com Aécio herdeiro

Por: Helena Sthephanowitz, no Rede Brasil Atual

aecio_corrupçao_tucanoMontezuma é um município mineiro no norte de Minas Gerais com um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Deputados, governadores e senadores mineiros poderiam desenvolver boas políticas públicas para elevar o desenvolvimento local, tais como incentivar as pequenas propriedades rurais familiares. No entanto o município é palco de uma triste história do patrimonialismo de oligarquias políticas do Brasil.

Terras rurais em Montezuma que foram registradas pelo estado de Minas como devolutas acabaram indo parar no patrimônio pessoal do senador Aécio Neves (PSDB) após uma disputa judicial por usucapião da empresa agropecuária de seu pai.

O fim desta história aparece com o patrimônio do senador engordando na declaração de bens feita nas eleições de 2014 em relação à de 2010. O segundo maior item de sua variação patrimonial foi no valor de R$ 666.660,00 referente a cotas da empresa Perfil Agropecuária e Florestal Ltda., herdadas de seu pai falecido.

Até aí estaria tudo bem. O problema é quando voltamos ao dia 2 maio de 2000, quando se iniciou uma disputa para apropriar-se de terras públicas, típica do coronelismo patrimonialista praticado nos rincões do Brasil arcaico.

A Perfil Agropecuária e Florestal Ltda. pertencia a Aécio Ferreira da Cunha, pai do senador tucano. A empresa entrou com processo de usucapião para registrar a propriedade de vastos 950 hectares de terras em Montezuma, em 2/5/2000. Já soa injusto a lei permitir que uma empresa de um ex-deputado, que morava desde a década de 1960 no Rio de Janeiro, ser tratada como se fosse de camponeses posseiros que adquirem o direito ao usucapião por trabalharem e viverem na terra. O juizado da comarca de Rio Pardo de Minas julgou a favor da empresa em 2001.

Na hora de a empresa registrar a fazenda no Cartório de Registro de Imóveis competente, a área já estava registrada em nome do Estado de Minas Gerais, como terras devolutas, em cumprimento a outra ordem judicial anterior da Apelação Cível nº 86.106/4.

A partir daí houve longa disputa judicial, com o estado de Minas recorrendo para ter as terras de volta. Desembargadores mineiros votaram a favor da família de Aécio. Recursos chegaram até ao Supremo Tribunal Federal (STF), o último arquivado em 2013, que também foi favorável ao lado do tucano.

É preciso lembrar que em 2000 o atual senador Aécio Neves era deputado federal pela quarta vez e deveria representar mais os interesses públicos dos cidadãos de Minas do que seu próprio interesse privado. De 2003 a 2010 foi governador de Minas. Presenciamos a inusitada situação política de, na prática, o interesse do Aécio herdeiro brigar na justiça com o de Aécio governador. O interesse patrimonial privado do herdeiro falou mais alto do que o interesse público da população que o cargo de governador deveria representar.

Uma gleba de 950 hectares de terras devolutas poderia ser a redenção de famílias camponesas pobres de Montezuma, através da geração de renda pela produção da agricultura familiar, em vez de apenas somar um pouco mais ao já elevado patrimônio da oligarquia política dos Neves da Cunha.

Este caso explica muito das raízes da desigualdade passada de geração para geração e da concentração das riquezas no Brasil nas mãos de poucos. Muitas destas riquezas vindas de um processo de apropriação de patrimônio público por mãos privadas, justamente pelas mãos de quem deveria defender o interesse e o patrimônio público.

Operação Grilo

O caso é outro e não aparece a família de Aécio Neves no meio das acusações, mas sim órgãos do governo tucano de Minas e velhas práticas de outras oligarquias políticas. Em 2011 a Operação Grilo prendeu nove pessoas acusadas de comporem uma organização criminosa para fazer grilagem de terras públicas justamente nesta região norte de Minas Gerais. Toda a cúpula do Instituto de Terras do Estado de Minas Gerais (Iter-MG) foi afastada.

Segundo as investigações, o esquema contava com servidores públicos do Iter/MG, funcionários de cartórios e servidores de prefeituras mineiras, para fraudar a posse de terras devolutas.

O promotor Daniel Castro, de Rio Pardo de Minas, disse na época: "São terras que pertencem ao estado de Minas Gerais e foram parar nas mãos de particulares."

As reproduções abaixo mostram a documentação que legitimou a posse de terras da União para a família.

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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Fifa não mostrou o grande gol

Vestindo uma roupa robótica, um jovem com paralisia foi o primeiro a chutar a brazuca no Itaquerão. A Fifa e a Globo não deram bola, mas o lance foi além do futebol: entrou para a história da ciência

Por: Cida de Oliveira, no Rede Brasil Atual 

exoesqueleto_fifa_copa_do_mundoQuase não deu para perceber. Enquanto a atenção de milhões de torcedores em todo o mundo estava voltada para o início do jogo Brasil x Croácia pela abertura da Copa, naquela tarde ensolarada de 12 de junho, na Arena Corinthians, em São Paulo, por três segundos a TV mostrou uma imagem inusitada: num canto do gramado, um homem usando um macacão com a estampa da bandeira brasileira, o número 10 no peito, se levantou e, assim que o juiz apitou, chutou a brazuca (bola oficial do torneio), que rolou poucos centímetros sobre um tablado. Não houve chamada, aviso ou explicação dos alto-falantes do estádio, nem do narrador da partida, já a postos.

Perceptivelmente constrangido, minutos depois do término da exibição o comentarista Ronaldo falou algumas palavras a respeito, que pouco ou nenhum sentido fez para os telespectadores desavisados. Mais tarde, pela internet, e muito depois, pelos telejornais da noite, é que o público pode ter uma ideia do que acontecera ali. Pela primeira vez na história, uma pessoa com paralisia conseguiu se levantar e se mover usando seus próprios sinais cerebrais. Para o paulista Juliano Pinto, 29 anos, da cidade de Garça, que há cerca de oito anos perdeu o movimento das pernas num acidente de carro, aqueles poucos segundos foram mágicos e jamais serão esquecidos. Para 170 cientistas de centros de pesquisas de vários países, foi o início de um grande passo da ciência.

Rápida, mas sem deixar de emocionar, a demonstração integra o projeto Andar de Novo, que desenvolve um dispositivo que permitirá a pessoas com paralisia voltar a caminhar utilizando seus próprios sinais cerebrais. A iniciativa, que conta com apoio financeiro da Agência Brasileira da Inovação (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que injetou R$ 33 milhões, é chefiada pelo cientista brasileiro Miguel Ângelo Laporta Nicolelis.

Nascido em São Paulo, filho de um juiz e de uma escritora, o neurocientista de 53 anos formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Há mais de 20 anos divide seu tempo entre o Brasil e os Estados Unidos. Aqui, ele coordena o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Lily e Edmund Safra (IINN-ELS), na capital potiguar, que criou – é outro grande patrocinador do projeto que representa esperança para Juliano e milhares de pessoas em todo o mundo que sofrem de paralisia. Lá, ele é codiretor do Centro de Neuroengenharia na Universidade Duke, na Carolina do Norte, onde também é professor titular de Neurobiologia.

Amante do futebol e torcedor “doente” do Palmeiras – o site de seu laboratório tem link direto para o do clube –, Nicolelis é um craque na área e hoje um dos mais importantes cientistas do mundo. O prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, chegou a incluir o conjunto de seu trabalho entre os dez com maiores chances de mudar o mundo para melhor. Entre as pesquisas que coordena estão justamente o que permitiu a Juliano chutar a brazuca.

“Miguel é um grande cientista e um grande amigo. Ao contrário de outros cientistas, ele está trabalhando pelas pessoas de todo o mundo e de seu país­ em particular. Seu trabalho traz um grande impacto ao Brasil, com escolas de ensino fundamental, hospital e centro de pesquisa científica”, diz o colaborador Gordon Cheng, referindo-se à atuação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, que mantém escola para estudantes pobres com foco no ensino de Ciências. Professor e coordenador do Instituto de Sistemas Cognitivos da Faculdade de Engenharia Elétrica e Tecnologia da Informação da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, o australiano é responsável pela supervisão técnica do Andar de Novo. Número 2 do time, ele chefia o laboratório onde foi desenvolvida a veste robótica usada por Juliano, uma espécie de pele artificial capaz de transmitir sensações táteis e a percepção dos membros inferiores.

Cheng trabalha com Nicolelis desde 2008, quando chefiava o Departamento de Robótica Humanoide e Neurociência Computacional do Instituto Internacional de Pesquisas Avançadas em Telecomunicações, em Kyoto, no Japão. Conheceu o brasileiro durante a experiência célebre, já relatada até a uma comissão do prêmio Nobel, em que seu robô humanoide, do outro lado do mundo, caminhou seguindo impulsos cerebrais emitidos por uma macaca do laboratório de Nicolelis. Os sinais, captados nos Estados Unidos, seguiram para o Japão por meio da internet e de lá voltaram. O experimento exigiu treino dos animais para reagir à mensagem artificial produzida pelo computador, bem como a programação de computadores para decifrar os impulsos cerebrais dos animais para, enfim, moverem braços mecânicos a tantos quilômetros de distância. “Foi ali que vislumbramos um caminho possível para que pessoas com paralisia voltassem a andar”, conta Cheng.

De acordo com o cientista, diversos laboratórios em todo o mundo desenvolvem hoje projetos semelhantes. No laboratório de Engenharia Robótica da Universidade da Califórnia em Berkeley, a terceira melhor do mundo, o engenheiro mecânico de origem iraniana Homayoon Kazerooni trabalha num projeto menos ousado. Baseado num computador com baterias acoplado a uma mochila que aciona um par de muletas com botões, que se encaixam em volta das pernas e fazem os movimentos de caminhada, além de proporcionar a estabilidade necessária para que paraplégicos possam caminhar, com segurança.

No entanto, segundo Cheng, até agora nenhum projeto foi capaz de fazer o cérebro se adaptar a um corpo complexo externo, tal como um robô, como acontece no Andar de Novo. “Nosso diferencial é a tecnologia da´pele robótica´, desenvolvida no meu laboratório, que, similarmente à pele humana, pode sentir temperatura, força, toque, impacto”, diz Cheng. Ele estima que daqui a dez anos será possível produzir exoesqueletos robóticos mais leves, mais baratos e sob medida. A título de comparação, a geringonça apresentada no Itaquerão é como o computador, que quando foi inventado ocupava andares inteiros dentro de prédios. Hoje em dia um celular, que cabe na palma da mão, processa informações em número e velocidade infinitamente maior. “Então chegará o dia em que os exoesqueletos deverão ser como uma peça de roupa”, diz Cheng.

Na Universidade Estadual do Colorado, também nos Estados Unidos, uma publicação especial conta em detalhes – e com entusiasmo – a participação da instituição no Andar de Novo. Nela, seu vice-presidente de Pesquisa, Alan Rudolph, afirma que o “projeto extrapola os limites do gramado”. Integrante do time de Nicolelis, ele captou recursos que possibilitaram a abertura, no ano passado, do laboratório Idea-2-Product, que conta com impressora 3D para concepção e desenvolvimento de produtos em alta velocidade. Ali foi produzida aquela espécie de touca que, na prática, fez a interface entre o cérebro de Juliano e o exoesqueleto.

Como Rudolph afirmou ao jornal Denver Post, do Colorado, exoesqueletos não são mesmo mais novidade – e sim o controle pela atividade cerebral. “Nosso exoesqueleto funciona a partir de sinais do cérebro que geram sinais associados com movimentos específicos. E esses sinais são detectados por dispositivos localizados no capacete que produzimos aqui na CSU”, explicou. “Nós determinamos maneiras de extrair esses sinais produzidos a partir do pensamento de quem está usando o dispositivo, que é enviado para o exoesqueleto entrar em ação.”

Interesse

Em dezembro, a prestigiada revista Nature, uma das melhores do mundo sobre ciência e medicina, incluiu o Andar de Novo entre os dez estudos com melhores perspectivas de resultados para este ano. Em junho, a versão da revista voltada para a divulgação de notícias sobre metodologias científicas, a Nature Methods, deu capa para a equipe de Nicolelis em Duke, sobre implantes cerebrais realizados em macacos que estão na base das pesquisas do brasileiro.

Em maio, o geneticista Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde, uma agência subordinada ao Departamento de Saúde do governo norte-americano, esteve em São Paulo, no laboratório montado na Associação de Apoio à Criança com Deficiência (AACD), uma das parceiras do projeto. Respeitado­ ­internacionalmente por ter chefiado o projeto Genoma Humano, que mapeou os genes que compõem o corpo humano, ele é também responsável por gerir um orçamento de US$ 38 bilhões para pesquisas em saúde em todo o mundo. Entusiasmado com o que viu, chegou a defender o Brasil como cenário fértil da pesquisa científica em neurociência.

Da mesma maneira que a tecnologia despertou o interesse de cientistas de vários países, que se juntaram ao projeto, setores conservadores da sociedade, ciên­cia nacional e mídia tradicional inclusive, partiram logo para o ataque. Mais do que críticas – sempre aceitas e bem-vindas para o debate e a reflexão em qualquer área do conhecimento, inclusive o científico –, o projeto e seu líder passaram a ser hostilizados. Desde o começo do ano, o jornal Folha de S. Paulo publicou reportagens que os desqualificavam, sempre na ótica carregada de sentimentos mais subjetivos que científicos. O blogueiro Reinaldo Azevedo logo manifestou na revista Veja sua torcida para “que os feitos de Nicolelis, um dia, estejam à altura de sua capacidade de gerar notícia”. Diego Mainardi também não perdeu a oportunidade e logo provocou: “Exatamente como Santos Dumont, Nicolelis inventou o que já havia sido inventado”. O músico Roger Moreira aderiu: “Que sucesso esse exoesqueleto, heim? Tem que colocar a tábua embaixo sempre? Não é muito prático, né? Show de bola… Cientista arrogante”.

Ativista virtual, Nicolelis rebateu sempre com vigor semelhante. Até mesmo a página de um dos maiores pesquisadores em células-tronco do mundo, o carioca Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), transformou-se em espaço de críticas. A Federação Internacional de Futebol (Fifa) e a Globo não deixaram por menos e descumpriram o combinado. A caminhada de Juliano por 25 metros até o meio de campo e o pontapé inicial do jogo não foram permitidos para poupar o “tapete” da festa.

A equipe de Nicolelis, que trabalhou incansavelmente por 17 meses, entregou o serviço com qualidade. E como parece ter antevisto um dos colaboradores, o pesquisador afegão Solaiman Shokur, de 34 anos, o chute inicial não era só da Copa. E sim de um projeto longo, uma conquista, o começo de algo maior não apenas para uma pessoa, mas para que milhares possam voltar a andar nos próximos anos.

sábado, 5 de julho de 2014

As quatro irmãs

Por: Adriano Belisário, no Pública

Negócios familiares, proximidade com governos, financiamento de campanhas e diversificação de atividades – da telefonia ao setor armamentício – compõem a história das gigantes Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez

Apesar de mais conhecidas no Brasil por sua atuação no setor de construção civil, as chamadas “quatro irmãs” – Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – hoje atuam em diversas outras atividades. As empreiteiras respondem apenas por parte dos lucros destes grupos econômicos que atuam em todos os continentes, com foco nos mercados da África, América Latina e Ásia. Juntas, possuem empreendimentos que vão do agronegócio à moda, passando pela petroquímica, setor armamentício, telefonia e operação de concessões diversas.

Os controladores, porém, permanecem os mesmos e os maiores ganhos ficam com as famílias que comandam as empresas. “O controle de base familiar é uma característica da formação do capital monopolista dos grupos econômicos constituídos no Brasil. Embora isso não impeça a abertura de capital, esta é feita de modo a preservar sempre o controle acionário dos ativos mais rentáveis pelas famílias controladoras. Isso confere à estrutura societária desses grupos um formato piramidal, em que um controlador último controla toda uma cadeia de empresas”, analisa o cientista político da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) João Roberto, que coordena o Instituto Mais Democracia.

Além do controle familiar, outro traço comum é o fato de serem grandes financiadoras de campanhas. Entre as eleições de 2002 e 2012, juntas, as quatro empresas investiram mais de R$ 479 milhões em diversos comitês partidários e candidaturas pelo Brasil. No Estado do Rio de Janeiro, o PMDB é de longe o partido mais beneficiado, com R$ 6,27 milhões, mais que a soma dos quatro seguintes: PT, PSDB, PV e DEM. Porém os repasses podem ser ainda maiores em anos não-eleitorais. Em 2013, por exemplo, somente a Odebrecht repassou R$ 11 milhões dos R$ 17 milhões arrecadados pelo PMDB. Veja mais no infográfico:

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Além dos contratos para obras públicas, o governo federal também incentiva o negócio dessas empresas através do BNDES. Por meio da Lei de Acesso à Informação a reportagem apurou que, entre 2004 e 2013, o banco realizou 1665 transferências para as construtoras das “quatro irmãs”, totalizando mais de R$ 1,7 bilhão em empréstimos. Deste total, a Odebrecht e Andrade Gutierrez foram as maiores beneficiadas, levando R$ 1,1 bilhão. As duas também lideram o ranking de desembolsos para operações de exportação entre 2009 e março de 2014. Juntas, levaram mais de U$ 5,8 bilhões em empréstimos neste segmento. “É importante chamar a atenção para o fato de que o BNDES também tem participações, através do BNDESPAR no capital de empresas controladas pelas referidas empreiteiras, como a CPFL, controlada pela Camargo Correa; a Braskem, controlada pela Odebrecht; e da Oi/Telemar, controlada pela Andrade Gutierrez”, destaca João Roberto.

Conheça a história dessas quatro gigantes.

OAS

“Obras Arranjadas pelo Sogro”, “Obrigado Amigo Sogro”, “Organização Apoiada pelo Sogro”… As paródias com a sigla da construtora OAS vão tão longe quanto a imaginação permite. Em comum, a eterna gratidão da empresa ao “sogro”, que pode ser descrito com outras três letras: ACM, ou Antônio Carlos Magalhães, político símbolo do coronelismo na Bahia. Já o referido genro atende pelo nome de Cesar Araújo Mata Pires, dono do grupo empresarial, que debutou na lista de bilionários da Forbes em 2014 com aproximadamente R$ 3,6 bilhões em patrimônio pessoal.

Criada em 1976, a empresa levou apenas oito anos para ficar entre as dez maiores do Brasil. Além do “A” de Cesar Araújo, a sigla da companhia traz outros dois sobrenomes: “O” de Durval Olivieri e “S” de Carlos Suarez. Em comum, os três tinham ainda experiência de trabalho na construtora Odebrecht.

Assim, a OAS começou a atuar por meio de subcontratos com a Odebrecht. Foi por meio dela também que Cesar Araújo conheceu o então governador Antonio Carlos Magalhães. O futuro encontro dele com a filha de ACM iria aquecer não só seus corações, mas também os negócios da empresa.

Segundo o historiador Pedro Campos, da Universidade Federal Fluminense, a OAS atuava apenas no nordeste até o final da década de 80, em especial nos estados governados por aliados de ACM. “A ARENA era muito poderosa no norte e nordeste. E Antonio Carlos tinha muitos aliados ali. A OAS chega ao sudeste apenas na década de 90”, diz. Ex-proprietário da TV Bahia, retransmissora da Globo na região, e filiado ao PSD, Mata Pires de fato deve muito ao sogro pela ascensão da OAS.

Hoje, no Rio de Janeiro, a empresa é responsável pela construção da Transcarioca, parte do consórcio Porto Novo S/A e é uma das controladoras do Metrô Rio, por intermédio da Invepar. Dentre os projetos ligados à Copa e Olimpíadas, a OAS também participa dos consórcios do Porto Maravilha (R$ 7,7 bilhões), Transolímpica (R$ 1,6 bilhão), Reabilitação Ambiental da Bacia de Jacarepaguá (R$ 673 milhões), do VLT (R$ 1,2 bilhão), além de ter feito as obras de controle de enchentes na Praça da Bandeira, próximo ao Maracanã (R$ 292 milhões).

A OAS foi a empresa que mais financiou campanhas de Sergio Cabral para o governo do Estado: foi repassado R$ 1,8 milhão diretamente para suas duas candidaturas, em 2006 e 2010. Em 2008, a construtora também investiu no principal candidato à prefeitura do Rio: foram R$ 350 mil diretamente para a campanha de Eduardo Paes. Ainda que se leve em conta os R$ 850 milhões repassados para o comitê financeiro do PMDB no Rio de Janeiro entre 2006 e 2012, os financiamentos de campanha são uma bagatela perto dos contratos bilionários firmados com a empresa durante a gestão de ambos.

Apesar do êxito da empresa em todo o país, as condições de trabalho para os operários da OAS estão longe de serem as melhores. Após fiscalização em obras do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo no ano passado, o Ministério Público e Ministério do Trabalho encontraram nada menos que 111 operários em condições análogas à escravidão. A OAS foi obrigada a pagar multa de R$ 15 milhões.

A OAS foi a empreiteira entre as “quatro irmãs” que mais demorou para se internacionalizar, expandindo seus negócios apenas em 2003. Atualmente já realiza diversas operações internacionais, algumas delas por meio da OAS Finance Limited, subsidiária nas Ilhas Virgens Britânicas, e  toca projetos em praticamente toda América do Sul e Central, além de Moçambique, Angola, Guiné Equatorial, Gana e Guiné, na África.

No Brasil, a OAS foi uma das investigadas pela Polícia Federal, durante a Operação Caixa Preta, por irregularidades na licitação de obras em 10 aeroportos. A Justiça Federal do Distrito Federal julga os envolvidos por fraude nas licitações e formação de quadrilha. Quatro obras ainda estão em fase de inquérito no Ministério Público: os aeroportos de Uberlândia, Cuiabá, Corumbá e de Brasília.

O Império de Areia

Em 1926, seria difícil imaginar que as carroças de Sebastião Ferraz de Camargo um dia fariam de sua futura viúva a mulher mais rica do Brasil, com um patrimônio de US$ 13 bilhões. Aos 17 anos o jovem de Jaú (SP) transportava areia para a construção de estradas no interior paulista. Dez anos depois, fundou a Camargo Corrêa & Cia Ltda em parceria com o advogado Sylvio Correa, que deixaria sua marca no nome da empresa mesmo tendo saído dela em 1964. Em 1985, Sebastião Camargo já comandava a maior empreiteira do Brasil e era doutor honoris causa na Escola Superior de Guerra – mesmo tendo o primário inconcluso.

5-imagemDe fato, não foram apenas os cavalos que levaram a carroça de Sebastião ao topo da economia brasileira. Sua decisiva proximidade com a cúpula de Brasília começou com a construção das vias de acesso à própria capital, no Governo JK, mas foi estreitada com a ditadura militar. “A Camargo Correa é a maior empreiteira do regime militar, a mais vinculada com o projeto da ditadura”, afirma o historiador Pedro Campos.

Na época, Sebastião se tornou alvo de grupos guerrilheiros, como a Ação da Libertadora Nacional (ALN) e a VPR, comandada por Carlos Lamarca. Seu nome é mencionado em depoimentos e publicações da ALN como alvo preferencial, ao lado de outros empresários, como Pery Igel (Grupo Ultra/Ultragás) e Roberto Campos (Univest/Investbanco). “Existe uma características comum entre os três supracitados cavalheiros: todos financiam a repressão policial da ditadura, pagam os carrascos da OBAN (Operação Bandeirantes) e dão prêmios de milhões de cruzeiros por cada guerrilheiro assassinado”, publicou a ALN na quinta edição de seu jornal “Venceremos”.

A proximidade com a ditadura também lhe rendeu diversas obras públicas para alavancar seu negócio, mesmo fora do Brasil. A participação de sua empresa na construção da hidrelétrica de Itaipu, por exemplo, teria sido uma imposição ao governo de Ernesto Geisel feita por seu parceiro de pescaria, o ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35 anos.

Avesso a entrevistas, Sebastião Camargo declarava abertamente sua simpatia pelo regime autoritário, mesmo após a redemocratização. “Acho que o grande progresso do Brasil foi no governo militar”, disse o fundador da empreiteira em entrevista para a Folha de São Paulo, em 1990.

Enquanto se fortalecia na construção civil, Sebastião começou a diversificar e internacionalizar seus negócios. Em 1978, a empresa estreou no exterior na liderança de um consórcio internacional para construir uma usina hidrelétrica na Venezuela. A estratégia funcionou. Em 2012 pouco mais da metade da receita líquida de R$ 23,372 bilhões da empresa veio do ramo de cimento (com a InterCement) ou engenharia; o restante vem de áreas como concessões de transporte e energia (CCR, CPFL Energia), indústria naval (Estaleiro Atlântico Sul), incorporação imobiliária e vestuários e calçados (Alpargatas). Pertencem a este último grupo, inclusive, as marcas mais conhecidas da empresa, como as Havaianas, Topper, Rainha, Mizuno e Osklen.

O império da mais antiga das empreiteiras se viu fortemente abalado em 2009 com a operação Castelo de Areia da Polícia Federal. A investigação sobre crimes financeiros e lavagem de dinheiro da empresa trouxe à tona denúncias de formação de cartel, fraudes a licitações e pagamentos milionários a políticos de alto escalão, que beneficiariam inclusive o atual vice-presidente Michel Temer. Envolvendo diversos partidos, como o PMDB, PT, PSDB, PR, DEM, PCdoB, PSB e PP, a investigação causou embaraços tanto ao governo Lula como à oposição.

A Camargo Corrêa foi denunciada pelo Ministério Público Federal por formação de cartel nas obras do metrô de Salvador junto com a Andrade Gutierrez, Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão e outras empresas que também estariam envolvidas no acordo. Para se defender, contratou os serviços de advocacia do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos por nada menos que R$ 15 milhões. A batalha jurídica chegou ao Supremo Tribunal de Justiça, que suspendeu a operação em 2011, alegando ilegalidade na coleta de provas.

Ainda hoje, porém, a Camargo Corrêa sente os efeitos da investigação. Documentos ausentes do processo original da Castelo de Areia chegaram ao Procurador-Geral da República no final do ano passado e podem reabrir o caso, que envolveria também um esquema de pagamento de propinas na concessão do Metrô Rio durante a gestão de Sérgio Cabral. Segundo reportagem da Revista Época, a Polícia Federal teria descoberto tardiamente a relação entre parte das provas apreendidas na operação e o pagamento de uma dívida de R$ 40 milhões do Estado do Rio com a Camargo Corrêa por intermédio da Opportrans. Esta empresa do Grupo Opportunity teria quitado a dívida do Estado em 12 parcelas em 2008, livrando-o assim de cinco ações judiciais movida pela empreiteira. Por sua vez a Opportrans ganhou a renovação de seu controle da concessão do Metrô Rio até 2038, porém a repassou um ano depois para a OAS e os fundos de pensão do Banco do Brasil e da Petrobras. A reportagem aponta que, para cada parcela recebida pela Camargo Corrêa, 5% teria sido destinado a Wilson Carlos de Carvalho, secretário de Governo e coordenador das campanhas de Cabral. Amigo de longa data, marido de sua prima e ex-sócio do Governador, Carlos Emanuel Miranda também teria recebido o mesmo quinhão, por meio de pagamentos no exterior.

Em 2010, ao lado da OAS, a Camargo Corrêa foi a empresa que mais investiu na campanha de Sérgio Cabral para o governo do Estado. Na ocasião, a empresa doou R$ 2 milhões para o PMDB apenas no Rio de Janeiro. Deste total, R$ 1 milhão foi para a campanha de Cabral. Antigo aliado do PMDB, Lindbergh Farias (PT) recebeu o mesmo valor para sua candidatura ao senado. Hoje rival da chapa peemedebista – pré-candidato ao governo do Rio – Lindbergh recebeu ainda R$ 250 mil diretamente do empresário Julio Gerin de Almeida Camargo naquele ano.

Dentre as quatro irmãs, a Camargo é a empreiteira com menor participação em projetos envolvendo Copa e Olimpíadas. Suas participações se dão por intermédio da Invepar, empresa controlada por ela junto com os três maiores fundos de pensão do país. A Invepar está presente nas obras da Transolímpica e do VLT do Centro do Rio de Janeiro, cujos orçamentos somados chegam a R$ 2,8 bilhões. Por meio da Intercement, outra empresa do seu grupo econômico, a Camargo Corrêa consta ainda entre os condenados pelo CADE no caso do “cartel do cimento”, onde o órgão aplicou a maior da multa de sua histórica: R$ 3,1 bilhões.

De Minas para o mundo

Santo Estevão, Sant’Ana e São Miguel. Assim são chamadas as administradoras que controlam a holding Andrade Gutierrez S.A, segundo levantamento do projeto Proprietários do Brasil. Por trás da santa trindade estão cerca de vinte membros da família Andrade e dois da Gutierrez, que dividem entre si o controle das três empresas; à frente, um dos maiores grupos econômicos do Brasil, com uma receita líquida de quase 14 bilhões de reais em 2012, segundo seu último relatório financeiro publicado.

Da pequena empresa iniciada em Minas Gerais na década de 40 pelos irmãos Roberto e Gabriel Andrade, ao lado do amigo Flávio Gutierrez, até a atual multinacional presente em 44 países (incluindo grandes potências como Alemanha, Rússia, Índia e países com economia de menor expressão como Gana, Ucrânia e Argélia), há um longo caminho marcado por um faro apurado para oportunidades.

Irmão de Roberto e Gabriel, José Maurício de Andrade preferiu a política do que a engenharia. Entre 1947 e 1969, ele foi eleito duas vezes deputado estadual e três vezes deputado federal. Durante a gestão de Juscelino Kubitschek no estado de Minas Gerais, José Maurício foi líder do governo na Assembleia Legislativa, além de ter trabalhado na candidatura do conterrâneo.

Não foi à toa que os negócios dos seus irmãos se expandiram na esteira do crescimento de JK no cenário político nacional: as primeiras obras rodoviárias da empresa se deram quando ele assumiu o governo; e a estreia fora do Estado, com as obras da BR-3 que ligou o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, deu-se quando JK chegou à presidência.

Como outras empreiteiras, a Andrade Gutierrez encontrou sua mina de ouro nas obras públicas. Segundo reportagem da Revista Exame, esses contratos correspondiam a 98% do faturamento da empresa em 1989, durante o Governo Sarney. Na mesma época, percebendo a retração dos investimentos públicos para o setor de infraestrutura que se desenhava por conta da crise econômica do país na década de 1980, foi a vez de outro Andrade, filho de Roberto, alinhar a empresa com os novos rumos da economia. Naquela época, Sergio Andrade foi o grande mentor da reestruturação da Andrade Gutierrez e sua expansão para além da construção.

Mas se Sérgio Andrade arquitetou a entrada da Andrade Gutierrez no ramo das teles, foi Otávio Marques quem realizou a engenharia da operação. Em 1992, ele ingressou na empresa trazendo na bagagem sua experiência na presidência da Telemig e da Telebrás, além de sua atuação na Cemig. Seis anos depois, a Telebrás foi vendida na maior privatização do Brasil por mais de R$ 22 bilhões.

Na ocasião, a Tele Norte Leste (posteriormente transformada em Telemar/Oi) foi entregue a um consórcio composto pela Andrade Gutierrez e outras empresas, como a La Fonte Participações, de Carlos Jereissati, irmão do ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati. Segundo dados do último relatório, o setor de telecomunicações foi responsável por 43,2% da receita bruta em 2012: aproximadamente R$ 7,2 bilhões.

Logo depois, em 1998, a Andrade Gutierrez criou a CCR para atuar no mercado de concessões para administração de rodovias no Brasil. Assim, a empresa encerrou o século passado com o caminho pavimentado para expandir no novo milênio.

O sucesso da estratégia de Sérgio Andrade e Otávio Azevedo é evidente nos números da companhia. Em 2010, o setor de telecomunicações respondia por 56,76% de a receita bruta de R$ 18 bilhões da empresa.

Àquela altura, Sérgio já havia passado o bastão da presidência do grupo Andrade Gutierrez para Otávio Azevedo, que permanece no cargo até hoje. Atualmente, a CCR possui participação em diversos consórcios no setor de transporte não só no Brasil, como também no exterior. A lista de empresas do grupo CCR é grande e cruza fronteiras: Ponte Rio-Niterói, NovaDutra, ViaLagos, RodoNorte, AutoBAn, ViaOeste, RodoAnel, Renovias, ViaQuatro, Actua, Engelog, Controlar, EngelogTec, Barcas, SAMM, STP, Transolímpica, Aeroporto Internacional de Quito, Aeroporto Internacional de San José e Aeroporto Internacional de Curaçao.

Atualmente, também fazem parte da cadeia de controle da Andrade Gutierrez empresas como a Light, Sanepar e a Cemig. A mais nova aposta do grupo é a Logimed, empresa especializada na gestão de suprimentos, operação logística e sistemas de tecnologia da informação para hospitais. A empresa presta serviços em São Paulo, para a Santa Casa de São Paulo, Santa Casa de Marília e a Unimed, e em Minas Gerais, para o Lifecenter Hospital.

Entre os dez maiores projetos relacionados à Copa e Olimpíadas no Rio de Janeiro, a Andrade Gutierrez foi a segunda maior beneficiada. A empresa garantiu seu quinhão nos orçamentos para a reforma do Maracanã (R$ 1,2 bilhão), Transolímpica (R$ 1,6 bilhão), Parque Olímpico (R$ 2,1 bilhões), VLT do Centro do Rio (R$ 1,2 bilhão), Transcarioca (R$ 1,9 bilhão) e Reabilitação da Bacia de Jacarepaguá (R$ 673 milhões). Na maior parte deles, a Andrade Gutierrez tem a Odebrecht como parceira no negócio. São exceções apenas as duas últimas obras.

Segundo matéria da Folha de São Paulo, a Andrade Gutierrez compartilhou documentações com a Odebrecht em uma concorrência para obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) nas favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Ambas empresas também foram alvo de denúncia do Ministério Público por suspeita de formação de cartel em São Paulo para a construção da Linha 5 do Metrô.

Dentre grandes, a gigante

A família Odebrecht tem muito a comemorar no aniversário deste ano de 70 anos de empresa. Maior beneficiada direta com os recursos investidos em obras ligadas à Copa e Olimpíadas no Rio de Janeiro, ela é hoje a líder no setor de construção civil no Brasil e uma multinacional de peso.

Dos dez maiores projetos já licitados envolvendo a Copa e Olimpíada no Rio de Janeiro, a Odebrecht participa de todos, com exceção de dois: a Transcarioca e o projeto de despoluição das lagoas da Barra e Jacarepaguá – neste, é suspeita de ter enviado uma proposta de cobertura para cumprir com uma divisão de obras com suas concorrentes, de acordo com uma denúncia da revista Época.

O orçamento total dos outros oito projetos com participação da Odebrecht em consórcios ultrapassa R$27 bilhões.

A empresa já foi investigada pelo Ministério da Justiça por cartelização em obras em portos no Rio Grande do Sul e São Paulo e denunciada pelo Ministério Público de São Paulo por participação em um cartel para obras na linha 5 do metrô da capital paulista. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica(CADE) também apurou práticas de intimidação à concorrência por meio de acordos de exclusividade com fornecedores, no processo que trata da construção da Hidrelétrica de Santo Antônio e Jirau em 2010.

A história da empresa começa com a chegada de Emil Odebrecht ao Brasil, em 1856. Em terras tropicais, o engenheiro alemão trabalhou na construção de estradas no sul do país. Tempos depois, seu neto Emílio Odebrecht fundou uma empresa neste ramo em Recife, em 1923. O negócio faliu, mas inspirou o bisneto Norberto Odebrecht a fundar a Construtora Norberto Odebrecht.

Hoje, a Odebrecht possui mais de R$ 142,3 bilhões em ativos, de acordo com seu último relatório financeiro. Ao todo, são mais de 175 mil funcionários trabalhando em 25 países dos cinco continentes, sendo 27% estrangeiros. A companhia atua em diversos setores, como petróleo, agronegócio, meio ambiente, defesa, transporte, finanças, entre outros. Apesar de reconhecida principalmente como empreiteira, grande parte de sua receita não vem do ramo de construções ou do mercado imobiliário, mas por meio do refino do petróleo brasileiro – mantendo íntima e polêmica relação com a Petrobras.

No final do ano passado, por exemplo, veia à tona a suspeita de superfaturamento em um contrato de US$ 825 milhões com a petrolífera: ali constavam coisas como o valor R$ 7,2 milhões para aluguel de três máquinas de fotocópias e R$ 22 mil como salário mensal de um pedreiro nos Estados Unidos,segundo documentos obtidos pela Agência Estado.

O estreitamento de laços entre a Odebrecht e a Petrobras deve muito a um Emílio, mas não aquele da família Odebrecht. Embora tenha realizado a primeira obra para a Petrobras – um oleoduto na Bahia – no mesmo ano em que a empresa nasceu, em 1953, – o que define como início de uma importante parceria que perdura até hoje em seu site, a empresa não era mais que uma empreiteira regional de pequeno porte até o início da ditadura militar. A partir de então as coisas mudaram – e rápido, em especial após o governo de Emílio Médici (1969-1974).

Para o historiador Bernardo Galheiro, sua chegada ao poder (1969-1974) estava ligada a uma conciliação entre os interesses de empresários paulistas e baianos. “Na época, a Odebrecht era ligada com outros setores da burguesia baiana, como o grupo Rocha Miranda, família Calmon de Sá e a família Mariani. No governo Médici, eles passaram a dividir o assento do aparato estatal com a burguesia de São Paulo. No de Geisel, assumem o comando”, diz.

“Quando Geisel assume a presidência da Petrobras, ainda no Governo Médici, ele passa a contratar sistematicamente a Odebrecht; quando assume a presidência do país [1974-1979], a empresa dá um salto”, confirma Pedro Campos, que pesquisou a ascensão das empreiteiras no regime militar. Os números do período não deixam dúvida: em 1971, a empresa era a 19ª maior construtora do país; dois anos depois alcançava o terceiro lugar.

Não por acaso, o primeiro projeto da Odebrecht fora do Nordeste ocorre naquele período, a construção da sede da Petrobras no Rio. Um marco não apenas da expansão da empresa, mas da aproximação que seria decisiva para a futura diversificação de seus negócios. Durante a década de 1970, a Odebrecht assumiu obras importantes, como o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o campus da Universidade da Guanabara (atual UERJ) e a Usina Nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Com o fim do “milagre econômico”, veio a retração dos investimentos públicos em obras. Então, já como uma das maiores empreiteiras do país, a Odebrecht passa a comprar empresas no setor petroquímico. Segundo o site da companhia, “a estratégia adotada pela Odebrecht para construir uma petroquímica brasileira líder no setor na América Latina envolveu uma série de outras aquisições. Muitas possibilitadas pelo Programa Nacional de Desestatização, iniciado na década de 90, no qual o Governo Federal vendeu participações em empresas da área”. Reunindo todas as empresas do ramo incorporadas, em 2000 a Odebrecht cria a Braskem.

No Governo Lula, a Braskem consolidou o domínio do setor petroquímico no Brasil, tendo a Petrobras e o BNDES como acionistas do negócio. Concorrendo apenas com empresas estrangeiras, em um país com um dos maiores impostos do mundo para importação de resinas termoplásticas, a Braskem controla o preço de derivados de petróleo. No ano passado, em requerimento para a redução das taxas de importação, o deputado Sandro Mabel (PMDB) considerou a Braskem um “monopólio com mais de 80% do mercado de resinas termoplasticas”, cujo poder de mercado cria “inflação nos produtos que são consumidos pela classe mais necessitada”.

A Odebrecht vem recebendo seguidamente financiamentos bilionários do BNDES: entre 2004 e 2013, a Fundação Odebrecht, a construtora e a Odebrecht Óleo e Gás receberam juntas mais de R$ 498 milhões, segundo levantamento feito pela reportagem com dados obtidos no site da empresa e por Lei de Acesso à Informação. Mas a preferida do BNDES é a Braskem: apenas entre 2008 e 2013, esta empresa do grupo recebeu mais de R$ 4,1 bilhões em empréstimos. A Odebrecht é ainda a maior beneficiada com desembolsos do BNDES para operações de exportação. Entre 2009 e março de 2014, foram repassados mais de U$ 5 bilhões para a empresa.

Recentemente, a família entrou também no setor armamentício, com a Odebrecht Defesa e Tecnologia, que “concebe, implanta, integra e gerencia tecnologias e produtos de uso militar e civil”. Entre 2007 e 2010 o orçamento do Ministério da Defesa aumentou 45%. E a Odebrecht foi uma das maiores beneficiadas  pelos investimentos na Marinha. Junto com a empresa francesa DCNS abocanhou um contrato de R$ 21 bilhões – sem licitação – para a construção do submarino nuclear brasileiro, a ser entregue em 2023, além quatro submarinos convencionais.

Mesmo após deixar a presidência, Lula continua fortalecendo a empresa dentro e fora do país. Em viagem oficial o ex-presidente escalou um executivo da Odebrecht para a comitiva que representaria o país na Guiné Equatorial. De acordo com levantamento da Folha de São Paulo, feito em março de 2013, a Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa pagaram quase metade das viagens internacionais de Lula, após deixar a presidência, até aquela data.

Segundo Emílio Odebrecht Jr, sua aproximação com Lula começou em 1992, quando Mário Covas apresentou um ao outro. Em 2008, o empresário afirmou que o encontro gerou “uma relação extremamente gratificante” e sentenciou: “O presidente Lula não tem nada de esquerda, nunca foi de esquerda”.

Três anos depois, na apresentação do projeto do Itaquerão – construído também pela empresa – o mesmo Emílio Odebrecht saudou a chegada de Lula exclamando: “Meu chefe!”.

*Adriano Belisário realizou a pesquisa em parceria com o o projeto “Quem São Os Proprietários do Brasil?

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Na Copa do Mundo, o pessimismo foi goleado

A organização eficaz do mundial de futebol e o entusiasmo popular derrotam as previsões sombrias

Por: Cynara Menezes, no CartaCapital 

copa do mundoA maior virada da Copa do Mundo aconteceu nos estádios, mas não exatamente em uma partida entre duas seleções. O fiasco previsto durante a fase de preparação do torneio não se confirmou e o evento surpreende até os mais otimistas, raros antes do início do Mundial. Os prognósticos do “desastre” e do “fracasso sem precedentes” deram lugar a um estado de ânimo completamente oposto. Talvez não seja a “Copa das Copas” como defende a presidenta Dilma Rousseff, tampouco desenha-se o vexame anunciado (e freneticamente esperado) por muitos.

De uma tenebrosa “epidemia de dengue” à “vergonha” antecipada pelo oportunista Ronaldo, falou-se de tudo contra o torneio. O ex-jogador é, aliás, um fenômeno. Apoiou a Copa, depois a criticou. No mesmo momento, por coincidência, declarou apoio a Aécio Neves na sucessão presidencial. Novamente voltou a elogiar a competição no papel de comentarista da Rede Globo.

A má vontade da mídia nativa contagiou os jornalistas estrangeiros a ponto de, nos últimos dias, vários meios de comunicação do exterior virem a público fazer um mea-culpa em relação ao pessimismo demonstrado nos meses que antecederam o evento. O espanhol El País disse com todas as letras: “Não era para tanto”. Segundo o jornal, esperava-se “uma espécie de apocalipse brasileiro, em que pouco ou nada ia funcionar como devia”.

“Havia quem pintasse uma imagem negra desta Copa do Mundo que se podia resumir assim: estádios sem terminar aos que se chegava por estradas inconclusas, rodeados de manifestantes antifutebol e policiais antimanifestantes em meio a gangues de delinquentes assaltando o torcedor desesperado, que se maldizia por não haver se conformado em assistir às partidas pela televisão de sua casa e que não podia fugir dali porque o metrô não funcionava por causa de uma greve selvagem que afundava a cidade em um engarrafamento monstro, escuro e pronto”, escreveu o diário madrilenho.

O francês Le Monde saudou “a improvisação brasileira” que “se revela à altura do evento” e falou em “milagre” ao elogiar uma Copa feita à imagem e semelhança do País: “Bagunçado e simpático, descontraído e acolhedor”. O New York Times fez um resumo sob o título: “Previsões apocalípticas viraram pequenos soluços”. O Washington Post ecoou o otimismo: “Copa é só cerveja, praia e futebol”. Os britânicos Guardian e BBC seguiram em idêntica toada. Com aeroportos e estádios em ordem e as estatísticas sobre os gols se multiplicando, alguns meios estrangeiros chegam a ecoar Dilma: a “melhor Copa do Mundo da história”. Verdadeira zebra.

Na mídia brasileira, apenas o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, reconheceu o excesso de “negativismo” prévio. “Um balanço parcial do que aconteceu até agora livra o País da ameaça de um fracasso, fomentado pelos que, sob o pretexto de alertar para nossas deficiências, torciam contra o próprio país”, escreveu o diário gaúcho em editorial. E revelou o que muitos partidários da Copa perceberam desde o começo e que ficou evidente com o sucesso do evento. Havia críticas legítimas à realização do Mundial, mas muitos o atacaram com intuito meramente político. Resta uma pergunta: o Zero Hora integrava qual dos dois grupos?

Se o mau humor no jornalismo foi um fator decisivo para o pessimismo generalizado, a recíproca não se concretizou. Uma vez iniciada a Copa, uma onda espontânea de adesão surgiu e encontrou nas redes sociais o principal termômetro, motivado não só pela organização do Mundial em si, mas, principalmente, por um componente ignorado tanto pela mídia quanto pela oposição, o fator “boleiro”. Em outras palavras: a torcida se dispôs a colocar, ainda que brevemente, as insatisfações de lado para apreciar os jogos.

A força dos “boleiros” foi detectada em uma análise inédita feita pelo Laboratório de Estudos de Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo. Os pesquisadores têm monitorado diariamente as redes sociais desde o início da Copa e chegaram a conclusões curiosas. A primeira delas é cromática: se durante as manifestações de junho passado a cor predominante nas imagens divulgadas pela rede foi o preto, com a Copa predomina o verde e amarelo das camisetas da Seleção, das bandeiras e dos gramados. Em termos de palavras, a frase “não vai ter Copa”, que se espalhava pela internet antes da abertura, diminuiu de forma abrupta à medida que os jogos empolgavam.

De forma pioneira, o Labic coletou em tempo real todas as imagens que apareceram no Twitter e observou um predomínio dos “memes” (fotos manipuladas com frases cômicas) nos posts mais compartilhados, o que reflete o bom humor atual em relação à Copa. Por trás dos “memes” estão os “boleiros”, ocupando os espaços midiáticos da rede à frente de quaisquer outros perfis.

“Mesmo sem deixar de lado suas convicções e de exercer a crítica quanto à forma com que a Copa foi organizada, o discurso ‘boleiro’ contaminou a rede de tal maneira que reduziu a visibilidade do público anti-Copa, ofuscou o discurso político”, avalia o coordenador do Labic, Fábio Gouveia. “O ‘não vai ter Copa’ permanece no dia seguinte à abertura, mas não resiste à repercussão dos primeiros jogos e cai de forma brutal. O verde e amarelo nas imagens prevalece, sobretudo pelo fato de as partidas serem disputadas durante o dia, com os estádios coloridos, mas também, de certa forma, pela alegria.”

Sobre o interesse dos estrangeiros, uma empresa de procura de hotéis, a Trivago, comparou as buscas de turistas do mundo por destinos brasileiros nos cinco primeiros meses de 2014 com o mesmo período do ano passado, e constatou aumento de 372%. Australianos, norte-americanos, holandeses e suíços puxaram as estatísticas para cima. Começam a surgir ainda pesquisas positivas que atestam a satisfação dos turistas com a Copa, como a realizada em Manaus pela Secretaria de Turismo estadual (80% dos ouvidos se declararam satisfeitos com quesitos como infraestratura urbana, equipamentos e serviços turísticos e 97% com a hospitalidade dos amazonenses).

A reviravolta na imagem do evento animou o governo. Nas pesquisas encomendadas pelo Palácio do Planalto, a reversão do pessimismo em relação à Copa do Mundo aparece de forma incontestável. A avaliação sobre a organização tem 58% de ótimo e bom, com a recepção aos turistas e os estádios no topo das análises positivas. Também a segurança pública e o funcionamento dos aeroportos derrotaram as previsões mais pessimistas. Não houve caos aéreo e jogadores e visitantes elogiaram o sistema. Transporte público e trânsito permaneceram, no entanto, com as percepções negativas de antes da Copa. Sinal de que o “boleiro” não é necessariamente alienado.

O recall de notícias feito pelo Planalto mostra que o noticiário esportivo passou a predominar sobre as notícias de manifestações e da organização do evento. A invasão dos torcedores chilenos ao Maracanã foi pouquíssimo mencionada pela mídia, apesar da tentativa, por parte de alguns veículos, de esticar um assunto menor. O engajamento é alto: apenas 16% dos entrevistados afirmaram não ter assistido a nenhum jogo, e 41% dos torcedores afirmaram ter assistido a todos os jogos que puderam, não somente aqueles da Seleção.

Outro levantamento, feito pelo PT, mostrou que os insultos à presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo tiveram efeito contrário ao pretendido pelos torcedores presentes no Itaquerão. Desde 12 de junho, as menções negativas a Dilma, nas redes sociais, têm diminuído. Até o início da Copa, entre as 30 mil citações diárias à presidenta, dois terços eram negativas. Depois do espetáculo de grosseria no primeiro jogo, ela passou a ter 60% de menções positivas nas redes sociais.

Os torcedores brasileiros nos estádios são os atuais alvos das críticas da mídia especializada. No “País do futebol”, chama a atenção dos repórteres estrangeiros uma plateia desanimada e pouco criativa se comparada àquelas dos demais países, incapaz de vibrar com as vitórias da própria Seleção, a ponto de o atacante Neymar pedir aplausos após um de seus dois gols na vitória de 4 a 1 sobre Camarões. O máximo de empolgação demonstrada pela torcida é o Hino à capela. Ao contrário dos argentinos, não fizeram nem mesmo uma música para animar o time. Preferiram recorrer ao pouco original “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. A turma que se esforçou para obter um ingresso anda desmentindo um surrado ditado: o melhor do Brasil é o brasileiro.

*Reportagem publicada originalmente na edição 806 de CartaCapital, com o título "O pessimismo goleado"

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Comissão da Verdade lamenta que Forças Armadas não reconheçam tortura

Por: Helena Martins, no Agência Brasil 

comissao da verdadeA Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou hoje (2) nota em que afirma que “deplora e lamenta” a conclusão das Forças Armadas quanto ao uso de instalações do Exército, da Marinha e da Aeronáutica para prática de tortura em suas instalações, durante a ditadura militar. Em relatórios enviados à CNV e divulgados pela comissão no dia 18 de junho, as Forças Armadas concluíram que não houve desvio de finalidade do uso de suas instalações.

O coordenador da CNV, Pedro Dallari, disse que a posição dos militares representa uma posição política contrária à colaboração e à busca da verdade. “Se uma estrutura do Estado age dessa maneira surpreendente e completamente dissociada da realidade, que tipo de compromisso tem com a história?”, disse Dallari à Agência Brasil.

A conclusão das Forças Armadas foi apresentada após sindicâncias, em resposta à CNV, que questionou as corporações sobre desvios de finalidade de sete instalações, alocação de pessoal para o desenvolvimento de atividades nesses locais, emprego de recursos financeiros públicos para custeio e manutenção deles, e de que forma foi feita a prestação de contas relativa a esses recursos, entre outras questões. Exército, Marinha e Aeronáutica negaram desvios e alegaram que seguiram a lei.

“Os dados disponíveis não permitem corroborar a tese apresentada por aquela comissão, de que tenha ocorrido desvio formal de finalidade do fim público estabelecido para as instalações objeto da investigação”, afirmou, em documento, o Exército Brasileiro, que não reconheceu que os destacamentos de operações de informações foram usados para tortura.

Na nota divulgada hoje, a CNV avalia que as conclusões das sindicâncias estão equivocadas e que desconsideram inclusive que o Estado brasileiro já “reconheceu sua responsabilidade por aquelas condutas criminosas de militares e policiais praticadas durante a ditadura, incorrendo inclusive no pagamento de indenizações por conta justamente de fatos agora surpreendentemente negados”.

Para Dallari, a prática de tortura em instalações do Estado brasileiro não é sequer discutível. “É público e notório”, destacou, acrescentando que o pedido de informações da CNV enviado em fevereiro, menciona casos de tortura e morte vivenciados nas instalações e que geraram o pagamento de indenização por parte do Estado. Uma seleção feita, justamente, para que não houvesse dúvidas sobre o que ocorreu naqueles locais.

O coordenador da CNV considera um paradoxo o fato de, no mesmo mês em que a comissão recebeu a negativa das Forças Armadas, ter recebido também documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, produzidos no período de janeiro de 1967 a dezembro de 1977, que foram tornados públicos hoje, por meio do site da CNV.

Segundo Dallari,  os arquivos mostram o profundo conhecimento que se tinha sobre a prática de tortura no Brasil, inclusive nos locais investigados pelas Forças Armadas a pedido da comissão. Um deles, de 1973, registrado como A-90, detalha o procedimento dos interrogatórios, citando inclusive os métodos de tortura física ou psíquica e que foram usados para obter informações.

Na nota, comissão diz que enviará pedido de esclarecimento ao Ministério da Defesa sobre as informações e conclusões produzidas pelas sindicâncias. “Nós vamos continuar perguntando”, disse o coordenador, para quem a situação não só prejudica o trabalho da CNV, que tem até o mês de dezembro deste ano para concluir os seus trabalhos, como gera o desgaste das forças diante da população.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mercado financeiro alimenta alarmismo e escolhe seu candidato

Assim como em 2002, preferência ou rejeição em torno de candidaturas alimenta onda especulativa. O país está ruim assim?

Por Vitor Nuzzi, no Rede Brasil Atual 

dilma_eleições_mercadoInício de maio, meio de semana, começa a circular um boato sobre pesquisa do instituto Datafolha que indicaria queda nas intenções de voto da presidenta Dilma Rousseff. A pesquisa nem havia começado – e depois acabaria indicando estabilidade em vez de queda –, mas bastou para o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo acelerar. Assim tem sido nos últimos meses. O mercado financeiro abriu as apostas, marcadamente em nomes identificados com a oposição e em propostas no rumo da flexibilização de regras. A enxurrada de notícias e informações, não raro, atropela análises mais ponderadas. Um momento semelhante ao de 2002, quando o chamado “risco Lula” expunha o então candidato como uma ameaça para o equilíbrio econômico.

Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo,­ a comparação é clara. “Os mercados tendem a exagerar no movimento de preço. Havia um clima de pessimismo, como está sendo colocado agora. O Lula estava sendo ameaçado de ser deposto três meses depois (de eleito). Claramente, o clima era esse”, recorda. A explicação é relativamente simples: “Os mercados são insanos. Não têm fundamentos, são essencialmente especulativos.” Tanto Belluzzo como o professor de Ética e Filosofia Política Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP), referem-se ao termo “antropoformização” para se referir ao mercado, que no noticiário surge como um ser vivo, demonstrando reações emocionais.

“Por um lado, o mercado é apresentado como um grande agente de racionalidade. Mas é curioso que existe esse conjunto de metáforas que apresenta o mercado como nervoso”, diz Janine, para quem as duas leituras possíveis no atual discurso econômico (governista e oposicionista) contêm elementos ideológicos.

Estratégia

Nervoso, mas que sabe o que quer. “O investidor é avesso a mudanças bruscas”, diz o analista Raphael Figueiredo, da Clear­ Corretora. “Há uma tentativa de impor no preço uma expectativa futura. Essa decisão tem de ser rápida, emocional. O impacto vai ganhando cada vez mais peso quando se enxerga naquele candidato, ou grupo de candidatos, um cenário de menor tranquilidade. Ele tenta proteger sua estratégia e coloca no preço essa expectativa”, acrescenta, distinguindo ­visões de curto e longo prazo, resultando em conflito que leva ao movimento especulativo.

Algo que pode partir do nada. Em 13 de maio, lembra Figueiredo, bastou uma declaração do presidente do PT, Rui Falcão, sobre controle de capitais, para “assustar” o mercado. “Um rumor vai sendo criado de forma muito intensa. Em poucos minutos, o mercado tende a embutir no preço.”

Também para o analista, o clima atual lembra 2002, quando se dizia que, vencendo Lula, haveria descontrole de gastos públicos e calote no pagamento de juros da dívida, entre outros perigos. “Existia o risco Lula, o mercado era avesso ao Lula e o mercado cresceu. No histórico recente, é um governo que tem intervindo mais na economia.”

A questão é se a economia, ou o país, vai tão mal assim. Os consensos, diz Belluzzo, trazem avaliações nem sempre corretas. E observadores detectam que o noticiário dá ênfase, principalmente, a temas de interesse do mercado financeiro.

O assunto chamou, inclusive, a atenção de uma jornalista habituada à cobertura econômica, Paula Puliti, que no ano passado publicou um livro a respeito do assunto (O Juro da Notícia – Jornalismo econômico pautado pelo capital financeiro), resultado de uma tese de doutorado orientada, na USP, pelo professor ­Bernardo Kucinski. Segundo ela descreve, nos últimos anos, o noticiário tem sido dominado pelo chamado discurso de pensamento único.

Retórica

dilma“No Brasil, a retórica neoliberal conquistou os jornais em parte por influência da imprensa estrangeira, mas em escala muito maior por conta do discurso estrategicamente preparado e veiculado por banqueiros, executivos de empresas, economistas e acadêmicos alinhados com a forma neoliberal de ver o mundo, que, para eles, é a única capaz de promover crescimento econômico sustentável e distribuição da renda, colocando fim às desigualdades sociais de forma científica e apolítica”, escreve a jornalista. Essa “financeirização” do noticiário também teve como consequência afastar o leitor comum, que não via relação das notícias com seus cotidianos.

Em seu trabalho, a pesquisadora fez, por exemplo, uma análise tendo como amostra um período de 14 anos (1989-2002), mostrando a ênfase na “financeirização” a partir de 1990: notícias sobre reformas, privatizações, impostos, gastos públicos, arrecadação, câmbios, juros estiveram sempre em evidência. Temas sociais – como investimentos em saneamento básico, transportes públicos e habitação – nunca foram destaque. Uma das conclusões: “Ideias e opiniões que não condiziam com o pensamento neoliberal praticamente não apareceram nas notícias econômicas”.

“É um fenômeno internacional”, afirma o professor Antônio Corrêa de Lacerda, do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, um dos entrevistados no livro. “À medida que houve a globalização, há uma tendência de as finanças influenciarem as próprias economias, governos, mídia. No caso brasileiro, tenho a impressão de que isso é mais forte”, diz Lacerda, observando que os bancos, em particular, têm “departamentos bem estruturados que fornecem análises para a mídia, de excelente qualidade e de fácil digestão para o jornalista”.

O resultado é que se vê uma visão “meio consensual”, que às vezes exclui o contraponto, representado pelo setor produtivo e pelos trabalhadores. “O mercado financeiro é, por natureza, especulativo. Num ano eleitoral, isso se torna mais forte. A melhor maneira seria ter fontes qualificadas de outros segmentos da sociedade. Você teria um debate mais qualificado.”

Lacerda diz sempre recomendar a entidades empresariais que seus departamentos econômicos tenham atuação mais incisiva na mídia. Isso também vale para as entidades de trabalhadores. Ele observa que, da forma como é apresentado, o noticiário pode transmitir a impressão de que a economia se mostra pior do que realmente está. “Na verdade, não há um balanceamento entre os vários aspectos que deveriam ser levados em conta, como desemprego baixo, aumento da renda, o fato de ser um país dos que mais recebem investimentos estrangeiros no setor produtivo. Você vê muito uso do off (declarações sem identificação da fonte) como instrumento. Alguém disse que o mercado pensa assim e aquilo vira uma verdade.”

‘Ronronando’

dilma_eleiçõesProfessor da PUC e da Universidade Metodista de São Paulo, José Salvador Faro identifica uma “tendência ideológica” dos noticiários, mas ressalva que sua observação, como leitor, não é linear. “Percebo que há cadernos de economia com boas matérias de política econômica, como no Estado de S. Paulo, que transcende um pouco a posição ideológica do Estadão. O Valor traz excelentes matérias de análise”, comenta. Mas o ponto de vista de que o mercado deve ser o regulador da economia não causa dúvida de que aparenta um discurso único. “A orientação editorial é pró-mercado, e há um discurso econômico muito hermético, um noticiário para iniciados.”

A questão se estende ao próprio ensino, acredita Faro. “As escolas de jornalismo não ensinam. Grande parte do leitorado fica fora da compreensão dessas questões.” O problema se estenderia à formação de economistas, acrescenta o professor. Ele cita artigo publicado no Valor Econômico que chamava a atenção justamente para o fato de as faculdades, em determinado momento, terem abandonado o estudo de algumas linhas de pensamento, menos monetaristas. “Se todo mundo fala a mesma coisa, os jornais acabam sendo homogêneos”, constata.

Porta-voz do pensamento liberal, a revista britânica The Economist, que algumas vezes tentou “derrubar” o ministro da Fazenda, Guido Mantega, publicou recentemente um texto elogioso aos principais pré-candidatos de oposição, Aécio Neves e Eduardo Campos. “Empresários e banqueiros saem ronronando ao encontro com os dois homens”, diz a publicação, que não deixa de citar resultados importantes do governo Dilma Rousseff, como as baixas taxas de desemprego e o crescimento da renda.

O também britânico Financial Times reforçou o coro das reformas, ao sustentar que as preocupações generalizadas no país estão começando a empurrar o debate “para uma direção amigável ao mercado”, o que, para o jornalão, só pode ser “uma coisa boa”. Por sua vez, analistas brasileiros já vêm batendo insistentemente na tecla dos “ajustes” e das “medidas impopulares” – identificadas com Aécio, o que provocou abalos na aparente união entre as candidaturas antigoverno. Tanto Campos como a vice Marina já procuraram demarcar territórios em relação aos tucanos.

Com essa ênfase na cobertura financeira e a proximidade das eleições, terá o chamado mercado escolhido seus candidatos? A lógica indica que sim. “O mercado não dá preferência a partidos, mas a um ambiente de mais estabilidade. Corre para o lado político que transmita esse ambiente. Não vai vestir uma bandeira”, diz o analista Raphael Figueiredo. “O modelo de negócio do investidor embute entre suas variáveis o fator risco. E tem o fator risco político, que não é mensurável.”

Renato Janine vê o debate eleitoral em aberto, à medida que ninguém ainda definiu as “mudanças”, demanda que aparece nas pesquisas. “Ao menos a discussão moralista não está surgindo. Prefiro uma discussão sobre economia a uma discussão sobre aborto.” Mas ainda há problemas no debate político, avalia. “Eles ficam brigando pelo terço que já está convencido. Parece que as pessoas esqueceram que quem decide a eleição são os indecisos.”

Para o professor Lacerda, está se formando certo consenso pró-oposição. “Mas uma coisa é o que o mercado pensa e outra o que a sociedade pensa.”

Belluzzo não vê “importância” nos candidatos do ponto de vista do mercado. “Eles já foram capturados”, afirma. Com isso, ele diz que o debate vai sendo dominado por uma visão restrita, considerando apenas fatores como inflação, superávit fiscal, câmbio. Dentro disso, análises que defendem que mesmo uma alta da taxa de desemprego podem valer a pena. “Criam um clima de catástrofe. O debate econômico hoje está muito centrado nessa tentativa de apresentar as coisas piores do que estão. Isso já faz parte da luta eleitoral mesmo. Eles (mercado) exigem uma fidelidade canina.” E vão sempre lembrar de quem aparentemente se opõe. “Eles nunca aprendem nada, mas também não esquecem de nada.”

sábado, 28 de junho de 2014

A presidenta traída

As razões de Cabral e Pezão não são as de Brutus e Cássio, nem por isso deixaram de apunhalar Dilma pelas costas

Por: Mauricio Dias, no CartaCapital

dilma_traição_cabralTraição anunciada, traição consumada. O ex-governador Sérgio Cabral e o ex-vice dele Luiz Fernando Pezão, este em busca de um mandato completo de quatro anos, tornaram difícil, talvez impossível, as viagens de Dilma Rousseff ao Rio de Janeiro, para fazer campanha eleitoral em palanque armado pelo PMDB, partido com o qual o PT tem instável aliança nacional.

Nos últimos dias, Cabral e Pezão selaram desconcertantes acordos políticos com o PSDB, o PPS e o DEM no plano estadual. Esse grupo inspira o uso daquele velho jogo de palavras. É um trio partidário capaz... de tudo. Têm, agora, a missão de carrear votos para Pezão e também para o presidenciável tucano Aécio Neves. Um reforço inesperado para a oposição no terceiro maior colégio eleitoral do País com um contingente de 12 milhões de eleitores.

Para o PMDB, o racha resulta da rebelião local do PT. Após sete anos e três meses a serviço dos peemedebistas, por imposição da direção nacional, os petistas fluminenses decidiram lançar candidato próprio ao governo estadual. Lindbergh Farias, um ex-cara-pintada que emergiu da eleição de 2010 com histórica votação para o Senado. Foram 4,2 milhões de votos. Mais de um terço do total do estado.

Com a força dessa votação e apoio do ex-presidente Lula, lançou-se como pré-candidato ao governo do estado. Dilma e o PT estão diante de um caso clássico de traição. Há rompimentos em outros estados. No Rio, entretanto, há rastro de traição. Tem um gosto mais amargo. Além de substancial ajuda material do governo federal, a relação política era alimentada por juras públicas de amor sincero e lealdade política.  Sérgio Cabral não digeriu o sapo. Tentou bloquear a candidatura de Lindbergh. Fracassou quando foi chorar no ombro da presidenta. Ele mesmo divulgou a resposta dela: “Isso é coisa do Lula”.

Lula, de fato, tem um projeto de dominar politicamente o Sudeste, onde está quase 50% do total de eleitores brasileiros. Isso faz parte de uma virada no discurso dele. Ficou visível na recente convenção do PT, onde ele apareceu com uma camisa branca com a sigla “PT” sob o blazer preto desabotoado. Franca exibição. Desta vez, o ex-presidente temperou a necessidade de alcançar o objetivo nacional, a reeleição de Dilma, com ênfase na eleição de governadores, senadores e deputados petistas.  Sérgio Cabral pagou com a mesma moeda a resposta que ouviu de Dilma. Mas a moeda dele tinha cara e coroa. Refundida virou um punhal.

A arma branca estava preparada desde que emergiu um movimento chamado “Aezão” (Aécio mais Pezão), aparentemente comandado por Jorge Picciani, milionário político interiorano, presidente do PMDB fluminense e extremamente ligado a Cabral.  Diante dos afagos de Cabral e Pezão, a reação, naquele momento, parecia uma ovelha desgarrada do rebanho.

Logo após o momento em que as pesquisas começaram a indicar uma possibilidade de Dilma não ganhar no primeiro turno, armou-se a cena final de violação do acordo. Ou seja, a traição. Cabral e Pezão não são movidos pelas razões que levaram Brutus e Cássio a apunhalar César. Cabe, porém, lembrar Marco Antônio: segundo Shakespeare, diante do corpo sangrado  do cônsul abatido  aos pés da estátua de Pompeu, diz: “A ambição torna as pessoas duras e sem compaixão”.

terça-feira, 24 de junho de 2014

O ressentimento de Faustão com a Copa no Brasil

A culpa não é dele nem de sua equipe: é do domingo, que vai pouco a pouco se libertando do cativeiro da tevê aberta e ganha mais opções. Por Nirlando Beirão

Por: Nirlando Beirão, no CartaCapital

faustão_copadomundoFausto Silva anda muito nervoso ultimamente. Perdeu muito do humor que o consagrou e de sua verve inteligente e debochada. Aderiu aos rabugentos do #nãovaiterCopa e, já que tem Copa, sim, tenta manter a bandeira do encrenqueiro, distribuindo, sem nenhum fair play, insultos ao evento esportivo. A delicada defesa de Honduras deve estar morrendo de inveja do novo estilo Faustão.

O que estará acontecendo com ele? Não confere a suspeita de que pesa no ex-gordo o ressentimento com os quilinhos a mais que ele, de uns tempos para cá, recuperou.

Não consta, tampouco, que Faustão esteja em momento de renovação de contrato, o que explicaria o seu alinhamento precavido com a agenda político-eleitoral do patrão bilionário. Na verdade, o cidadão Fausto Silva já declarou o voto na oposição. Faz sentido. A turma que faz plantão na sua lendária pizza semanal é a mesma do camarote vip que vaia e ofende.

Se o ex-cronista de campo perdeu de vez a esportiva é porque a vida profissional não lhe faculta mais goleadas no ibope. Fausto Silva devia é, apesar das pressões, relaxar.

A culpa não é dele nem de sua equipe. O culpado é o domingo, cada vez menosDomingão do Faustão. O domingo brasileiro vai pouco a pouco se libertando do cativeiro da tevê aberta. Há mais opções na própria tevê. Aquele exército de popozudas que vem esfregar o traseiro no rosto do espectador entorpecido tem seus dias contados.

Tem razão o Faustão em se irritar com a dobradinha Lula-Dilma. Os pobres ficaram economicamente menos pobres – e culturalmente menos indigentes. Azar de quem, como os autocratas dos auditórios, apostou no contrário.

*Publicado originalmente na edição impressa de CartaCapital com o título "Perdeu a esportiva"